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GHILLEAN PRANCE - Entrevista Angústia pelo desmatamento e consumo não sustentável da madeira Silvestre Gorgulho 24 de Maio de 2001 ![]()
FMA - Como o senhor compara a Amazônia dos anos 60 com a Amazônia de hoje? Prance - O que mais me angustia é o volume de desmatamento e o fato de que grande parte da madeira cortada é consumida de forma não-sustentável. Se tivesse havido desmatamento para a realização de projetos sustentáveis, para alimentar pessoas e tudo mais, teria sido diferente. Mas muito do desmatamento tem sido feito sem planejamento. Agora a Amazônia está muito mais aberta, com o aumento do transporte aéreo, das estradas, dos meios de comunicação e tudo mais. Há muito mais oportunidades na região e, por causa desses avanços, há um grande potencial para se melhorar. Também me impressiona muito a forma com que o INPA se desenvolveu. Na minha primeira ida à Amazônia, o INPA era uma micro instituição que funcionava em dois prédios mal conservados no centro de Manaus e que não tinha muita voz. Hoje o INPA é uma grande instituição, com um campus de verdade e que tem bastante força e importância. FMA - O senhor acha, então, que há mais apoio institucional para questões ambientais? Prance - Sim, acredito que o Brasil tem dado mais apoio e esse apoio tem crescido ao longo dos anos. O CNPq realmente fez um grande trabalho ao financiar o INPA e permitir que o instituto se desenvolvesse. O Museu Goeldi, em Belém, é outro que me alegra muito ver como se desenvolveu. Hoje eles estão com um novo herbário e um centro botânico e possuem a infra-estrutura necessária para desenvolver pesquisas próprias. Há também muito mais brasileiros treinados com conhecimento e capacidade para desenvolver pesquisas. Isso é um grande avanço. FMA - Pelas suas respostas, vê-se que o senhor não está entre os que defendem a preservação total e absoluta da Amazônia. O senhor admite um certo grau de destruição se for por uma "boa causa", para promover o desenvolvimento? Prance - Absolutamente. Quando é por razões de desenvolvimento sustentável e quando o meio ambiente é levado em consideração. Obviamente, uma das formas mais eficazes de preservar a Amazônia é conseguir o equilíbrio exato entre preservação e uso sustentável. Você não pode esperar que um país do tamanho do Brasil deixe a Amazônia intacta, preservada como uma reserva natural. Portanto, é preciso investimentos em pesquisas para se descobrir qual a melhor maneira de explorar a floresta, gerando um rendimento sustentável para o país e, ao mesmo tempo, preservando a enorme biodiversidade e o papel da floresta no clima da região. FMA - As últimas análises sobre desmatamento no Brasil indicam que ainda que a taxa de desflorestamento tenha sofrido uma redução, o percentual de toda a madeira extraída no país que é originária de florestas nativas tem aumentado progressivamente desde 1986 e hoje representa 56%. Como o senhor vê isso? Prance - Com muita preocupação. Vimos o que aconteceu com as florestas da Indonésia e de outros países que extraíram madeiras demais. Porém, se tem uma coisa que é o forte da Amazônia é madeira. Se a extração for devidamente administrada e as pessoas não se comportarem de forma tão gananciosa, a floresta poderá continuar produzindo madeira natural de forma sustentável. O que me preocupa é que isso não está sendo planejado muito bem no momento. É preciso incentivar o replante em áreas que já foram destruídas, para aliviar a pressão sobre a floresta. No caso de madeira para papel e celulose, acho que algumas das plantações de eucalípto no sul do país são muito boas, pois também aliviam a pressão da Amazônia. FMA - A explicação para esse aumento da taxa de mata nativa destruída é a eliminação, em 1986, de um incentivo fiscal para reflorestamento. Prance - Esses subsídios eram muito bons. Obrigar as pessoas a replantar é muito importante. Mas aí, a questão que se precisa perguntar é, "com que