Ecoturismo, a atividade do amor e da paz

OMT e Embratur realizaram, em Cuiabá, a Conferência sobre Desenvolvimento e Gestão Sustentável do Ecoturismo nas Américas com a participação de 25 países e mais de mil técnicos

Joanice Pierini Loureiro

Imagine um vilarejo, nas proximidades de um complexo de cachoeiras e praias às margens de um belo rio, no interior de Tocantins, onde moram cerca de 500 habitantes. Imagine que é desta água que a comunidade retira a irrigação necessária para suas culturas de subsistência. Imagine agora que este recanto de beleza começa a ser ocupado, todos os finais de semana, por moradores de grandes cidades ávidos por contato com a natureza. Nesta cena seus pensamentos podem ir por mais de 8,6 milhões de quilômetros quadrados do Brasil, do Oiapoque (RS) ao Chuí (AP), passando por Savanas, Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Dunas ou Floresta Amazônica. No país, são inúmeros os recantos ecoturísticos já desvendados e ainda por desvendar. Então surge a pergunta ética: Em meio a tantas belezas naturais, como ficam os pequenos povoados, como aquela do interior de Tocantins, diante dessa indústria que cresce tanto, processando os recursos naturais e culturais, enquanto expõe a natureza e as pequenas comunidades a tantos tipos de impacto? Esse foi um dos muitos temas discutidos durante a "Conferência sobre Desenvolvimento e Gestão Sustentável do Ecoturismo nas Américas", realizada entre os dias 22 e 24 de agosto em Cuiabá (MT). Todas as conclusões da conferência serão agora levadas para a "Cúpula Mundial do Ecoturismo", em Quebec, no Canadá, de 19 a 22 de maio de 2002, Ano Internacional do Ecoturismo, de acordo com a ONU.

 


Eugênio Yunis, da OM; Caio Carvalho, presidente da Embratur; o ministro Carlos Melles e o governador do Mato Grosso, Dante de Oliveira

O evento em Cuiabá foi realizado pela Organização Mundial do Turismo (OMT) e pela Embratur, com o apoio do Governo de Mato Grosso. Quase mil pessoas - incluindo representantes de 25 países - participaram das discussões, no Centro de Eventos Pantanal. Este número surpreendeu os coordenadores, que estimavam o máximo de 800 interessados. A equipe organizadora é unânime em acreditar que, entre outros indícios, esta é uma comprovação de que ecoturismo é a atividade mais promissora deste início de século, por ter cinco características importantes: onde há turismo ecológico há beleza, ética, educação, astral elevado e muita paz.

Para o presidente da Embratur, hoje também presidente da OMT, Caio Luís de Carvalho, a Conferência de Ecoturismo realizada em Cuiabá foi de grande importância pois criou a oportunidade de se discutir o acelerado desenvolvimento do Ecoturismo, pensando sempre no desenvolvimento e na preservação do Meio Ambiente. "Este é um tema que se fala muito, mas ainda não conseguimos praticá-lo com total competência. Temos que encarar o turismo ecológico dentro de dois conceitos fundamentais deste novo milênio: a ética e a estética". O Brasil precisa ser muito mais participativo e não exportar turistas. Pulamos de 17 milhões de turistas internos para 45 milhões, que já é um bom número, mas precisamos aumentá-lo", salientou o presidente da Embratur para concluir: "A prática do ecoturismo tem que ser pautada por uma ação democrática, pacífica, com muito respeito à biodiversidade e demonstrações de solidariedade ao homem e à natureza".

"Temos a grande responsabilidade de cuidar e preservar esta porção privilegiada do planeta Terra. E mais ainda: é preciso valorizar a cultura e as tradições populares, destacando as diferenças regionais que compõem nossa identidade nacional. É preciso criar as bases de um desenvolvimento sustentado".
Presidente Fernando Henrique Cardoso

Durante a sessão solene de abertura, o ministro do Esporte e Turismo, Carlos Melles lançou o projeto "Pólos de Desenvolvimento de Ecoturismo no Brasil." Em três anos de pesquisas, a Embratur e o Instituto de Ecoturismo do Brasil traçaram o perfil de 96 localidades do país onde é ou poderá ser realizado o Ecoturismo. O projeto também apresenta os principais atrativos e as condições de infra-estrutura dessas localidades.


