Depredação ambiental

Substituir vegetação nativa por gramado é depredação ambiental

Lou Menezes*

Paradoxo na criação de área verdes urbanas: a pura e simples substituição da vegetação nativa por monumentais gramados pode trazer problemas ambientais. O correto seria uma integração da vegetação nativa com o urbanismo paisagístico das cidades.

Apesar dos esforços desenvolvidos por governos e entidades ambientalistas, a preservação da natureza tem sido feita em progressão aritmética enquanto a depredação se manifesta em progressão geométrica. Nas últimas três décadas a terra perdeu um terço de seus recursos naturais.

Segundo o inglês Robert May, professor e ecólogo estudioso da biodiversidade, a ação do homem sobre o ecossistema planetário está originando a sexta extinção maciça das espécies da Terra, que poderá ficar sem florestas dentro de 200 ou 300 anos. A diferença entre esta e as cinco extinções anteriores ocorridas no planeta é que a atual é provocada por seres humanos e está acontecendo mais rapidamente. Ainda de acordo com o citado cientista, em apenas 100 anos o homem destruiu a metade das selvas tropicais de nosso planeta.

No caso específico dos estudos envolvendo as espécies brasileiras de orquídeas através do "Projeto Orquídeas do Brasil" (IBAMA-DF), foi possível constatar que o desaparecimento dos habitats no Planalto Central brasileiros, tem sido causado pelo uso de área campestres e do cerrado para atividades agro-pastoris, notadamente o plantio de soja e a criação de gado. Além disso, a exploração de afloramentos rochosos para a retirada de granito e/ou calcário, bem como de pedras para uso em paisagismo, juntamente com a comercialização ilegal de plantas de hábito rupestre desses afloramentos, tem incrementado a depredação, ameaçando de extinção às espécies. Outrossim, a ação concominante do corte da vegetação arbórea e arbustiva do cerrado para produção de carvão e da fuligem poluidora do ar expelida pelas carvoarias, acelera todo esse processo devastador.

Recentemente, em Brasília, um caso "sui-generis" chamou a atenção e causou constrangimento, ou seja, o desaparecimento  de uma pequena área nativa na península norte do Lago Paranoá, zona urbana, em frente ao clube do Congresso e rica em espécies de orquídeas terrestres. O pequeno habitat, foi desmatado e terraplanado para o plantio de grama dentro do processo urbanístico de Brasília, ou seja, a criação de grandes áreas verdes. O desaparecimento de amostras da vegetação nativa, o cerrado (savana), que poderiam estar perfeitamente integradas às grandes área verdes urbanas, não deixa de ser um paradoxo dentro do contexto consrvacionista daqueles que baseados na estética e beleza de monumentais gramados, acreditam estar contribuindo para a preservação da natureza.

* Engenheira Florestal, trabalha no IBAMA - Brasília, DF. Conservacionista, tem se dedicado ao estudo da flora de orquídeas através do Projeto Orquídeas do Brasil (DEREF/DIREN/IBAMA).



 
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