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Energia limpa Economia e meio ambiente ganham com o Gasoduto Bolívia-Brasil Cinco estados terão energia mais limpa, com promissoras mudanças na matriz energética Silvestre Gorgulho 01 de Fevereiro de 1999 ![]() Essa é uma obra de fôlego: ela está presente diretamente em 135 municípios brasileiros, atrai trabalhadores de cinco países, requer um investimento de US$ 2 bi e é a maior obra que se realiza atualmente na América do Sul. A primeira fase do Gasoduto Bolívia-Brasil, inaugurado dia nove pelo presidente FHC, sai de Santa Cruz de La Sierra, na Estação de Rio Grande, na Bolívia, e chega até Guararema, São Paulo. Tem 1.970 km de extensão. Na segunda fase, até Porto Alegre, a ser inaugurada em outubro, o gasoduto completará 3.150 km de extensão. Segundo o presidente da Petrobras, Joel Rennó, esse é um investimento que vai mudar definitivamente a matriz energética brasileira, com benefícios incalculáveis. À medida que os tubos vão passando por cada um dos 135 municípios ou por cada uma das 22 aldeias indígenas, a economia da região vai se transformando, os hábitos das pessoas mudando e a esperança pelo melhor desempenho econômico e social aumentando. Para se ter uma idéia desta transformação, basta lembrar que o gás boliviano substituirá, com muita vantagem, os combustíveis utilizados (carvão, lenha, derivados de petróleo). O gás natural será distribuído nos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que respondem por 75% do PIB e por 82% da produção industrial. Vantagens ambientais Gás natural é fonte de energia econômica e limpa Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o gás boliviano vai possibilitar a construção de duas termelétricas. Uma em Corumbá (com 150 MW) e outra em Campo Grande (com 300 MW). Evidente que o quadro econômico sofrerá alterações imediatas, pois possibilitará o aproveitamento dos 621 milhões de toneladas da terceira maior reserva de minério de ferro do Brasil e dos 16 bilhões de toneladas de calcário existentes no Estado. 22 tribos indígenas entram no Plano de Compensação Embora o traçado da obra não corte as terras indígenas, 22 aldeias situadas num raio de 30 km das obras e que sofrem influência do gasoduto, foram incluídas no Plano de Compensação à Comunidade. Das 22 aldeias, 18 (de etnia Terena) estão localizadas em Mato Grosso do Sul, uma aldeia (Terena e Kaigang) está em S. Paulo e as outras três (Guarani) estão em Santa Catarina. Assessorado pelo Articulador dos Direitos Indígenas e representante da FUNAI, Cacique Marcos Terena, (veja artigo de Terena ao lado) a equipe da Petrobras, comandada por Walter Shimura, viabilizou todos os acertos com as lideranças indígenas. A negociação foi tão competente e amigável que rendeu a Shimura um presente-símbolo: um exemplar do Novo Testamento na língua terena, acompanhado de um dicionário Português/Terena. Caminhando em direção ao futuro Marcos Terena* Os Povos Indígenas sempre foram ricos na sua forma de viver. Um dia porém, chegou o homem branco e suas ricas promessas para um mundo melhor e inúmero presentes. Ao longo do tempo, logo após esses primeiros contatos, fomos transformados em "selvagens", "preguiçosos" e até "obstáculos ao desenvolvimento", carentes e dependentes de tudo. No Brasil esse relacionamento errado trouxe um impacto tão forte que conseguiu dizimar centenas de povos que viviam felizes no meio da selva. No ano de 1996, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Andino de Fomento, apresentaram junto com a PETROBRAS, a FUNAI e o IBAMA, o grande projeto Gasoduto Bolívia-Brasil a todas as lideranças indígenas do Mato Grosso do Sul, São Paulo e Santa Catarina, como o mais moderno sistema de condutores de gás e necessário para o desenvolvimento e a modernidade do nosso País. Ao atravessar esses estados, lá estavam de novo, diversas comunidades indígenas. Numa linha de pensamento costumeira, era necessário o chamado "pagamento de indenização", os índios porém não queriam uma simples indenização, mas conversar, sentar numa mesa de negociação, conhecer melhor o desenvolvimento que chegava e, acima de tudo, demonstrar que o dinheiro acaba, mas o povo não. Assim nasceu o Plano de Desenvolvimento dos Povos Indígenas do GASBOL. Numa primeira oferta de U$ 150 mil, as 22 aldeias apresentaram uma demanda de U$ 2 milhões e, após um último acordo, chegaram a um pacote de empreendimentos final de U$ 1 milhão. O importante de tudo isso, como sempre salientaram as lideranças, foi demonstrar a capacidade que os povos indígenas tem de falar, de contestar e de contribuir quando são ouvidos, quando são respeitados, numa perspectiva de que todo e qualquer projeto no futuro deve caminhar nesse sentido. Não dos planos mirabolantes dos tecnocratas em seus gabinetes, mas daqueles construídos a partir de uma negociação sem intermediários e aparentemente demorada junto a cada comunidade, pois a caminhada indígena ao longo do tempo, foi em direção ao futuro. Não basta sobreviver, mas há que viver melhor! * Marcos Terena é assessor da Funai, Articulador dos Direitos Indígenas e integra o Conselho Editorial da Folha do Meio.
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