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Abril: mês do índio O ressurgimento dos Avá-Canoeiro Duas faces do progresso: o mesmo homem branco que exterminou, agora luta para salvar uma cultura Eliana Granado(Antrop.) e Magda Rocha(jornalista) 01 de Abril de 2000 ![]()
Para falarmos sobre os índios Avá-Canoeiro temos que nos remeter à década de 70. Foi no decorrer desses tristes anos que o último e terrível massacre quase dizimou a da tribo. Comandado por fazendeiros locais, o ataque à aldeia fez com que ficassem escondidos até 1983. Durante esse tempo, os sobreviventes tiveram que suportar todos os infortúnios das matas cerradas do norte do estado de Goiás, o que não os livrou da perseguição do homem branco e a sua insaciável sede de conquista. Reduzidos a quatro, os Avá-Canoeiro desistiram da vida nômade e decidiram não mais se esconder do mundo dito "civilizado". A princípio, sua única opção de sobrevivência. Atualmente, quase 20 anos depois, quando se faz alguma referência à tribo, fica difícil imaginar que é composta por menos de duas dezenas de índios. O tempo ainda não foi suficiente para aumentar esse grupo, já assentado pela Fundação Nacional do Índio, Funai, e considerado, há muito, os senhores do rio Alto Tocantins e de todo o seu vale. Localizados às margens do Tocantins, lentamente, vão conseguindo reproduzir suas tradições e rituais. Enquanto isso, os agentes da Funai tentam encontrar outros remanescentes para juntá-los ao grupo. A preocupação com o que sobrou dessa cultura, é compartilhada por Furnas Centrais Elétricas. Parte das terras por eles ocupada, pertence a área de influência da Hidrelétrica de Serra da Mesa, usina cujas obras tiveram início em 1984. Como a sua barragem está localizada no curso principal do rio Tocantins, no município de Minaçu (GO), a empresa sentiu-se na obrigação de firmar um convênio com a Funai. Dessa forma, a segunda maior empresa do país dá sua preciosa parcela de contribuição para o desenvolvimento e a preservação cultural desses índios. Os recursos provenientes de Furnas permitem ações de suma importância, tais quais o isolamento das terras ocupadas pelos Avá; a reposição da área atingida pelo reservatório - o maior do Brasil em volume d'água com 54,4 bilhões de m3; além de proteger e assistir os índios já contabilizados. Desafio do progresso
Furnas, através de seus programas de preservação do meio ambiente e continuidade ética de povos como os Avá-Canoeiro, dá uma significativa demonstração que, ao expandir a sua área de atuação, envolve-se, diretamente, com os aspectos sócio-ambientais da região. Tal consciência fez com que a empresa tivesse aprovado pelo Congresso Nacional o seu pedido de autorização para a construção da Usina de Serra da Mesa. O processo teve início em 1994 e foi finalizado dois anos mais tarde, em 24 de outubro de 1996. ssa atitude só vem reforçar a responsabilidade de todos em prover condições para a reordenação e reconstrução da vida desses povos ao terem seus territórios atingidos. Quando a Constituição declara que as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios se destinam à sua posse permanente, pressupõe um passado de ocupação efetiva. Mais ainda: projeta uma garantia para o futuro, no sentido de que são consideradas inalienáveis e indisponíveis. Assim, a presença dos Avá-Canoeiro na área de construção de uma hidrelétrica imprescindível ao desenvolvimento nacional, foi para Furnas um desafio surpreendente. Não só por causa do empreendimento em si, mas, sobretudo, pela urgência de aprender a conviver e apresentar soluções às questões advindas dessa presença inusitada. Peculiaridades
Os indígenas são cercados de peculiaridades. Podem ser citadas, entre outras, a língua própria, pertencente à família Tupi-Guarani, do tronco lingüístico Tupi; a sua habilidade em navegar com canoas e ubás nas correntezas do rio Tocantins, assegurando-lhes o cognome "canoeiros"; e "Avá", que significa "homem" alcançando proporções de "humanidade", uma derivação do termo próprio "áwa". Os povos Tupi-Guarani e Avá-Canoeiro guardam algumas semelhanças que não se restringem à forma de se comunicarem. Ambos habitam a região do cerrado; adaptaram-se às condições ecológicas de cerrado com floresta de galeria, área, predominantemente, dos povos de fala e cultura Jê, entre outras. A luta pela preservação do povo se mostra ainda mais necessária, quando descobrimos que a saga desses índios vem desde o final do século XVII. As primeiras incursões dos bandeirantes no planalto goianense, o surgimento de frentes mineradoras e agropastoris fizeram com que o grupo, na época em número bastante significativo, se separasse: uma parte permeneceu no Tocantins e outra debandou-se para as margens do rio Araguaia. O nomadismo adotado foi a maneira que encontraram para fugir dos massacres constantes e de uma possível humilhação pretendida pelos brancos. Tanta locomoção resultou a alcunha de "povo invisível", conseqüência das práticas de ocultamento. Depois de estabelecidos, os Avá sentiram-se mais seguros. Tornaram a adotar o sedentarismo, voltaram a praticar a caça, agricultura e permitiram o nascimento de duas crianças, uma nova esperança de continuidade para esse grupo de etnia diferenciada. A tenacidade desse povo é uma prova de sua incrível capacidade de preservação cultural. Ela conseguiu sobreviver não só aos massacres, mas manter-se junto a pequenos grupos, o que os diferencia de outros povos como, por exemplo, os Jê que necessitam de um número mínimo de pessoas para ativar a sua cultura em seus rituais fundamentais. Povo invisível A Terra Indígena Avá-Canoeiro contabiliza 38 mil hectares cortados pelo alto rio Tocantins. Entretanto, muitos ainda podem estar espalhados por outras regiões. Há evidências que existam quatro grupos isolados do contato com a sociedade regional. Seriam 35 indivíduos que estariam se movimentando nas regiões limítrofes do reservatório da Usina, em Goiás, nas serras Negra e Mantiqueira, no município de Niquelândia e na serra de Calçadinha, município de Minaçu. Outros vestígios têm sido encontrados na serra Maquiné, no rio Paranã, município de Cavalcante. Há, também, informações sobre a sua passagem próximo ao município de Campos Belos. Recentemente, garimpeiros apontaram a presença de um grupo formado por nove elementos perto da cidade de Arraias. Outros indícios convergem para o sul do estado de Tocantins.
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