Os mesmos fenômenos geológicos que dão lugar ao nascimento dos lagos podem ser os responsáveis pelo seu desaparecimento
Silvestre Gorgulho
01 de Fevereiro de 2003
O gerenciamento da água é bem complexo. Quando alguém se refere à gestão de recursos hídricos, a primeira lembrança que ocorre é a do movimento das águas de um rio, suas quedas d'água e os problemas associados à captação, barragens e estações de tratamento. Nem sempre temos em mente o tema dos lagos, lagoas e lagunas e até o das águas subterrâneas. Curiosamente, o volume de água doce em lagos é bem maior do que aquele encontrado, em um dado momento, em todos os cursos d'água do mundo. E mais: o movimento lento das águas nos lagos dá a eles um significado especial, tanto ambiental como econômico. Existem os lagos naturais que nasceram de fenômenos da natureza e existem também os artificiais, como as barragens e açudes. Para falar sobre a formação dos lagos, sua importância e as condições que eles se encontram no Brasil e no mundo, conversamos com o professor e engenheiro Raymundo Garrido, já conhecido dos leitores da Folha do Meio pela série de entrevistas que temos feito abordando toda problemática dos recursos hídricos no Brasil.
FMA - Como se formam os lagos? Garrido - O nascimento de um lago natural depende, antes de tudo, da formação de uma cavidade ou da ocorrência de uma falha ou de outro tipo qualquer de depressão na superfície da crosta terrestre. Isso de tal modo que o contorno dessa superfície rebaixada seja superior ao relevo da parte interna, criando as condições para o represamento das águas. O enchimento do lago ocorre pela ação isolada ou pelo concurso de águas de precipitação atmosférica, de escoamento natural, trazidas por cursos d'água, ou ainda por infiltração subterrânea. É bom salientar que os lagos naturais surgem normalmente em razão de um dos três fenômenos seguintes: movimentos tectônicos, atividade vulcânica ou por efeito de glaciações. Mas os lagos também podem ser formados a partir de deslizamentos de terra, da ação erosiva das águas e dos ventos, do choque de meteoritos, da dissolução mineral, entre outros. É bom lembrar também que há os lagos artificiais. Esses são resultantes da intervenção do homem, construindo as barragens, e mesmo pela ação de animais que barram cursos d'água. É muito conhecido os trabalhos de "engenharia" dos castores que, em idade infantil, fazem pequenas barragens de argila e, já adultos, constróem barragens com troncos e galhos de árvores, buscando proteção para seus redutos na estação fria.
FMA - Queria que o senhor explicasse melhor a formação de lagos por movimentos tectônicos, por atividade vulcânica e como resultado de glaciações. Garrido - Bem, há vários tipos de lagos de origem tectônica. A maior parte se forma logo que as falhas se abrem na superfície da terra. Nesses casos, a água ocupa o espaço vazio criado pela depressão ou aquele espaço que resulta do abatimento do terreno entre duas ou mais falhas. É justamente por esse mesmo fenômeno que podem surgir lagos de água salgada, quando o assoalho marinho se eleva isolando extensões de águas do mar. No caso da atividade vulcânica, os lagos se formam quando as crateras resultam intactas após a erupção do vulcão. Aí, nesta cratera em forma de concha as águas drenadas vão se acomodar formando o lago. Em geral são pequenos lagos, a menos que o teto da câmara magmática desabe, causando uma grande depressão. Nesse caso o lago terá dimensão maior. Quanto aos lagos formados pela última glaciação(1), estes resultaram do movimento das geleiras, erodindo a crosta terrestre pelo transporte de "morenas"(2), gerando superfícies côncavas rebaixadas em relação ao relevo, que se transformaram em lagos quando o gelo se fundiu.
