R$ 1,2 bi para revitalizar o Velho Chico

A revitalização do São Francisco inclui sua utilização intensiva em turismo cultural e ecológico

Milano Lopes

O Projeto de Conservação e Revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, lançado em junho pelo governo federal, começou a ser efetivamente implementado dia 11 de outubro, com a visita do presidente Fernando Henrique à Serra da Canastra (MG), onde assinou convênios para a aplicação de R$ 85 milhões. Nos próximos dez anos, o projeto vai consumir R$ 1,2 bilhão. Os recursos a serem aplicados ainda este ano já estão assegurados. Eles foram destinados inicialmente ao financiamento dos estudos técnicos visando a elaboração do projeto de transposição para perenizar rios dos estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Ao adiar o projeto de transposição, em virtude de desentendimentos políticos surgidos entre as lideranças dos estados envolvidos, inclusive Bahia e Sergipe, o governo encontrou o argumento técnico ideal: antes de drenar águas do Velho Chico para outros estados nordestinos, é indispensável revitalizá-lo.

 

Getúlio Gurgel


O presidente Fernando Henrique atravessa a 1ª ponte sobre o rio São Francisco, na sua nascente, na Serra da Canastra (MG), onde assinou os convênios para a revitalização do Velho Chico

Como será - O projeto de revitalização compreende ações de despoluição, como tratamento de esgoto e lixo urbano, conservação de solos, convivência com a seca, reflorestamento e recomposição de matas ciliares, gestão e monitoramento de recursos hídricos, gestão integrada de recursos sólidos, programas de educação ambiental, criação de unidades de conservação e preservação da biodiversidade e repovoamento de espécies da fauna e da flora.

Dos R$ 84 milhões anunciados para este ano, R$ 25 milhões serão destinados a um programa que permitirá às comunidades ribeirinhas conviverem com a seca. Pelo menos R$ 6,5 milhões serão aplicados em investimentos na implantação de unidades de conservação e proteção ambiental, R$ 12 milhões na gestão e monitoramento da bacia hidrográfica do rio e R$ 10 milhões na recuperação de matas ciliares, destruídas ao longo dos anos por uma exploração agrícola predatória.

Turismo - A revitalização do São Francisco inclui um capítulo importante: sua utilização intensiva no turismo cultural e ecológico. Em Pirapora, na parte mineira do rio, lideranças empresariais estiveram reunidas no início de outubro, discutindo a possibilidade da mobilização de recursos do Programa de Desenvolvimento do Turismo do Nordeste (Prodetur), para investimentos na região do Vale Mineiro do São Francisco.

Ao mesmo tempo, em Januária, também em Minas, está sendo construído, às margens do rio, um hotel quatro estrelas, com investimento de R$ 1,5 milhão e geração de 92 empregos diretos. O proprietário do hotel, médico Ildeu Caldeira, pretende criar em Januária um pólo de desenvolvimento do turismo ecológico, em torno das belezas naturais do São Francisco.

O projeto visando o reconhecimento do rio São Francisco como Patrimônio da Humanidade ajudará a desenvolver o programa turístico, tanto cultural como ecológico. O acervo histórico que será incluído no dossiê a ser remetido à Unesco até o início de 2003, inclui sítios históricos e reservas ecológicas localizados em toda a extensão do rio.

Esses sítios incluem desde a Estação Ecológica de Piratininga, em Três Marias, Minas Gerais, até o Oratório da Forca, em Penedo, Alagoas, onde o São Francisco deságua no Oceano Atlântico. Igrejas, conventos, catedrais e até o templo esculpido numa gruta de pedra, em Bom Jesus da Lapa, Bahia, foram relacionados. Da mesma forma, o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Januária, Minas Gerais, o Museu Regional do São Francisco, em Juazeiro, na Bahia e o Parque Nacional da Serra da Canastra, no município mineiro de São Roque de Minas, onde nasce o rio São Francisco.

Para o coordenador da campanha Rio São Francisco - Patrimônio da Humanidade, Américo Antunes, a partir do aproveitamento das potencialidades turísticas do rio São Francisco, será possível inverter o quadro do turismo interno no país, hoje concentrado no litoral, estimulando o turista a, através do rio, conhecer também as riquezas do interior do Brasil.

Promotoria do S. Francisco - No quadro das comemorações dos 500 anos de descobrimento do rio São Francisco, o Velho Chico ganhou um aliado de peso: o Ministério Público estadual de Minas Gerais anunciou a criação da Promotoria do Rio São Francisco, que a partir de agora concentrará todas as denúncias envolvendo agressões ambientais ao rio.

Embora o programa de revitalização aprovado pelo governo federal inclua ações de educação ambiental, visando conscientizar a população ribeirinha da necessidade de preservar o rio São Francisco, o Ministério Público entende que as agressões poderão continuar. Daí a necessidade de uma promotoria específica para tratar do assunto, agilizando os processos e, dessa forma, desestimulando os fraudadores.

Itamar adere às homenagens - Nos seus 500 anos de descobrimento o rio São Francisco recebeu muitas homenagens. O Senado realizou sessão especial comemorativa, quando vários senadores dos estados banhados pelo São Francisco falaram das grandezas e misérias do Velho Chico e defenderam sua recuperação. Por sua vez, o governador de Minas, Itamar Franco, transferiu simbolicamente a capital do Estado para a cidade de São Roque de Minas, em cujo território estão localizadas as nascentes do São Francisco.

Ele nasce em um local privilegiado, de uma pequena fonte, bem no centro da Serra da Canastra, tendo à frente uma imagem de São Francisco. Suas águas, logo em seguida, atravessam um pequeno espaço pedregoso, descendo, depois, por grimpas de montanhas e pequenos vales até, a alguns quilômetros à frente, despencar na cachoeira da Casca D'Anta, assim chamada em virtude da existência, no local, de uma árvore em que as antas se esfregam quando querem curar ferimentos na pele.

Centenas de personalidades, de Minas, Bahia e dos demais estados banhados pelo rio São Francisco, foram agraciadas com a Medalha 500 Anos - Rio São Francisco, instituída pelo Governo de Minas Gerais com o propósito de homenagear pessoas e instituições que contribuíram ou continuam contribuindo para a preservação da bacia hidrográfica do rio São Francisco.

milano.2004@terra.com.br


 
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