Aparados e Serra Geral A natureza que impressiona

Os Aparados da Serra têm 130 milhões de anos, remontam ao período Jurássico e foram testemunhas de grandes derrames basálticos, seguidos de erosões pelas águas

Maria de Fátima Vianna Nunes

O Parque Nacional de Aparados da Serra e o Parque Nacional da Serra Geral, na divisa de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, praticamente se fundem num espetáculo único, onde formações rochosas, esculpidas há 150 milhões de anos, roubam a cena, numa sucessão de cânions de tirar o fôlego. Nos limites entre o planalto e o litoral, difícil é dizer onde termina um e começa o outro, já que a divisa é bem na beirada dessas formações: enquanto os campos dos Aparados estão em terreno gaúcho, o seu interior é catarinense. "Cidade dos Canyons" - É assim que é conhecida Praia Grande, pequeno município no extremo sul de Santa Catarina, ao pé da Serra Geral, que abriga, em sua região, parte do Parque Nacional dos Aparados da Serra. Do lado gaúcho, e a quase 1.000 metros acima do nível do mar, está Cambará do Sul. Pertencerem a estados diferentes é a única característica que não coincide entre as duas cidades, que têm as mesmas coisas em comum, desde a hospitalidade de seu povo, até a paisagem nostálgica, quase sempre encoberta por uma cerração muito espessa, que insiste em querer esconder o espetáculo fantástico da sua natureza rara. Andar pelas ruas dessas cidades é como voltar no tempo, e quando nos descobrimos cercados por esses cânions gigantes, que parecem se debruçar sobre nós, como a nos espreitar, experimentamos uma estranha sensação de fascínio.

 


Vista da Cachoeira das Andorinhas, no cânion Itaimbezinho

 

 

 

 

 

 

 


O cânion do Itaimbezinho

 

Da época dos dinossauros - Os Aparados da Serra têm 130 milhões de anos e remontam ao período Jurássico, quando a região, então desértica, foi testemunha de grandes derrames basálticos, seguidos de erosões agravadas pela ação das águas e do próprio tempo. Hoje, tanto Praia Grande quanto Cambará destacam-se, antes de mais nada, pela beleza primitiva e imponente de seus cânions, precipitando-se do alto de fendas profundas, que chegam a 1.000 metros, sem falar na transparência dos rios e cachoeiras, nas matas nativas e na preservação de espécies animais e vegetais da região Sul brasileira, como a Gunnera manicata, considerada uma planta pré-histórica, que só existe em regiões acima do nível do mar, como na Patagônia e Cordilheira dos Andes - estudos dão conta de que a planta estaria no Planeta há pelo menos 70 milhões de anos.

Dos mais de 60 cânions espalhados pela região, cinco se destacam: o Itaimbezinho, que fica no Parque dos Aparados da Serra, e os outros quatro: Faxinal, Três Irmãos (ou Churriado), Malacara e Fortaleza, no Parque da Serra Geral.

O Itaimbezinho é o mais visitado, porque fica dentro do Parque, e a sede dispõe de infra-estrutura para receber o turista, que conta com o acompanhamento de guias especializados.

Já os mais radicais preferem os cânions Malacara, Faxinal e o Fortaleza, o mais impressionante deles. Com 8.200m de extensão e profundidade de 940m, contemplá-lo é um espetáculo indescritível, e imperdível. Suas paredes íngremes lembram as muralhas de um forte, e a visão do alto é qualquer coisa de deslumbrante, enxergando-se até o mar. Chega a ser assustadora, de tão bela, porque ao mesmo tempo em que dá a impressão de que podemos tocar suas escarpas a um simples esticar de braço, faz-nos sentir pequenos, diante da imensidão intocada.


A cidade de Praia Grande, mergulhada na cerração

Biodiversidade - A flora dos Aparados da Serra representa um percentual significativo da flora total do estado do Rio Grande do Sul, com cerca de 628 espécies catalogadas, constituindo-se de campos, banhados, matas com araucárias e floresta atlântica (Mata Pluvial da Encosta Atlântica), encontrada nas encostas do planalto e penetrando nas paredes dos cânions.

A vegetação rupestre se adensa na borda superior das encostas, formando a "mata nebular", tipo de vegetação arbustiva com alto índice de nebulosidade. Outra espécie característica da região são as turfas. A turfeira é o local onde se dão os processos de carbonização lenta dos depósitos de restos de musgos e plantas. Nos Aparados, a turfa é formada essencialmente pelo musgo do gênero Sphagnum, típico de clima de elevada precipitação pluviométrica. Outras plantas que são encontradas nas turfeiras da região são o Gravatá, o junco e a samambaia-do-banhado.

Espécies em extinção - Na região ainda se encontram raridades como o Graxaim-do-campo (uma espécie de cachorro-do-mato), Jaguatirica, Suçuarana, Veado Campeiro, Cotia, Ouriço-Cacheiro, e até o Bugio e o Lobo-guará. Também o Tamanduá-mirim e o papagaio-de-peito-roxo, que anuncia, com o seu grito estridente, a aproximação de algum viajante.

