? Bem no escurinho, é mais fácil escutar conversas alheias, até mesmo sem precisar denunciar seus autores. ? Na ante-sala do ministro José Jorge, três técnicos de luz própria falavam sobre a crise do apagão. ? Diziam que até agosto, mês fatídico na política brasileira, haverá estragos inesperados na Esplanada. ? Um dos estragos: José Mário Abdo pode deixar a ANEEL e para seu lugar vai ninguém menos do que o presidente da ANA, Jérson Kelman. ? A mudança traz consigo a paradoxal virtude de, ao retirar Kelman do campo da água, torná-lo um "peixe dentro d'água", pois todos sabem que ele sempre foi um homem do todo poderoso setor elétrico. ? O setor que agora está pifando.
Imprevidência do setor elétrico
? Uma verdade que precisa ficar bem clara: a energia, a irrigação e a indústria, juntas, consomem mais de 90% da água que é retirada dos mananciais. ? Por isso, os técnicos em recursos hídricos reagem com indignação sobre qualquer imputação de culpa ao setor caso se confirmem as previsões segundo as quais poderá faltar água nas residências por falta de energia para bombeamento. ? Sendo o consumo humano o menor entre tantos usos consuntivos da água, por mais baixos que estejam os níveis dos reservatórios, há sempre água em demasia para o uso doméstico. ? Conclusão: onde as torneiras das casas secarem por falta de energia, muito maior terá sido o pecado da imprevidência do setor elétrico. ? Pela ordem, com a palavra a ANEEL, a quem cabe assegurar o abastecimento de energia do país, o nepotista ONS e os próprios ministérios das Minas e Energia e do Apagão.
Será o Benedito?
? Para a vaga que pode ser aberta na presidência da ANA, alguns nomes já começaram a corrida, na surdina. ? Além de Vinícius Benavides, também corre por fora o nome do atual diretor Benedito Braga, recém chegado de seu pós-doutorado na Califórnia. ? Braga, reconhecidamente o mais titulado pela academia entre os atuais diretores da ANA, está vivendo os seus dias de batismo no serviço público.
O homem cresce na direção do que é incentivado. Está aí a economia de energia que não deixa mentir.
Tesouro do povo
? Em eletricidade, o Brasil é como a Arábia Saudita em petróleo: 90% da energia se baseiam em duas coisas gratuitas, a água das chuvas e a força da gravidade. ? Rios permanentes e caudalosos se espalham pelo país. ? Explica o técnico César Benjamim que por serem os rios brasileiros de planalto, caudalosos e permanentes, eles seguem trajetórias de suave declive. ? Quando barrados, formam lagos, que são energia estocada. É só fazer a água cair por uma turbina, que gera a energia mais barata do mundo. Renovável e não poluente. Barragens seqüenciadas significam que a mesma gota é usada inúmeras vezes. ? Pelo jeito, estão querendo privatizar um tesouro do povo: água da chuva e a força da gravidade.
Relações Interiores Meu pirão em primeiro lugar
? Esta coluna comentou na edição de maio que a ANA estava demorando para emitir a primeira outorga, um serviço de utilidade pública. ? Já não se pode mais dizer isso, pois foram publicados pela Agência Nacional de Águas quatro editais no D.O.U. autorizando o uso da água. ? Mas, diga-se de passagem, o primeiro deles é em favor da pessoa física do Ministro Celso Láfer.
Bem selvagem
As anedotas ambientais também circulam no gabinete do Ministro do Meio Ambiente. Depois de repetir várias vezes que o empresário deve preservar as florestas e matas, o ministro Sarney Filho morreu de rir com o aparte de um visitante: - Ministro, quanto mais densa a floresta, melhor é o lugar para o exercício do capitalismo selvagem. E bota selvagem nisso!
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