De mal a pior Sai ano, entra ano e as outrora poéticas chuvas de março cada vez menos são vistas como sinalizadoras da despedida do verão e mais temidas pelas tragédias que causam, levando de roldão na enxurrada tudo o que houver pela frente. São morros que deslizam, soterrando casas com seus moradores dentro. São estradas com trânsito inviabilizado por terra e grandes pedras desprendidas das encostas ou porque pontes não suportaram a força da correnteza, o mesmo acontecendo com tubulações que agora se mostram de diâmetro pequeno para escoar a água emporcalhada pelas pessoas, principalmente com garrafas plásticas e latinhas de bebidas, que viraram uma praga ecológica dos tempos modernos. É isso mesmo, porque chove agora nem muito mais nem muito menos do que quando Elis Regina cantava melodiosamente apenas "as chuvas de março fechando o verão". Sim, porque naquele tempo as encostas do morros não tinham sido desmatadas. Agora, em grande parte devido ao êxodo rural, as pessoas foram forçadas a agredirem o meio ambiente das montanhas, no aspecto da retirada da cobertura florestal para construírem suas casas. Resultado: terra e pedras, sem as raízes da vegetação para fixá-las, vão parar lá embaixo depois de uma chuva mais forte, quando antes, também com a ajuda das folhas caídas das árvores, a quase totalidade de água infiltrava suavemente no solo. Com isso, além de destruir moradias e até matar seus ocupantes, essa água barrenta e pedregosa vai assorear córregos e rios, que terminam por transbordar cada vez mais facilmente a cada ano. E ao barro e pedras que vêm das montanhas se soma o lixo jogado por aí pelas pessoas, inviabilizando ainda mais o escoamento das águas e aumentando o saldo da catástrofe, que tem um componente sanitário, pois essa água imunda é provocadora de várias doenças. Portanto, para que a chuva volte a ser fator de vida e não de tragédias com tendência de mal a pior, é preciso que as autoridades conscientizem o povo a respeitar o meio ambiente, para viver com mais conforto, paz e saúde.
Martelando a dengue Machado de Assis disse que certas idéias só entram na cabeça da maioria das pessoas como se fossem pregos, ou seja, na base das marteladas. É o que acontece no combate à dengue, já que a população teima em esquecer que não deve deixar jogados por aí objetos que possam armazenar água, servindo de criatório para o mosquito transmissor da dengue, o Aedes aegypti. Então, galera, vamos deixar de criar quem nos adoece e até mata, e também levando em conta que água parada serve igualmente para proliferar aquele pernilongo que aporrinha nosso sono com seu violino desafinado - o Cúlex, sugador de sangue e provocador de coceira infernal no local onde pica. Mas, a exemplo da cobra cujo veneno se combate com vacina feita do próprio veneno, podemos igualmente combater o Aedes e o Cúlex com a mesma água vital para a reprodução de ambos. Como assim? É só deixar vasilhas com água em locais visíveis, para não nos esquecermos de trocar o líquido de dois em dois dias, jogando-o, por exemplo, na terra dos vasos de flores. Com isso, morrerão as larvas dos mosquitos e estaremos agindo ecologicamente corretos, pois evitaremos a dengue, o Cúlex zoeirento e coceirento e também o uso de inseticidas tóxicos de emprego inevitável se deixarmos os mosquitos nascerem e saírem picando todo mundo.
É ruim, hem!? Recente edição do "Globo Repórter", sobre o tráfico de animais brasileiros, só não merece de mim a classificação de ótima porque dedicou pouco tempo à questão da biopirataria. Espero que a produção do programa volte ao assunto, denunciando de forma didática e prolongada que animais brasileiros são contrabandeados não só porque os gringos gostam da beleza e exoticidade deles mas também para muitos serem submetidos a experiências científicas, algumas até cruéis, feitas inclusive por psiquiatras para, por exemplo, sentirem respostas a estímulos que podem oscilar da fome à dor. Também no contexto do tráfico de animais está a questão da biopirataria, com espécies animais e vegetais levadas do Brasil para o exterior com objetivo farmacêutico. Com material muitas vezes só encontrado em nossas matas terminam os cientistas lá de fora descobrindo remédios para a cura de doenças resistentes à medicação convencional. Então, os medicamentos obtidos através de matéria-prima retirada da fauna ou flora brasilienses são patenteados em seus países e nós, embora "pais da criança", seremos obrigados a pagar-lhes royalties se quisermos sarar nossos doentes com eles. É ruim, hem!?
Só palmas Por outro, só merece palmas a decisão do Ibama de acabar com a perseguição pura e simples às pessoas que criam engaiolados pássaros da fauna brasileira. Agora, a partir da Instrução Normativa 1/2003, publicada no Diário Oficial de 24 de janeiro, os passarinheiros de boa índole fazem seus cadastros junto ao Ibama e, se obedecerem as normas impostas pelo órgão protetor de nosso meio ambiente, poderão criar sem perigo de multa e até prisão seu galos-da-campina, canários-da-terra, curiós, bicudos, pássaros-pretos, azulões e outras das muitas e belas aves de nossas matas. É claro que continuará proibida, por exemplo, a posse de canário-da-terra para uso em brigas de tal crueldade que muitos terminam aleijados e até mortos. Agora, portanto, pode-se ter passarinhos de estimação e até para procriação sem risco de enquadramento em crime ambiental. Mas, claro, se tudo estiver nos conformes da Instrução Normativa 1/2003 do Ibama.
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