Além da Gralha-azul, outra espécie interessante é o Pedreiro, uma ave que vive à beira dos penhascos, e habita as regiões mais altas do sul do país. Uma ave muito rara no estado do Rio Grande do Sul e que só foi vista ultimamente no Parque, é o Gavião-pato, e ainda o Gavião-tesoura, que só é encontrado sobrevoando as matas que cobrem os penhascos mais inacessíveis ao homem.


Exemplar da Gunnera Manicata, planta pré-histórica que ainda pode ser vista no local.

Educação ambiental - Gaúcho de Porto Alegre e morando em Praia Grande, Átila Portal foi seduzido pela região e pela beleza dos cânions, que conhece como a palma da mão. Experiente, ele é o pioneiro na prática da travessia de cânions, e já perdeu a conta dos muitos outros que conquistou até o topo. Ele explica que a travessia de um cânion feita pelo seu interior, permite a observação de geodos (partes das rochas) de cristal de quartzo, vidro vulcânico e muitos outros minerais que revestem as paredes internas; "o que sobrou de Mata Atlântica, em Santa Catarina, está dentro dos cânions", explica Átila, "e em alguns deles você chega a passar por 30 cachoeiras", conclui. 

Átila, que desenvolve este trabalho há 15 anos, ministra cursos de Sobrevivência em Mata Atlântica e Campos de Altitude, Técnicas em Canionismo, Técnicas de Acampamento de Mínimo Impacto (regras básicas para preservar o meio ambiente quando se está em contato com a natureza) e Guias de Ecoturismo, não só na região, mas por todo o Brasil.

Outras informações


Leis de Proteção

Lei nº 4.771, de 15/09/65 - Código Florestal
Lei nº 5.197, de 03/01/67 - Código de Fauna
Decreto nº 84.017, de 21/09/79 - Regulamento dos Parques Nacionais
O Parque Nacional de Aparados da Serra (PNAS) foi criado através do Decreto de nº 47.446, de 17/12/1959, localizando-se 59% de seus limites em Cambará do Sul (RS) e 41% de suas terras no município de Praia Grande(SC). 
Já o Parque Nacional da Serra Geral (PNSG), distribuído nos municípios de Cambará do Sul (RS), Praia Grande e Jacinto Machado (SC), foi criado devido a uma recomendação do Plano de Manejo do PNAS, com o objetivo de proteger as nascentes de cursos d'água, matas nativas, outros cânions da região e os ecossistemas que cruzavam o parque, através de Decreto nº 531, de 20 de maio de 1992.


Serviço

Visitação do Parque de Aparados da Serra: R$ 6.00 por pessoa + R$ 5,00 por carro.
Funcionamento: de quarta a domingo, das 9h às 16h. Para outras finalidades, é preciso uma autorização do Ibama de Brasília. 
O Parque da Serra Geral não precisa pagar, e é permitido acampar nas bordas do cânion Fortaleza. Neste caso, nunca é demais tomar cuidado e, principalmente, não se esqueça de levar seu lixo.


Acesso

Chega-se ao Aparados da Serra por Praia Grande (SC), pela BR-101, ou por Cambará do Sul (RS), pela RS-020.
Distâncias 
Cambará do Sul/ Porto Alegre: 186 km 
Praia Grande/ Florianópolis: 297 km
Praia Grande/ Cambará do Sul: 18 km


Hospedagem

Praia Grande - DDD (48)
Hotel e Restaurante do Sérgio - 532-0191 Pousada Caminhos da Serra - 532-0367
Pousada Vale Verde - 532-0064 Cabanas da Serra - 532-0231
Cambará do Sul - DDD (54)
Pousada Itaimbeleza - 251-1365 Pousada Recanto dos Amigos - 9832-1615
Pousada das Corucacas - 251-1128 Paradouro da Fortaleza - 251-1005


Dicas

Em Praia Grande: A Pizzaria Avalanche faz uma pizza sem igual, e o Restaurante do Sérgio tem a melhor comida caseira, sem falar na hospitalidade do próprio Sérgio e da sua família.
Em Cambará do Sul: Não deixe de ir ao Café com Mistura, que serve o melhor e mais completo Café Colonial da região, acompanhado de excelente vinho artesanal, sem qualquer química.


Contatos

Átila Portal - Tel: (48) 532-0367
Prefeitura Municipal de Praia Grande - Tel: (48) 532-0132
Prefeitura Municipal de Cambará do Sul - Tel: (54) 251-1177
Sede do Parque Aparados da Serra/IBAMA - Tel: (54)251-1262



 
Folha do Meio Ambiente


Pesquisa

 

 

Participe desse esforço por uma melhor qualidade de vida. Como? Muito fácil.
Fazendo sua assinatura,  escrevendo e dando sugestões.

Folha do Meio Ambiente é uma publicação da Folha do Meio Ambiente Cultura Viva, Editora Ltda, SRTV Sul,  Quadra 701,Edificio Multi Empresarial - Bloco O - CEP 70340-907 - Brasília-DF, Brasil – Fone: (61) 3322-3033, Fax (61) 3226-4438.

© Copyright 2001 Folha do Meio Ambiente Cultura Viva, Editora Ltda. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta  página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha do Meio.