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Educação não ambiental No Paraná crianças são usadas para difundir o uso de agrotóxicos Doutrinação de 1.200.000 jovens visa mais garantir o mercado do que promover a educação ambiental Dioclécio Luz 01 de Fevereiro de 2000 ![]()
No Paraná se desenvolve uma experiência incomum de propaganda e estímulo ao uso de agrotóxicos. Lá os professores da rede pública ensinam crianças do meio rural a usarem os pesticidas. Isto acontece dentro de uma farsa: aparentemente as crianças estão participando de um programa de educação ambiental onde se aborda a questão da saúde, meio ambiente e até cidadania. Mas, na prática, elas estão sendo doutrinadas para no futuro se tornarem consumidoras de agrotóxicos. Uma exótica parceria entre o governo do estado do Paraná e as indústrias fabricantes de agrotóxicos garante a doutrinação sistemática das crianças. O "Programa Agrinho", seu nome oficial, no ano passado catequizou 1 milhão e duzentas mil crianças e adolescentes da rede pública de 310 municípios. Durante o ano de 1999 elas aprenderam sobre "tríplice lavagem", um modo de tratar as embalagens de agrotóxicos descartadas. Desde 1996, quando foi criado o programa, que elas aprendem um aspecto do uso dos agrotóxicos. Ou seja, não se questiona o uso dos agrotóxicos nas lavouras, mas como usá-los. Desta vez aprenderam como resolver um problema criado pelos fabricantes: qual o destino das embalagens descartadas. A jogada de marketing dos fabricantes foi a tríplice lavagem, uma "solução ecológica" para o problema. "Adolescência, sexualidade e amor (saúde jovem)"; "Dentes saudáveis, criança feliz (odontologia preventiva)"; "Praticando a cidadania na escola (cidadania)"; "Saúde na família (saúde)"; "Por que a água é um recurso natural renovável mas limitado (água)?"; "A sobrevivência do homem depende da biodiversidade (biodiversidade)"; "O que você pode fazer para evitar o efeito estufa (clima)"; e "Qual a importância do solo para o equilíbrio ambiental (solo)?". Fortuna de prêmios No ano passado, 18.143 professores da rede escolar atuaram em defesa dos interesses dos fabricantes de agrotóxicos. Depois de treinados, receberam vasto material "pedagógico" sobre os temas que foram abordados nas salas de aula durante o ano letivo. Tiveram liberdade para trabalhar os temas da forma que achassem mais conveniente. No final, as crianças fizeram redações que concorreram a prêmios. Se o aluno é premiado o professor também é. Em 1999 foi uma fartura de prêmios: 10 automóveis Pálio 0 Km, 90 televisões, 90 aparelhos de som, 45 microondas, 45 bicicletas, 10 computadores, 9 cursos de informática, e 9 CD Rom educativos. Quem paga tudo isso? Conforme Patrícia Lupion Torres, (filha do deputado fedral Abelardo Lupion, PFL-PR), funcionária do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no estado do Paraná, (Senar/PR) e coordenadora do Programa Agrinho, o custo total do programa é de R$ 2,4 milhões. Metade do custo do Agrinho é financiado pelas indústrias fabricantes de agrotóxicos: Bayer, Novartis, Dow AgroScience, Jacto, Milenia, Du Pont, Hokko, e pela entidade que reúne todas elas, a Associação Nacional de Defesa Vegetal, Andef. A outra metade é dinheiro público, do Senar. Sem contar a rede pública de ensino, que é disponibilizada para o trabalho, e mais funcionários da Secretaria de Agricultura e da Secretaria do Meio Ambiente. Um programa para as crianças do campo O Agrinho surgiu em 1996 como um projeto piloto para tratar unicamente de agrotóxicos. Seu objetivo era claro: fazer com que as crianças se acostumassem com os venenos na lavoura, preparando-as para que no futuro se tornassem um mercado dócil e sem alternativas. Isto já dentro das escolas da rede pública, numa parceria do governo do Paraná com as indústrias de venenos. No ano seguinte, sempre com o apoio do governo do estado, a indústria de pesticidas cristalizou a farsa, ocultando suas intenções com a incorporação de novos temas de estudo: "educação ambiental" e "saúde". Em 1998 o Agrinho -promotor de vendas de venenos - já "estava preocupado" até com as cáries das crianças. O Agrinho hoje está definitivamente incorporado ao currículo de crianças de 7 a 14 anos da rede pública do estado. Agrinho é um personagem, um garoto de 9 anos, que tem como companheira inseparável sua irmã, Aninha. Eles estão em histórias em quadrinhos, jogos e passatempos. O Agrinho é ministrado juntamente com as matérias do cursos normal das escolas estaduais e municipais do Paraná. O Senar/PR, coordenador do programa, promove o treinamento dos professores, que recebem material específico. Cada aluno também recebe uma cartilha. Os professores assumem o compromisso de trabalhar 36 horas semanais os conteúdos, de forma transversal. São promovidos dois concursos: um de redação, para as crianças, e um de experiência pedagógica (um relatório do professor sobre como trabalhou o material recebido). Se a criança é premiada o professor também é. Todo mundo se interessa porque os prêmios são ótimos. Em 1999, as crianças participaram com quase 9 mil redações.
A matéria na íntegra você encontra na edição de janeiro/fevereiro-2000 da Folha do Meio
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