Ecoturismo na Mantiqueira

Pelas Terras Altas de Minas

Beatriz Fernandes Barros


Mais do que um festival de flores, o turista participa de um festival gastronômico com um cardápio bastante inusitado:
“Salada de frutas e flores capuchinha”, “salada de manga e côco com flores de violeta”,
“filé de truta com pinhão e amor perfeito” e “sorvete de rosas”.


Num passado não muito distante, essa serra sofreu com a derrubada de florestas inteiras para a obtenção de madeira e frequentes queimadas. A caça também foi um problema que colaborou para a extinção de algumas espécies. Hoje não se vêem mais o papagaio Amazonea vinacea, a anta e o lobo-guará. Grande parte das "Terras Altas da Mantiqueira" foi transformada em área de preservação. Da Mata Atlântica original de outrora sobrou pouco mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados de verde, restando apenas 7% em todo o território nacional. Os primeiros europeus que aqui chegaram se encantaram com tamanha biodiversidade e beleza.

Famosos expedicionistas, naturalistas e escritores, como Richard Burton e Auguste de Saint Hilaire, andaram por estas terras, descrevendo com detalhes cada caminho percorrido.
Quase dois séculos depois, a Mata Atlântica ainda sofre com a caça ilegal, exploração de palmito, biopirataria e especulação imobiliária. Com uma enorme quantidade de espécies da fauna e flora ainda não catalogadas, segundo a fundação SOS Mata Atlântica, o que mais ameaça a floresta hoje em dia é sua fragmentação. Ilhas de mata sem ligação contínua desfavorecem a reprodução das espécies, contribuindo para o fim desta rica diversidade genética. No entanto, a Serra da Mantiqueira ainda preserva um pouco do que restou da Mata Atlântica, sempre contando com o apoio de várias ONGs como "Conservation International", "Instituto Sócioambiental" e "SOS Mata Atlântica".

A geografia acidentada da região favorece a formação de cachoeiras que despencam entre araucárias, trilhas ecológicas, matas, parques e um mar de morros sem fim. Localizada entre Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, a imponente serra possui alguns dos picos mais altos do país: Pedra da Mina (MG/SP- 2.797m), Pico da Agulhas Negras (MG/RJ- 2.789m), Pico Três Estados (SP/MG/RJ- 2.665m), Pico dos Marins (SP- 2.420,7m), Pico Itaguaré (MG/SP- 2.308m).
Esta fascinante topografia, de milhões de anos, merece, e muito, o respeito de todos os brasileiros.

Para mostrar o que anda acontecendo lá no alto, com suas matas, sua gente e seus sonhos, um grupo de ambientalistas percorreu uma trilha de 80 km, também conhecida como "Volta dos 80".
Partiram de Pouso Alto, a 20 km de São Lourenço, onde os Bandeirantes apareceram pela primeira vez, por volta de 1710, em busca do cobiçado ouro dessas terras. A serra foi então ocupada por uma população entregue a criação de gado, burro de carga e a tradicional fabricação de queijos, manteiga e doces. A cidade ainda guarda alguns trechos da antiga trilha do ouro. Naturalmente, hoje o "ouro" é verde e está na beleza dos campos e matas do belíssimo percurso que começa aqui, ao pé da serra.

Seguindo em direção a Itanhandú, o grupo pegou uma das rodovias mais altas do país, a BR-354, que vai até Itamonte. Uma boa dica é usar um veículo com tração nas quatro rodas, já que os longos trechos de terra e pedras exigem alguma habilidade.
Lá em cima, o ar da manhã parece mais denso e o sol chega com dificuldade.

Como o clima é tropical de altitude, ainda se encontram bosques de araucária - Araucaria angustifólia - preservados. A região abriga parte do Parque Estadual do Papagaio e parte do Parque Nacional do Itatiaia. Vales imensos, cachoeiras e lagos são boas surpresas que vão surgindo ao longo do caminho. A represa dos Braga, uma antiga usina desativada, parece ter saído de um cartão postal e hoje é um dos pontos turísticos da região. Embora a tentação seja grande, em meio a tantas cachoerias e lagos, é preferível não mergulhar em lugares que não se conhece, pois nunca se sabe o que há no fundo. Cuidado também com a hipotermia, as águas da serra costumam ser bem geladas.

A próxima parada do grupo foi em Campo Redondo, vilarejo encrustado no alto das montanhas. Lá as crianças recebem educação ambiental, aulas de inglês e artes interagindo completamente com a natureza. Orientados por Hélène Arthur Delmonte, que fundou a casa de estudos "Nos entre Nós", as crianças aprendem brincando como respeitar a natureza e dela usufruir, sem destruir.
"Substituimos o uso de materiais que ofendem drasticamente o ambiente, pois é fundamental reconsiderarmos de forma consciente nossos padrões de consumo", diz Hélène.

Sempre subindo, em direção a Serra Negra, o grupo de ambientalistas e turistas deparou com a cachoeira da Fragária, uma das mais belas da região. Rodeada por uma pequena mata de araucárias, é linda de se ver e fotografar. Passando pela Pousada dos Lobos, onde se saboreia uma deliciosa comida feita no fogão a lenha, já estão quase chegando ao Parque Nacional de Itatiaia. Numa área de 30 mil hectares, o primeiro parque nacional brasileiro foi fundado em 1937.