Na sua palestra, o ministro Carlos Melles, do Esporte e Turismo, afirmou que o Brasil é reconhecido no mundo todo por uma profusão e combinação de fatores que o distingue como o País de maior potencialidade para o desenvolvimento do ecoturismo

Para Carlos Melles, o Brasil é reconhecido no mundo todo por uma profusão e combinação de fatores que o distingue como o país de maior potencialidade para o desenvolvimento do ecoturismo. "Não há uma nação que reúna tão fantástica diversidade, por isso o governo faz essa parceria com a sociedade para promover programas de planejamento e de investimentos em infra-estrutura e equipamentos turísticos", afirmou o ministro antes de concluir: "Vamos investir em capacitação, educação e promoção para dar emprego, melhorar a renda e levar qualidade de vida a muitos brasileiros no interior". 

O ministro Melles lembrou que o Brasil tem atrações notáveis, tanta na área urbana como rural, capazes de deslumbrar qualquer turista nacional ou estrangeiro. ?E o ecoturismo é uma atividade que bem administrada pode ajudar a acabar com bolsões de pobreza, inclusive reduzindo o êxodo do interior para os grandes centros urbanos.

Também na sessão de abertura, o ministro entregou ao governador Dante de Oliveira, o Certificado de Potencial Turístico ao estado, que funciona como um "Selo de Qualidade". "O PIB (Produto Interno Bruto) cresceu acima de 10% em 1999 e 2000", explicou o governador e acrescentou: "Por isso temos um equilíbrio fiscal que dá condições de termos uma sustentabilidade ambiental, que para Mato Grosso é prioridade. Além disso, firmamos um convênio de R$ 1 milhão com o Sebrae para treinar e capacitar profissionais do turismo no estado". 

A polêmica exploração sustentável da Amazônia, visando a planificação do ecoturismo e desenvolvimento de produtos turísticos sem degradação ambiental foi um importante trabalho apresentado por Ricardo José Soavinski, coordenador do "Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo na Amazônia Legal".


Conferência debate gestão na atividade turística
Encontro de Cuiabá discutiu meio ambiente e benefícios sociais para minimizar os impactos negativos do ecoturismo

Na avaliação do chefe do Setor de Desenvolvimento Sustentável do Turismo, da OMT, Eugênio Yunis, são muitos os aspectos envolvendo as comunidades locais que devem ser levados em conta, quando se pensa num projeto de ecoturismo. "É preciso discutir qual a participação de governos municipais e estaduais, além de entidades não governamentais e pesquisadores, junto à população que quer explorar o ecoturismo de suas regiões", afirmou. "Além disso, é preciso discutir também qual a melhor forma destas comunidades receberem capacitação técnica", acredita.

Outro questionamento que será levado para a conferência do ano que vem diz respeito a parques nacionais e áreas protegidas. "É preciso discutir a integração do ecoturismo nos planos de gestão destes locais, e vice-versa", apontou o representante da OMT. Além disso, é necessário ainda debater mais profundamente as formas de investigações - de produtos e serviços, mercado e impactos - nessas pequenas comunidades, de que forma que o ecoturismo seja um instrumento legítimo de sobrevivência, segundo o especialista.

O evento - Com representantes de 25 países e um total de 903 inscritos, a conferência foi considerada um sucesso pelos organizadores. Experiências de 29 casos estudados sob a ótica do ecoturismo foram apresentadas. Cuiabá, por ser a porta de entrada de três ecossistemas: Pantanal, Floresta Amazônica e Cerrado, foi escolhida para sediar a "Conferência sobre Desenvolvimento e Gestão Sustentável do Ecoturismo nas Américas". 

O encontro serviu para discutir e propor alternativas para o desenvolvimento sustentável do Ecoturismo no Brasil e no mundo. Os resultados desse encontro serão apresentados na Cúpula Mundial do Ecoturismo, que acontecerá em Quebec, no Canadá, no ano que vem.