FMA - Dê um exemplo de cada um desses tipos de lagos. Garrido - A atividade tectônica deu origem ao nascimento dos lagos mais idosos e profundos do mundo. Um exemplo significativo de lago de origem tectônica é o lago Baikal, com 1620 metros de profundidade. Mas a maior parte dos lagos do planeta tem como fenômeno formador a glaciação. Tal é o notável caso, por exemplo dos Grandes Lagos (Michigan, Superior e Ontário) entre Estados Unidos e Canadá e uma imensa quantidade dos lagos nos diversos continentes. No caso da origem vulcânica, como se disse, são espelhos d'água de pequenas dimensões, como, por exemplo, os páramos da região andina, onde terá havido, no passado, erupções vulcânicas.
Os lagos também nascem e morrem Ação do homem acelera processo de envelhecimento dos lagos
FMA - Além da água, esses lagos têm outros elementos importantes? Garrido - De fato o elemento mais importante é a água. Em seguida vêm os minerais em solução e os gases dissolvidos no interior da massa líquida. A massa líquida também carrega consigo um importante elemento que é a matéria orgânica, além dos materiais em suspensão, os sedimentos e os elementos nutritivos. É bom lembrar que a água com suas propriedades pode variar em termos de parâmetros de caracterização em lagos de regiões diferentes. Assim, na gestão do uso de lagos, indicadores de temperatura, acidez(3), alcalinidade(4), condutividade(5) são, entre outros, parâmetros que devem ser regularmente avaliados. No que se refere aos minerais em solução, a sua ocorrência surge do contato da água com os minerais presentes no solo, os quais se dissolvem na massa líquida. Em geral são sais solúveis ou parcialmente solúveis como, por exemplo, o carbonato de cálcio que é o substrato químico da pedra calcária. As águas lacustres também contêm gases dissolvidos, sendo o oxigênio, o nitrogênio, o gás carbônico e a amoníaco os principais desses gases. A presença do oxigênio é essencial para sustentar todas as formas de vida no lago, inclusive os microorganismos. Ainda fazem parte do corpo líquido dos lagos as matérias orgânicas, que são aquelas que contêm o carbono, à exceção dos carbonatos e do gás carbônico que, apesar da presença de carbono, não são compostos orgânicos.
FMA - Esses elementos são importantes para o equilíbrio do sistema lacustre? Garrido - São esses elementos que vão dar a característica de cada lago. Por exemplo, os carbonatos e o gás carbônico são de interesse fundamental para o equilíbrio das águas naturais. As matérias orgânicas podem se apresentar em solução, quando suas moléculas guardam boa afinidade com a água. E em suspensão ou nos sedimentos, quando essa afinidade é pequena. No caso de se encontrarem em suspensão, elas respondem, em geral, pela coloração e pela turbidez da água. Quanto às matérias em suspensão, estas são constituídas de uma imensa população de microorganismos e de substâncias inertes. Entre os organismos vivos estão as colônias bacterianas, o fitoplancton e o zooplancton; e as argilas, lodos e substâncias orgânicas mortas compondo o conjunto de organismos inertes. Finalmente, há os sedimentos de fundo, formados pelo depósito das matérias em suspensão, como já expliquei, e os elementos nutritivos, que são os elementos necessários ao desenvolvimento das plantas aquáticas.
FMA - Que elementos são esses? Garrido - São cerca de vinte elementos, entre eles o oxigênio, hidrogênio, carbono, silício, nitrogênio, cálcio, potássio, fósforo, magnésio, enxofre, cloro, sódio e outros mais. Os lagos fazem parte da bacia hidrográfica, interagindo com os cursos d'água, superficiais ou subterrâneos, com a rocha matriz que está no seu fundo e com o seu próprio litoral que é uma faixa do território, geralmente coberta de vegetação, constituindo uma zona de terras úmidas. Essas zonas de terras úmidas são bem associadas aos lagos.
