Anna Karina: a brasileira-sueca prepara um novo documentário sobre Arne Sucksdorff

Dez dias após conclusão do filme, Sucksdorff morreu e teve suas cinzas jogadas no Pantanal

Kátia Aguiar

Anna Karina de Carvalho, uma brasileira de 29 anos, formada em Comunicação Social pela Fundação Armando Álvares Penteado-FAAP, radicada em Estocolmo, na Suécia, tem o cinema como herança genética (até o nome foi escolhido pela mãe por gostar de Jean Luc Godard). Depois de promover o cinema brasileiro na Europa, participando dos festivais de Cannes, Berlim, Macedônia e Veneza, Anna Karina foi convidada pela direção do Festival de Cinema de Estocolmo a integrar a sua curadoria. Seu trabalho abriu portas para um relacionamento com estrelas como Roman Polanski, Lauren Bacall (que considera Fernanda Montenegro a maior atriz do mundo) e Ang Lee (vencedor do Oscar de Melhor filme estrangeiro de 2000) e outros respeitáveis ídolos do cinema.

 


Após a finalização do documentário de Anna Karina sobre a vida de Arne Sucksdorff, ele disse se sentir pronto para a volta a natureza, com sua missão cumprida. Na foto, Sucksdorff, ao lado de Anna Karina, segura a estatueta do Oscar da Academia de Hollywood que ele ganhou em 1947

Sucksdorff - ?Não há melhor maneira de discutir temas relevantes para a sociedade, sejam eles violência, drogas, beleza, amor, relações familiares, preconceitos, pobreza, guerras, conflitos e natureza do que o cinema?, ressalta Anna Karina.

Foi assim, com esse espírito, que ela aceitou o desafio de produzir um documentário sobre a vida do cineasta sueco, Arne Sucksdorff. Ele viveu mais de 20 anos no Brasil, no Pantanal Matogrossense, lutando pela defesa da sua fauna e flora, tendo antes residido no Rio de Janeiro onde fundou a primeira escola de cinema e foi o grande responsável pela explosão do movimento do Cinema Novo. Por lá passaram nada menos do que Glauber Rocha, Joaquim Pereira dos Santos, José Wilker e muitos outros cineastas. Aí vão duas das paixões de Sucksdorff: o cinema e o meio ambiente. Mas, havia uma outra que também contagiou, coincidentemente, Anna Karina: as crianças.

?Depois do filme feito no Brasil, Meu Lar em Copacabana, Sucksdorff levou as crianças abandonadas, que dele participaram, para Estocolmo, dando-lhes uma nova esperança e oportunidade de vida. Anteriormente, ele havia tocado os americanos recebendo o Oscar da Academia, em 1947, pelo documentário Ritmos da Cidade, sobre a vida em Estocolmo?, lembra Anna Karina.

Documentário sobre Arne - Há dez anos em sua cidade natal, após crises de depressão aqui no Brasil, Sucksdorff sofreu vários enfartes, e estava profundamente debilitado. Durante esse período, a documentarista, Bárbara Fontes, de Cuiabá, pesquisou sobre as atividades do cineasta e obteve do Governo de Mato Grosso verba para realizar um documentário sobre ele. A ponte na Suécia foi, claro, Anna Karina.

?Não produzi apenas um documentário. Ganhei um grande amigo. Uma pessoa apaixonada pelo meu país, que dedicou grande parte de sua vida à defesa de causas tão nobres que muitas vezes nós mesmos que somos daqui não damos a devida relevância: meio ambiente e criança?, enfatiza Anna Karina.

Ela lembra que após a finalização do documentário, Sucksdorff disse se "sentir pronto para a volta à natureza e com sua missão cumprida". Como obra do destino, dez dias depois, suas palavras foram atendidas e ele veio a falecer. Suas cinzas foram lançadas sob o Pantanal, terra que o acolheu e o amou com toda reciprocidade.

Um dos temas do próximo 12º Festival Internacional do Cinema de Estocolmo será uma retrospectiva sobre o mundo encantado do sueco que amava o Brasil, feita por uma brasileira que também ama a Suécia, Anna Karina.



 
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