espécie de árvore?". Depende muito do que você planta, pois o reflorestamento pode ajudar o ambiente ou então contribuir para destruí-lo ainda mais. Em muitos lugares, o reflorestamento com espécies não nativas só fez deteriorar o meio ambiente. FMA - O senhor é otimista em relação ao futuro do planeta? Prance - Sou razoavelmente otimista. Afinal, quando você pensa que menos do que 20% do total da Amazônia foi destruído, isso significa que ainda resta uma quantidade enorme de floresta. O ritmo de destruição das florestas tropicais de outros países tem sido bem pior do que no Brasil. Portanto, de todas as regiões de floresta tropical, a Amazônia é aquela que me deixa mais otimista. Mas será preciso uma ação rigorosa da parte do governo para que isso continue assim e a floresta seja explorada de forma inteligente. FMA - Que tipo de ação o senhor acha que o governo poderia fazer que não está fazendo? Prance - Duas coisas. Primeiro, estimular pesquisas sobre o uso sustentável do ecossistema. É preciso pesquisar os métodos: o que se pode plantar, qual o melhor sistema de reflorestamento e de manejamento sustentável de madeira. Em segundo lugar, é preciso investir muito mais nas organizações que estão fazendo o trabalho de conservação no Ibama para que elas tenham condição de realmente fiscalizar as áreas de conservação. Muitas áreas de conservação não possuem nenhum guarda, nada. Simplesmente porque não têm recursos e nem pessoal pra fazer isso. Portanto, é preciso investir nas duas áreas: em como usar os recursos naturais e na conservação das áreas selecionadas como reservas florestais. FMA - Na sua opinião, qual a principal ameaça ao futuro do planeta? Prance - Excesso de população. Isso não é uma crítica ao Brasil, pois as taxas de natalidade no Brasil estão sob controle. Mas de forma geral, o número excessivo de pessoas no mundo significa uma área ainda maior de terra sendo explorada para produzir alimentos e uma produção ainda maior de dióxido de carbono. A outra grande ameaça são as diferentes causas da mudança do clima, como a queima de combustíveis fósseis. Tanto a Convenção do Clima como as medidas para reduzir a emissão de CO2 são extremamente importantes. E digo de forma bastante enfática que uma das maiores tragédias do mundo hoje é o fato dos Estados Unidos não terem ratificado nem Convenção do Clima nem a Convenção da Biodiversidade. Minha críticas são direcionadas bem mais a eles, por ignorarem esses tratados. O Brasil assinou, o Reino Unido assinou e todos nós estamos levando a sério. FMA - Ainda que no Brasil a questão do crescimento populacional tenha deixado de ser um problema, o assunto não costuma cair bem e só serve para acirrar a briga entre os países do norte e do sul. Ao menos enquanto um bebê americano continuar causando mais impacto ambiental e produzindo mais lixo do que 120 bebês em Bangladesh. Os países pobres jamais aceitarão o argumento de que precisam reduzir as taxas de natalidade em nome da preservação ambiental. Prance - É verdade. O excesso de consumo é um grande problema e devemos atuar nos dois campos: reduzindo o consumo dos países ricos e melhorando os padrões de vida dos mais pobres. No momento, o fato de que 20% da população mundial desfruta de 80% do PIB mundial e que 20% mais pobres dispõem de apenas 1,8% da riqueza global total é sinal que há algo errado na nossa sociedade. Acho importantíssimo associar questões de justiça social com meio ambiente. Essas questões caminham de mãos dadas e se a gente não levá-las em consideração, não vamos chegar a lugar nenhum. É perfeitamente correto o que você disse. Um bebê nos Estados Unidos equivale a 120 em Bangladesh. Mas diante disso, a questão do excesso populacional fica ainda mais pertinente. É um fato digno de nota que em países superpovoados ocorrem inúmeros conflitos. O país mais populoso da América Latina é El Salvador, que passou por anos de guerra civil. O paí
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