FMA - É verdade que todos os lagos um dia morrem? Garrido - Na verdade os mesmos fenômenos geológicos que dão lugar ao nascimento dos lagos, podem ser os responsáveis pelo seu desaparecimento. O fim da vida de um lago é mais perceptível do que o de outros acidentes geográficos porque na escala geológica, os lagos têm uma duração algo efêmera. Dentro do contexto da existência do planeta Terra, os lagos têm vida curta. Por quê? Simples, porque logo depois de formados, as paredes de sua depressão começam a ser erodidas, fazendo com que eles passem a receber sedimentos, reduzindo o seu volume de água, transformando-se sucessivamente em lagos pouco profundos, depois em pântanos ou turfas, do que se transformam em prados e, finalmente, desaparecem por completo dando lugar ao aparecimento de florestas. Assim se dá o processo de sucessão de um lago, que é acompanhado por alterações tróficas, ou seja, as mudanças das condições físico-químicas de suas águas e das populações vegetais e animais que o habitam. O processo de envelhecimento de um lago pode também ser acelerado pela ação do homem, seja alterando-lhe o balanço hídrico, como sucedeu com o "mar" de Aral, seja aumentando o ritmo de chegada de sedimentos que causam a redução do volume ocupado pela água, seja ainda causando eutrofização.
FMA - As temperaturas das águas têm algum tipo de importância? Garrido - Nos lagos, as águas formam camadas com temperaturas diferentes. É o que se chama de estratificação térmica, um fenômeno físico que responde pela diferença de temperatura entre as águas da superfície e as do fundo do lago, tornando-as de diferentes densidades. O fenômeno é bem mais significativo em regiões onde se observam grandes variações de temperatura, e se acentua no início do verão. À medida que a estação avança, as águas superficiais vão aumentando em temperatura, mas a distribuição do calor na massa d'água não segue o mesmo ritmo, porque a resistência térmica à mistura das águas também aumenta. Os seres vivos aquáticos também se distribuem pelas camadas conforme sua adaptação aos níveis de temperatura. Certos insetos de vida curta, tanto quanto os fitoplânctons(6) preferem as camadas mais aquecidas, isto é, se situam mais proximamente à superfície das águas. Alguns invertebrados bênticos(7) preferem as camadas mais frias e vivem em profundidade. Portanto, a estratificação térmica é um fenômeno natural ao qual os organismos vivos estão adaptados. Sob o ponto de vista da produtividade do lago, ou do estoque para a pesca, é importante assinalar que a estratificação térmica pode comprometer justamente a camada mais rica, dita hipolímnion(8), fazendo com que lhe falte o oxigênio, uma vez consumido pela decomposição da matéria orgânica pelas bactérias. Por esta razão é que entre os métodos de restauração dos lagos se busca fazer uma mistura artificial das águas das diferentes camadas térmicas. Ou então se tenta fazer a aeração da camada profunda com o objetivo de oxigená-la.
Eutrofização: fenômeno atinge águas mais lentas A primeira coisa e o trabalho mais importante que se faz para despoluir um lago ou um rio é justamente parar de poluí-lo
FMA - E qual o papel da natureza geológica da região do lago e o significado econômico deste? Garrido - Não há dúvida que a geologia da região de um lago é fator determinante para a vida aquática no mesmo. A erosão das rochas promove a disseminação, no lago, dos minerais que as compõem, principalmente sob a forma de grãos de areia, calcário e argila, ou sob a forma de sais dissolvidos. Alguns sais chegam ao lago em decorrência da erosão de rochas de seu entorno, sendo trazidos pelas águas de chuvas. Ao se dissolverem nas águas do lago, esses sais produzem íons positivos (cátions) e negativos (ánions). Os cátions mais comuns nos lagos são o sódio, o potássio, o cálcio e o magnésio; entre os íons que se encontram em águas lacustres, estão os carbonatos e bicarbonatos, os nitratos, os sulfatos, os fosfatos e os cloretos. Vários desses sais atuam como nutrientes das plantas aquáticas. A geologia da região do lago afeta também o pH(8) de suas águas, assim como responde pela vulnerabilidade dos mesmos às chuvas ácidas. Por exemplo, as águas dos lagos situados sobre rochas sedimentares, com elevados teores de carbonatos, costumam ser duras, com pH que pode chegar a 9. As chuvas ácidas pouco afetam esses lagos, pois os íons hidrogênio que elas carregam são neutralizados pelos carbonatos. De modo oposto, os lagos situados sobre rochas graníticas, pouco solúveis, têm baixo pH e sofrem de modo acentuado os efeitos das chuvas ácidas. Portanto, a geologia exerce um papel importante sobre as águas dos lagos e sua gestão, sob diversos aspectos.
