Recursos Hídricos

ONU comemora Dia Mundial da Água

No Brasil, muitas escolas, ONGs e prefeituras promovem eventos e fazem uma semana de reflexão para pedir menos poluição e mais respeito aos recursos hídricos

Fernando A. Rodriguez

Sabe por que a Organização das Nações Unidas deixou de lado, por um instante, as discussões sobre os graves problemas da humanidade, como guerras, guerrilhas, terrorismo, fome, direitos humanos e disputas de fronteiras para debater e justificar a criação de um dia dedicado a água? Muito simples. Porque a ONU percebeu que a água passou a ser um recurso natural tão estratégico, tão vital e, por isso mesmo, tão disputado, que hoje ela própria já é motivo de vários conflitos entre pessoas, empresas e nações. Esses conflitos têm três vertentes que precisam ser corrigidas: o uso e abuso, o desperdício e, sobretudo, o crescimento vertiginoso das contaminações de mananciais, de rios, do mar e até dos lençóis freáticos. Previdente, a ONU resolveu criar um dia de reflexão. Estabeleceu que todo dia 22 de março é dedicado à água. Assim, a data passa a ser comemorada com palestras, teatros, seminários e movimentos que ajudem a sensibilizar cidadãos e autoridades para uma mudança de hábito: a água é um produto finito e que tem que ser preservado.

O que está levando o tema água a se tornar preocupação comum? Recentemente foi sancionada uma Lei de Recursos Hídricos. Agora a imprensa salienta a tramitação no Congresso Nacional de uma Lei criando a Agência Nacional de Águas para cobrar pelo seu uso. É só para isso?
A década de 70 foi marcada pelo despertar das preocupações ambientais. Até o início dos anos 80, as questões relacionadas ao uso da água (geração de energia, abastecimento doméstico e industrial, coleta de esgoto, etc ) e seu manuseio não levou em conta suas consequências ambientais.
Hoje não existe mais água no mundo do que havia 2000 anos  atrás, quando a população era menor do que 3% do que é hoje, e ainda continua e continuará crescendo. 
O Brasil, no todo, um país rico em água, dispõe de 12% de água doce superficial do mundo, tem vivido uma ilusão de abundância a despeito das diferenças de sua má distribuição pelo seu território ou durante os meses do ano.
Ao mesmo tempo em que nos deparamos com as secas no semi-árido brasileiro,   a assistimos no Rio Grande do Sul e se enfrenta os problemas das cheias em São Paulo.
Mesmo nas regiões caracterizadas como de água abundante, esta está se tornando escassa por  sua qualidade que deteriora transformando-se na maior questão ambiental do momento. Tem-se disseminado a contaminação tanto da água superficial como subterrânea. Por essa razão o abastecimento da água de São Paulo busca água a mais de 150 km de distância.
Foram grandes as agressões que os rios, riachos, córregos e arroios sofreram nos últimos anos. Quem não se lembra daquele rio onde se banhava, pescava, ou simplesmente se desfrutava de sua beleza natural e hoje não passa de um esgoto a céu aberto.
Pavimentamos nossas ruas para nosso conforto, com isso diminuímos a capacidade de infiltração de água nos solos, provocando, na hora das chuvas, acumulo muito rápido do escoamento das águas superando-se, assim,  a capacidade de condução de água daquele riacho que serve à nossa cidade, advindo daí inundações mais graves.
Para utilização de forma sustentável, a água não pode ser retirada de suas fontes ou contaminada com esgotos, dejetos industriais e lixo em velocidade superior ao que pode ser reabastecido pelo ciclo hidrológico (evaporação, precipitação, escoamento e infiltração) e de sua capacidade de regeneração. A natureza é sábia, ela sabe que precisa absorver resíduos, mas tem seus limites. Lembre-se que todas às vezes que lavar suas mãos e utilizar 1 litro de água são necessários 10 outros no riacho para restabelecer suas condições naturais.
Todos esses problemas já se fazem sentir muito próximos de todo cidadão, daí porque o tema está em evidência. Outrora caminhávamos para a crise silenciosa e sorrateiramente. Hoje ela não está mais oculta, já nos incomoda à olhos nus.
Essas alterações que o homem tem provocado no meio hidrológico ainda não são completamente entendidas, o que pode ser irreversível em alguns aspectos, comprometendo o futuro.
Para sobrevivermos, nos padrões da ci-vilização a que temos como referência, precisamos e continuaremos a alterar a hidrologia natural do planeta para atender as nossas necessidades.

Todas às vezes que lavar suas mãos, e utilizar
1 litro de água, são necessários 10 outros no riacho para restabelecer suas condições naturais

O maior problema está nos países pobres, em desenvolvimento, como o nosso, onde a maioria dos dejetos e resíduos são lançados nos rios sem nenhum tratamento. E tratamento custa caro.
A Lei brasileira é considerada uma das mais avançadas do mundo contemplando as questões básicas da sustentabilidade do uso da água, como, entre outras: indissociabilidade quanto ao manejo da qualidade e da quantidade; não se pode fazer a gestão dos recursos hídricos independente da gestão do uso do solo; os usuários têm que participar do processo decisório quanto ao planejamento dos usos; não se pode planejar um único uso sem considerar as múltiplas finalidades da água (abastecimento, geração de energia, navegação, lazer, pesca, proteção ao ecossistema, etc); água como bem finito e econômico; definição da bacia hidrográfica como unidade planejamento e gestão.
Para vencermos esses desafios são necessárias duas ações essenciais: regulação e educação quanto ao manejo efetivo sustentável, com base nos recursos locais.
Todas as ações inerentes a recursos hídricos são de longo prazo e requerem tempo e recursos para serem implementadas.  Se não são adotadas com oportunidade a natureza nos cobra caro, quando não com riscos de vida.
A criação da Agência não pode ser vista pura e simplesmente como cobradora pelo uso da água. É uma forma moderna e inteligente de enfrentar os problemas como os acima mencionados e se preparar para um futuro melhor. Ela pode ser traduzida  sinteticamente como sendo o meio pelo qual o governo vai implementar sua política nacional de recursos hídricos, ou seja se constitui no instrumento de supervisão, controle, avaliação, fiscalização do uso dos recursos hídricos de domínio da União.
As bases estão sendo formadas e, é preciso implementá-las, usar a criatividade, alocar os recursos necessários em quantidade e oportunidade.   Como o poeta Shakespeare certa vez escreveu: "Seja grande em atos, quando se tem sido em pensamentos".
O desafio está em agir inteligente, apropriada, oportuna e responsavelmente na questão da água para nosso uso e dos que virão depois.

O maior problema está nos países pobres, em desenvolvimento, como o nosso, onde a maioria dos dejetos e resíduos são lançados nos rios sem nenhum tratamento

* Fernando A Rodriguez é Engenheiro-Agrônomo da CODEVASF Especialista em Recursos Hídricos



 
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