A ONU considerou 2002 como o Ano Internacional do Ecoturismo e sua Comissão de Desenvolvimento Sustentável requisitou às agências internacionais, governos e setor privado que tomassem iniciativas para dar suporte a tal celebração. 

Objetivos - Do Círculo Ártico até a Terra do Fogo, as américas abrangem uma larga variedade de paisagens, ecossistemas e culturas tradicionais, que servem de atração principal para atividades ecoturísticas. O estado e perfil do desenvolvimento e da prática do ecoturismo variam consideravelmente entre sub-regiões e países, juntamente com as atividades de conservação e sua história relativamente longa.

O ecoturismo devidamente planejado e organizado, pode ser uma grande fonte de benefícios econômicos para o estado, empresas privadas e comunidades locais. Da mesma forma, pode ser um instrumento eficaz para a conservação dos recursos naturais e culturais. Mas a prática do ecoturismo pode resultar em impactos diversos ao ecossistema, comunidades locais e culturas tradicionais, questionando desta forma a sua sustentabilidade.

Por isso, o principal objetivo da conferência foi revisar as experiências anteriores e trocar idéias, maximizando a economia, o meio ambiente e os benefícios sociais e minimizando os impactos negativos do ecoturismo.

A conferência analisou questões específicas de cada região, relacionadas com ecoturismo e em torno dos seguintes temas principais:

? Planificação do ecoturismo e desenvolvimento de produtos: O desafio da sustentabilidade.
Políticas sustentáveis de ecoturismo em escala nacional e regional, ordenação do solo, uso de parques nacionais e outras áreas protegidas, criação de produtos ecoturísticos sustentáveis, informação e educação ambiental por meio do ecoturismo, desenvolvimento de recursos humanos para operações ecoturísticas, equilíbrio entre os objetivos de desenvolvimento e conservação.

? Monitoração e regulamentação do ecoturismo: avaliando o progresso para a sustentabilidade.
Legislação, normas e outras regulamentações para atividades de ecoturismo, sistemas voluntários e auto-regulação, certificados e "ecoetiquetas", avaliação de impactos, indicadores de sustentabilidade, função dos distintos interlocutores no cumprimento da regulamentação e dos sistemas voluntários.

? Marketing e promoção do ecoturismo: procurando consumidores sustentáveis.
Pesquisa de mercado, técnicas de marketing e canais de marketing, métodos promocionais, informações a turistas, comportamento ético, parceria entre setor publico e privado para promoção de marketing, cooperação de marketing para pequenas operações ecoturísticas.

? Custo e benefício do ecoturismo: uma distribuição sustentável entre todos os interlocutores.
Avaliação de custos e benefícios econômicos do ecoturismo, valorização de possíveis impactos ambientais e socioculturais do ecoturismo, adoção de medidas de precaução, encorajamento da comunidade local no envolvimento do ecoturismo e negócios relacionados, contribuição para conservação de bens naturais.

De acordo com os quatro temas, a conferência centrou em dois pontos: 1) A sustentabilidade do ecoturismo dos pontos de vista ambiental, sociocultural e econômico; 2) O envolvimento das comunidades locais, no processo de desenvolvimento do ecoturismo, na monitoração e gerenciamento das atividades ecoturísticas e na divisão do benefícios dos mesmos.



 
Folha do Meio Ambiente


Pesquisa

 

 

Participe desse esforço por uma melhor qualidade de vida. Como? Muito fácil.
Fazendo sua assinatura,  escrevendo e dando sugestões.

Folha do Meio Ambiente é uma publicação da Folha do Meio Ambiente Cultura Viva, Editora Ltda, SRTV Sul,  Quadra 701,Edificio Multi Empresarial - Bloco O - CEP 70340-907 - Brasília-DF, Brasil – Fone: (61) 3322-3033, Fax (61) 3226-4438.

© Copyright 2001 Folha do Meio Ambiente Cultura Viva, Editora Ltda. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta  página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha do Meio.