FMA - O que é a eutrofização e por que é importante preveni-la no caso de lagos e reservatórios? Garrido - A prevenção não é só para lagos, mas para outros tipos de reservatórios. Para qualquer corpo d'água cujas águas se movimentem lentamente. Pode, portanto, suceder em rios, principalmente nas zonas de remanso. O que ocorre é que as elevadas concentrações de nitratos, tanto quanto de fosfatos e superfosfatos procedentes do cultivo de grãos, além de diversas matérias orgânicas, produzem um estágio de excessiva fertilidade para o meio aquático em decorrência da abundância de compostos nitrogenados e, sobretudo, fosfatados. É que os fitoplânctons de algumas algas, especialmente as algas unicelulares verdes e as brancas, se desenvolvem intensa e anarquicamente. Quando isto ocorre, grandes massas de matérias vegetais invadem os lagos e os rios, acumulando-se nos fundos. Uma vez atacadas por bactérias oxidantes, as algas consomem uma quantidade enorme de oxigênio, que não sobra para os demais seres vivos, principalmente os peixes que dependem da quantidade normal de oxigênio dos corpos d'água. As demais espécies dependentes de oxigênio são sufocadas e o meio hídrico eutrofizado se torna mais pobre com a morte maciça dos peixes. É esse o fenômeno que acontece na Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, dando aquela mortandade grande de peixes.
FMA - Dê mais alguns exemplos de lagos que sofreram o fenômeno da eutrofização. Garrido - Vamos lá, pois há muitos exemplos pelo mundo afora. No lago Ontário verificou-se uma verdadeira catástrofe pela eutrofização, e sua recuperação implicou investimentos da ordem de 10 bilhões de dólares americanos durante duas décadas (1980-90). Na Europa, a maior parte dos lagos e cursos d'água de baixa velocidade, com escoamento lento, está sujeita à eutrofização. Na França, por exemplo, o fenômeno ocorreu durante os anos 60 com o lago de Anecy, região de Thonon-Les-Bains, hoje recuperado a um custo elevado. A causa da eutrofização do lago de Anecy foi o crescimento dos rejeitos contaminantes relacionados com o desenvolvimento urbano e industrial da região, associado ao desenvolvimento da atividade hoteleira ribeirinha. O oxigênio do lago foi pouco a pouco se rarefazendo, os peixes começaram a morrer e o produto da pesca involuiu de 90 toneladas anuais em 1953 para 22 toneladas em 1968.
FMA - Como recuperaram esse lago francês? Garrido - Na recuperação do lago de Anecy, a principal medida foi a construção de um interceptor de esgotos periférico ao corpo d'água, que passou a conduzir todos os esgotos para uma estação de tratamento e as águas do lago recuperaram, em pouco tempo, a sua qualidade original, com a reaparecimento dos cardumes. Na verdade, a primeira coisa e o trabalho mais importante que se faz para despoluir um lago e parar de poluí-lo. Outros dois lagos na França também conheceram a eutrofização e seus efeitos. O lago Bourget foi recuperado com o desvio dos esgotos que recebia para o rio Rhône. O lago Léman, que foi invadido por algas do tipo oscillatora rubescens, que dão às águas a cor avermelhada, foi recuperado por meio de um projeto de desfosforização.
