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Bioterrorismo é nova arma contra a humanidade Na globalização, o terrorismo pode afetar todos os países e o Brasil já sente os efeitos da guerra bacteriológica Márcia Turcato 01 de Outubro de 2001 O último dia 11 de setembro marcou a vida do planeta para sempre: um atentado terrorista sem precedentes, utilizando aviões comerciais sequestrados, derrubou as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, parte do prédio do Pentágono, em Washington, e ainda vitimou todos os passageiros e tripulantes de uma aeronave que caiu na Pensilvânia, nos Estados Unidos. O mundo nunca mais será o mesmo. Dividido entre Oriente e Ocidente e relações de mercado opressoras, tendo como pano de fundo um conflito religioso, assiste a retaliação que se fez sentir logo em seguida. A Terra está sendo bombardeada em suas entranhas e, impotente, vê a morte de seus filhos. Identificado como o mentor dos atentados, o líder da religião/Estado do Taliban, Osama Bin Laden, ex-aliado do governo norte-americano em conflitos regionais, refugiado no Afganistão, é procurado "vivo ou morto". Além das armas de fogo, esta guerra tem um novo e cruel componente, o bioterrorismo. Envelopes contendo bactérias da doença infecciosa antraz foram enviados a vários destinatários nos Estados Unidos. Quase ao mesmo tempo, países de todos os continentes, incluindo o Brasil, passaram a suspeitar de atentados bioterroristas. Doenças mantidas em laboratórios, como a varíola e o botulismo, podem ser espalhadas criminosamente em todo o mundo, colocando em risco a vida no planeta. Contra a varíola não há estoque disponível de vacina. E contra o botulismo não há vacina. A Terra já assistiu a extinção natural dos dinossauros, agora há a possibilidade de testemunhar a extinção, planejada, da humanidade.
No Brasil - Em Brasília, o presidente da Fundação Nacional de Saúde, órgão executivo do Ministério da Saúde, Mauro Ricardo Machado Costa, informou que o Brasil está preparado para intervir em possíveis casos de contaminação por antraz, ou carbúnculo, como a doença também é conhecida. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o antraz é uma das principais armas biológicas utilizadas em ações terroristas. "O Ministério da Saúde está atento e preparado para agir rapidamente se houver necessidade", disse Costa. A declaração foi em consequência do pó branco encontrado dia 14 de outubro em um Airbus 340 da empresa alemã Lufthansa, que fez escala no Rio de Janeiro com 340 passageiros e 15 tripulantes. O material foi recolhido e analisado em um laboratório da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz). As pessoas que tiveram contado direto com o pó receberam medicação preventiva com antibióticos, pois existia a possibilidade de se tratar de uma ação de bioterrorismo, hipótese praticamente descartada na segunda-feira, dia 15. Neste mesmo dia, no entanto, o consulado dos Estados Unidos e o escritório da empresa norte-americana Shell, ambos no Rio de Janeiro, receberam cartas com um pó branco suspeito, que está sendo analisado em laboratório. Evidente que além da suspeita do bioterrorismo, há que se destacar o mau gosto dos trotes, sempre em evidência nestas ocasiões. Emergência - No ano passado, a FUNASA criou o Núcleo de Respostas Rápidas em Emergências Epidemiológicas (Nurep), que pode mobilizar recursos materiais e humanos em qualquer situação inesperada que ofereça perigo à saúde pública, de modo a identificar surtos e tratar as pessoas eventualmente afetadas. O Núcleo tem um cadastro de servidores e especialistas, de todo país, que podem ser localizados a qualquer momento em caso de necessidade. Quem quiser mais informações é só abrir o site www.funasa.gov.br. Um acordo como o Centro de Controle de Doenças (Center for Desease Control, CDC), em Atlanta, Estados Unidos, órgão do governo norte-americano para o controle de doenças e atuação em emergências epidemiológicas, também dá suporte ao Nurep. O CDC está formando 21 especialistas brasileiros em investigação e contenção de surtos, capacitados no Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada ao Sistema Único de Saúde (EPI-SUS).
Perigo do Antraz - O antraz é uma doença infecciosa aguda causada pelo Bacillus anthracis, uma bactéria. Geralmente ocorre em animais (gado, ovelhas, cabras camelos e outros herbívoros) mas, em algumas situações, também pode infectar o homem. No Brasil não existe registro de casos da doença em humanos. A doença não é transmissível de pessoa a pessoa, embora seja letal em cerca de 90% dos casos. A população brasileira não está em situação de risco, por isso não é recomendada a vacinação para o público em geral. A profilaxia com antibióticos é suficiente e só é utilizada em situações específicas, quando a pessoa é exposta a situação de risco. A rede pública de saúde dispõe de um estoque de antibióticos suficientes para tratar 7.500 pessoas, simultaneamente, numa situação eventual de risco. Guerra muito cara - A médica epidemiologista Denise Garrett, consultora do CDC na FUNASA, explica que não há necessidade da população ser vacinada contra o antraz, já que medidas profiláticas são suficientes. De acordo com Garrett, os Estados Unidos estão desenvolvendo uma versão mais eficiente da vacina, que atualmente é aplicada em militares expostos a situações de risco. A vacina é aplicada em seis doses e é necessário um reforço um ano após a última aplicação. O pesquisador Luiz Hildebrando Pereira da Silva, um dos mais conceituados epidemiologistas brasileiros, acha que o Brasil não deve se preocupar com uma possível guerra bacteriológica, porque os terroristas não teriam capacidade tecnológica para realizar a disseminação em massa do antraz. Segundo o pesquisador, um estudo do Ministério da Saúde dos Estados Unidos avaliou serem necessários 100 quilogramas de esporos ("semente") de antraz para dizimar uma população de três milhões de pessoas, resultado mais catastrófico do que o de uma bomba atômica. Para produzir esta crueldade são necessários cerca de US$ 25 bilhões em investimentos com pesquisa. Ainda de acordo com Pereira da Silva, o país com maior capacidade para isolar o antraz é, provavelmente, o Iraque. Entretanto, ele acredita que os iraquianos só tenham potencial para produzir um quilo de esporos. Mais informações: (61) 314-6440
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