ANA adverte: falta d'água pode seguir apagão

Para Jerson Kerman o grande desafio é a gestão da água no Nordeste e no Centro-Oeste

Milano Lopes

Se de fato vierem, os apagões vão ser também o pior dos mundos para os consumidores de água, especialmente os projetos de irrigação, que são numerosos no Nordeste e no Centro-Oeste, justamente as duas regiões mais afetadas pelo racionamento de energia. A advertência foi feita pelo presidente da Agência Nacional das Águas - ANA - Jerson Kelman, um dos participantes das audiências públicas promovidas pela Comissão Especial criada no Congresso para investigar as causas da crise de energia.

     Na hipótese da introdução dos apagões, considerada medida extrema pelo governo federal, no período em que for feito o desligamento geral, cujo prazo estimado poderá ser de quatro a seis horas por cada apagão, as bombas utilizadas pelas companhias estaduais de abastecimento deixarão de funcionar. Em conseqüência, nesse período, a água não será bombeada para as adutoras, aumentando o transtorno da população, pois à falta de luz se somará à de água.

Outros prejuízos - Mas não será apenas o consumidor residencial de água que sofrerá na eventualidade dos apagões. As indústrias que consomem intensivamente água em seu processo produtivo, como a indústria automobilística e a de mineração, também terão uma redução significativa da oferta de água. Porém o prejuízo maior é dos projetos de irrigação, cuja água, qualquer que seja a tecnologia de adução - pivô central, aspersores ou gotejamento - também é bombeada por equipamentos que utilizam energia elétrica.

No Nordeste, os maiores projetos de irrigação se localizam nos Estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, e naqueles banhados pelo rio São Francisco, envolvendo não apenas a produção agrícola, mas também a piscicultura. No Centro-Oeste, os mais prejudicados serão os projetos de irrigação de fruticultura no Jaíba, no norte de Minas, e os de soja e café no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e oeste da Bahia. 

Mas os prejuízos não param por aí. O transporte aquaviário também pode ser prejudicado, e muito, com a crise de energia. Kelman cita o exemplo do reservatório de Ilha Solteira, no rio Paraná, por onde é feito o escoamento da produção de soja de Goiás e Mato Grosso do Sul para o porto de Santos, em São Paulo. Estimativas indicam que, até o final do ano, deverão ser transportados por esse corredor aquaviário pelo menos 1,5 milhão de toneladas de grãos destinadas à exportação.

A difícil gestão

Com poucos meses de operação, a Agência Nacional das Águas - ANA - enfrenta, em condições extremamente adversas, seu permanente e maior desafio: a gestão das águas.

E o "laboratório" onde esse desafio se fará de forma mais intensa é justamente o Nordeste.

Para começar, é preciso mudar a mentalidade e as políticas tradicionais e superadas de gestão de águas na região.

O presidente da ANA, Jerson Kelman, acha que é preciso otimizar a utilização de um bem normalmente escasso no Nordeste, devido às freqüentes estiagens, e muito mais agora, com uma das maiores secas que já atingiram os nordestinos.

Ele sustenta que é preciso repensar projetos de irrigação que utilizam água para produzir arroz, feijão e milho, culturas de subsistência, estabelecendo-se prioridades que começam com a garantia do abastecimento de água para a população.

A água utilizada para irrigar um plantio de arroz do tamanho de um campo de futebol é a mesma necessária para atender às necessidades de 400 pessoas.

Há alternativas em discussão. Uma delas seria a suspensão temporária da cultura de subsistência irrigada, ou pelo menos da cultura de produtos como o arroz, que exigem muita água.

Neste caso, os produtores receberiam uma indenização correspondente à perda da safra, cujos recursos, totais ou em parte, viriam da receita da venda da água aos consumidores.

Um momento de grave crise de oferta de água, como o atual, seria o mais apropriado para encaminhar soluções como essa. A ANA já está discutindo com o governo do Ceará uma forma de adotar essa saída para os produtores de arroz irrigado.

Se os entendimentos evoluírem positivamente, servirão de parâmetro para negociações idênticas com outros governos e outros produtores nordestinos. O objetivo final dessa estratégia é, ao longo dos próximos anos, substituir essas culturas de irrigação por outras, ou produzi-las apenas em regime de sequeiro, ou seja, com o aproveitamento das chuvas, mesmo escassas.

Neste caso, a água retirada da irrigação seria prioritariamente destinada ao abastecimento humano e, secundariamente, ao atendimento aos animais, importante fonte de sustento para a população rural do Nordeste.

Nas regiões do interior nordestino, onde não há água de irrigação, o abastecimento humano seria assegurado através de um programa de construção de cisternas que receberiam água fornecida pelo governo através dos caminhões-pipa, e água da chuva, quando houver.

A questão é: se a água do reservatório for liberada para a geração de energia por Ilha Solteira, que responde por 12% do consumo médio mensal de energia do Brasil, faltará água para viabilizar o transporte de soja.

A alternativa é convencer os produtores de soja a anteciparem o transporte fluvial do produto no trecho do lago de Ilha Solteira, de tal forma que, a partir de setembro próximo, a água do reservatório seja destinada exclusivamente à geração de energia.

Esse problema existe não apenas em relação a Ilha Solteira, mas afeta todos os reservatórios considerados estratégicos, no Sudeste e no Centro-Oeste.

Chuva e investimento - Senadores e deputados questionaram o presidente da ANA sofre o efetivo papel da estiagem na formação do atual quadro de escassez no Nordeste, quando Kelman disse que já houve secas piores do que a atual.

Exibindo gráficos e transparências, ele demonstrou que, no período entre 1952 e 1955, quando o Nordeste registrou a maior seca do século passado, o lago da barragem de Sobradinho acumulou 274 metros cúbicos de água por segundo. Na crise atual, o volume acumulado tem sido de 341 metros cúbicos de água por segundo.

Isso não quer dizer - acrescentou Kelman - que a crise atual não seja uma das mais graves da história, talvez a maior dos últimos 70 anos. A barragem de Sobradinho está com um volume de água equivalente a apenas 28% da sua capacidade, e as previsões mais otimistas indicam que, mantido o quadro hidrológico atual, o volume recebido por Sobradinho poderá reduzir-se a 242 metros cúbicos por segundo.

Como a demanda de energia hoje é várias vezes superior a do período 1952/1955, os efeitos de um racionamento, hoje, são bem mais devastadores quanto os de meio século atrás.

A crise na açudagem - Mas o quadro de escassez de água não se revela apenas nos reservatórios das hidrelétricas alimentadas pelo rio São Francisco. A situação é até mais grave nos Estados não banhados pelo São Francisco, onde a água disponível vem dos açudes. Dos seis maiores açudes nordestinos, apenas os de Curemas, na Paraíba, com 57% de sua capacidade, e Armando Ribeiro, no Rio Grande do Norte, com 56% de sua capacidade, estão em situação mais ou menos confortável.

Os outros estão operando com sua bacia hidráulica reduzida, havendo casos, como os açudes de Banabuiu e Poço da Cruz, no Estado do Ceará, que operam com 8% e 4% de sua capacidade, respectivamente.

milano.2004@terra.com.br


 
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