FMA - Gostaria de voltar ao caso do mar de Aral, que foi um desastre terrível... Garrido - De fato, esse é um péssimo exemplo da intervenção do homem que está acabando com um grande lago. O mar de Aral está desaparecendo. Seu balanço hídrico resulta das entradas de vazões dos rios Amu-Daria e Syr-Daria, além das precipitações, deduzidas as perdas por evaporação, uma vez que esse mar é interior, ou seja, não é conectado ao oceano. Tudo começou com a transposição de águas do rio Amu-Darya para a região próxima ao mar Cáspio que veio a causar tal desastre. Essa transposição tinha o objetivo de abastecer o Turkmenistão com água para irrigação e para o abastecimento humano. Oitenta por cento da irrigação estavam voltados para a produção de algodão, a qual era enviada para a Rússia. A construção teve início na primeira metade dos anos cinqüenta e foi concluída em 1960. Basicamente esse empreendimento é constituído por um extenso canal que transporta 321,50 m3/seg, ao longo do primeiro trecho, de 700 km, e apenas 32,15 m3/seg ao longo do trecho complementar, que se alonga por 400 km, até atingir o mar Cáspio, totalizando cerca de 1.100 km de extensão total.
FMA - Tudo por causa de uma transposição mal feita? Garrido - É verdade! Essa transposição do Amu-Darya foi responsável por uma das maiores catástrofes ambientais que o mundo conhece, pois a água desviada de seu leito constituía parte importante do equilíbrio hidrológico do mar de Aral. A transposição reduziu o aporte ao Aral, com o conseqüente recuo de suas águas e a concentração dos sais, tornando a água imprópria para os diversos usos. Para se ter uma idéia da magnitude desse encolhimento, note-se que a cidade de Muinak, que se situava à beira mar, atualmente se encontra a mais de 50 km distante da nova orla após o recuo das águas. Reduziu-se, também, a profundidade média do mar de Aral, algo em torno de 18 a 20 metros, o que deu lugar ao aparecimento de uma grande ilha.
Grandes barragens também podem a morrer A importância econômica e social desses complexos lagunares reside no uso múltiplo a que todos se prestam
FMA - O que era para produzir alimento, trouxe a fome... Garrido - Verdade. Ironicamente, a cidade de Muinak era um centro primitivo de pescadores que viviam das águas do mar de Aral. O espelho d'água desse mar, que era de 60 mil km2 , caiu para 30 mil km2. A salinidade, que era de dez por mil, aumentou para 45 por mil. Uma das grandes riquezas de Aral, o esturjão(9), hoje não existe mais. A planície formada pelo recuo sofreu erosão eólica e os solos salinizados foram arrastados para mais de cem quilômetros de distância, tornando a região inteiramente improdutiva, sem qualquer traço de vegetação. E o grande desastre atingiu em cheio a população nativa: não querendo retirar-se para outra parte do país, foi dizimada pela fome.
FMA - Foi a tragédia do Aral que fez Moscou cancelar todos os outros planos de transposição, não é? Garrido - Justamente, pois a percepção desse impacto em Aral foi imediata, logo em 1961, quando o aporte ao mar, de 1.607,51 m3/seg, do Amu-Darya, começou a sofrer redução devida à transposição do rio. A catástrofe chegou à sua configuração final em meados dos anos oitenta. Na verdade duas coisas contribuíram para Moscou cancelar todos os projetos de transposição de bacias: foi a falta de recursos financeiros e o desastre de Aral. Com o fim da União Soviética, essa região da transposição, origem, trajeto e destino das águas, não pertence mais a um único bloco político. Hoje, Aral pertence a um conjunto de países pobres com economias destruídas: Turkmenistão, Casaquistão, Uzbesquistão, Tadjquistão e Quirquistão.
FMA - Voltemos ao Brasil. Cite exemplos importantes de complexos da lagos aqui. Garrido - Aqui no Brasil há vários complexos lagunares de destaque. Por exemplo, as lagoas Mundaú e Paraíba, na região de Maceió, de grande importância para o abastecimento da região da capital e dotadas de grande potencial para o lazer e turismo. As regiões de lagos costeiros no Rio de Janeiro, como as lagoas Araruama, Feia, e outras. Laguna, em Santa Catarina. O complexo formado pelo Guaíba e as lagoas dos Patos, Mirim e Mangueira, no Rio Grande do Sul. A importância econômica e social desses complexos lagunares reside nos usos múltiplos a que todos se prestam, incluindo o abastecimento d'água, pesca, lazer e turismo. Lamentavelmente, todas essas coleções de lagoas apresentam, em maior ou menor grau, certos níveis de contaminação, sobretudo pelo despejo de esgotos urbanos sem tratamento ou com tratamento insuficiente.
FMA - As chuvas ácidas são fenômenos que afetam muito os lagos. Como se dá a chuva ácida e como combatê-la? Garrido - A atmosfera terrestre é carregada de algumas substâncias ácidas produzidas naturalmente. O próprio pH das chuvas é ácido, situando-se em torno de 5,6. Além disso, incêndios espontâneos - ou mesmo provocados - em florestas e a atividade vulcânica produzem dióxido de enxofre que se transforma em ácido sulfúrico. Essas substâncias ácidas são neutralizadas por compostos básicos da natureza como os calcários e os óxidos metálicos existentes no solo e na própria atmosfera. Entretanto, a emissão de gases industriais e o funcionamento de motores de combustão interna vêm lançando na atmosfera, no curso das últimas décadas, substâncias que, ao se combinarem com a água de chuvas, formam precipitações que são entre dez e mil vezes mais ácidas do que as chuvas normais. Esse é o fenômeno da chuva ácida, que afeta mais os lagos do que os rios, principalmente pela lentidão com que se movem as águas lacustres. A vida aquática dos lagos é significativamente prejudicada pelos compostos presentes nas chuvas ácidas, causados sobretudo por centrais térmicas de carvão, usinas metalúrgicas, motores de veículos, instalações de aquecimento em países frios, além de vários processos industriais. A acidez das águas dos lagos resulta da chuva ácida e da acidez natural produzida pelo solo e sua rocha matriz. Também da presença de ácidos orgânicos nas águas superficiais devido à decomposição de materiais orgânicos da bacia, como árvores, folhas mortas e outras mais. É essencial combater as causas e os efeitos da chuva ácida, para que os lagos não morram mais cedo. Essas chuvas vão provocar a morte dos lagos por asfixia, que é deterioração da qualidade, quando os lagos já tem uma outra sentença de morte a longuíssimo prazo que é por "definhamento" ou pela redução do volume a zero.
FMA - Como está a situação do Lago Titicaca, fronteira com Peru e Bolívia? Garrido - Como tem sido debatido nas reuniões e seminários sobre águas lacustres, o lago Titicaca apresenta, hoje, preocupantes níveis de contaminação de suas águas. A eutrofização presente no lago resulta pelo crescente aporte de nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo, resultante da atividade humana das terras vertentes ao lago, na região de seu entorno. Além disso, o lago recebe também cargas de efluentes industriais da cidade de Puno, além dos lixiviados da agricultura tanto do Peru quanto da Bolívia. Do lado boliviano, Copacabana é um local de intensa atividade turística, sem, entretanto, contar com sistema de tratamento de esgoto, o que tem preocupado as autoridades do Departamento de La Paz. Mas é a falta de recursos, pelo menos na medida do necessário, que tem retardado a recuperação da qualidade das águas do Lago Titicaca, uma riqueza do Altiplano. E um patrimônio natural dos dois países que dividem as suas águas. FMA - Além dos lagos naturais, o Brasil tem hoje uma grande quantidade de lagos artificiais. Itaipu, Serra da Mesa, Tucuruí, Três Marias também estão sujeitos a esta terrível sentença de morte? Garrido - Na construção de grandes reservatórios artificiais deveriam ser construídas, além da barragem principal, pequenas barragens nos afluentes, a montante, para o controle do processo de transporte de sedimentos. Sucede que essas obras auxiliares são, normalmente, consideradas de importância secundária, não se dando prioridade orçamentária para que sejam construídas. Disto resulta que o volume de sedimento transportado vai se acumular no grande reservatório, dando início ao processo de redução de seu volume de água. Veja o caso do Lago Paranoá, em Brasília, relativamente novo e que seu início, na parte sul, está sofrendo um asssoreamento terrível. E olha que o Paranoá está hoje despoluído. A verdade é que se nada for feito, vai chegar um dia em que o reservatório desaparece. É normal, nos dias de hoje, assistir-se a trabalhos de retirada de sedimentos junto ao paramento de montante das grandes barragens, muitas vezes já vedando a sua descarga de fundo. Essa retirada pode ser feita por distintos métodos, sendo o uso do elevador de areia um deles. A gestão do uso da água em reservatórios constitui um capítulo de grande interesse para a preservação dos recursos hídricos no Brasil, sobretudo pela imensa coleção de reservatórios de que o País dispõe. Uma peculiaridade, no caso dos reservatórios de hidroelétricas, é que a geração de energia, neste caso, constitui um uso consuntivo das águas do lago. As experiências têm se multiplicado no Brasil e a ANA tem desempenhado importante papel nesse contexto.
Glossário
GLACIAÇÃO(1) - Nome que identifica os períodos ao longo dos quais se deu uma modificação climática significativa sobre a Terra, tendo os continentes ficado, em parte, sob espessa camada de gelo.
MORENA(2) - Acumulação de rochas detríticas em razão do transporte realizado pelas geleiras.
Acidez(3) - Característica das substâncias ou compostos que têm pH inferior a sete.
ALCALINIDADE(4) - Característica das substâncias ou compostos que têm pH superior a sete. São substâncias também ditas básicas.
CONDUTIVIDADE(5) - Há dois significados para esta palavra. No campo da eletricidade, significa a condição que tem o corpo sob estudo, no caso a água, em facilitar a passagem da corrente elétrica. E, neste caso, tem o significado oposto ao da palavra resistividade, sendo também referida como condutância. Na Termologia (Estudo do Calor), a condutividade térmica resulta ser a medida da capacidade de transmitir calor que os corpos têm.
FITOPLÂNCTON(6) - São plantas aquáticas pequenas, de natureza autotrófica, que é um dos dois tipos de componentes bióticos do ecossistema Terra. Esta definição de autotrófica é dada a partir do conceito de cadeia alimentar ou trófica. São seres que se alimentam por si mesmos. Para tanto, fixam energia luminosa (do sol) e partem de substâncias inorgânicas simples donde constróem substâncias complexas. O outro tipo de componente biótico é o heterotrófico, que são os zooplânctons, que se alimentam dos fitoplânctons.
Bênticos(7) - Diz-se de algo relativo ou que sucede sob a massa d'água. Os invetebrados bênticos vivem no fundo dos lagos, mares ou oceanos.
HIPOLÍMNION(8) - Parte mais profunda, e fria, dos lagos, sobre a qual "flutua" o epolímnion, que é a camada superior das águas do lago, e que têm temperatura mais elevada.
pH(8) - Abreviatura de potencial hidrogeniônico. É um indicador do caráter ácido ou básico ( ou alcalino) de uma substância qualquer. Eqüivale ao co-logarítmo decimal da atividade dos íons hidrogênio em uma solução, e varia de 1 a 14, sendo o nível igual a 7 o da neutralidade, ou seja, aquele em que a substância nem é ácida nem é alcalina. Entre 1 e 6,9 , a substância é ácida e, entre 7,1 e 14, a substância é básica.
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