"Ïtatiaia" em tupi - guarani significa "penhasco cheio de pontas". Não poderia mesmo existir outro nome. Ótima opção para pernoite, mas atenção, acampamentos dentro do parque só são permitidos com a autorização da administração. Quem preferir se hospedar em pousadas dentro da reserva do parque nacional, deve saber que é proibido entrar e sair do parque após as 22 horas.
É chegada então a hora de navegar nesse mar de morros abaixo, de volta a Itamonte, e completar o "Circuito dos 80".

As flores comestíveis

Mas antes de partir, vale a pena conhecer quem cultiva umas flores muito interessantes. Cezar, que trabalha no hotel São Gotardo, cultiva num sítio próximo, flores comestíveis. Com a chegada da primavera, o hotel promoveu o festival das flores com um cardápio bastante inusitado: “Salada de frutas e flores capuchinha”, “salada de manga e côco com flores de violeta”, “filé de truta com pinhão e amor perfeito” e “sorvete de rosas”.

As flores cultivadas por Cezar são as capuchinhas, Tropaeolum majus L., de um vermelho vivo ou alaranjadas. Suas pétalas começaram a ser usadas em saladas no Oriente, muito saborosas e com um leve sabor apimentado. Excentricidades a parte, é fato que desde a antiguidade as flores já eram utilizadas na culinária. Porém, nem todos os tipos de flores podem ser consumidos. Algumas, como a azaléia e o bico-de-papagaio são venenosas.

Bem alimentado, o grupo se despede da bela serra e volta com uma certeza.
Não é difícil desfrutar das belezas que a Serra da Mantiqueira oferece, mas todos devem ter a obrigação de conservá-la, esforçando para mantê-la, senão intacta, pelo menos preservada e sem rastros que denunciem qualquer passagem. A natureza agradece!

Mais informações:
Flores comestíveis - Cezar: (35) 91139734
Pousada Vila Minas (Itanhandú): (35) 3361 16 45/
www.vilaminas.com.br

Pousada dos Lobos (Itamonte): (35) 3332 27 79
www.pousadadoslobos.com.br
Hélène Arthur Delmonte
(Campo Redondo) - fone/fax: (35) 3366 12 88
Hotel Serra Verde (Pouso Alto): (35) 3364 12 81
www.serraverde.com.br
Programa Trackmaker:
www.gpstm.com/port

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GPS, a bússola dos novos tempos
Aplicação do "GPS" em levantamento de trilhas ecológicas e outras atividades

Beatriz Fernandes Barros - de São Lourenço
O homem é um ser curioso. Desde que aprendeu a andar, começou a sair por aí explorando
novas terras, oceanos e montanhas. Se guiava pelas estrelas, pela lua e marcava suas trilhas com o que tivesse a mão. Provavelmente não era a melhor maneira de se marcar um caminho, já que tempestades e outros acontecimentos naturais poderiam facilmente apagar os rastros.
Já na época das grandes navegações, Américo Vespucio (que acreditava estar a caminho
das Índias) levava consigo um almanaque, com as posições dos corpos celestes, que lhe
indicavam o melhor caminho. De acordo com suas observações e com o valor aproximado do
diâmetro da Terra, concluiu que não poderia estar na costa da Índia. Deste modo, pôde afirmar
que Colombo havia, sim, descoberto um novo continente, o qual mais tarde receberia seu nome.

Alguns séculos depois das aventuras de Colombo, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos resolveu criar um Sistema de Posicionamento Global, ou GPS, que lhes permitissem um sistema de defesa inacessível às interferências. Baseado em uma constelação de 24 satélites ao redor da Terra, este sistema utiliza uma tecnologia exata para apontar posições em qualquer parte do mundo, 24 horas por dia. O GPS permite armazenar pontos em sua memória, através das coordenadas de um mapa. Estes pontos podem se combinados formando rotas que permitem analisar o horário provável de chegada e distância até o próximo ponto ou destino, horário do nascer e por do sol, rumo a ser mantido durante a rota e muito mais. As aplicações do GPS são praticamente ilimitadas.

Os topógrafos podem saber com exatidão, por exemplo, a largura de uma rua e outras medições com até 1cm de erro. Na ciência, pesquisadores podem coletar dados e registrá-los com precisão de micro-segundos, quando a amostra foi obtida. Muito popular em esportes como balonismo e ciclismo, já começa a ser utilizado também por pescadores e ecoturistas que, simplesmente, querem planejar e se orientar durante suas viagens. Sua utilidade é incontestável entre guardas florestais, trabalhos de prospecção e exploração dos recursos naturais, geólogos, biólogos, arqueólogos e bombeiros, que se beneficiam da tecnologia deste sistema. Na agricultura, mais do que nunca, o GPS permite armazenar dados relativos a produtividade e otimizar a aplicação de corretivos e fertilizantes.

Curso de GPS na Faculdade de São Lourenço
Foi pensando nas diversas aplicações do GPS que a Faculdade Santa Marta, em São Lourenço, MG, promoveu nos dias 19, 20, 26 de outubro um curso sobre GPS. Com um público variado, desde estudante, polícia ambiental, até médico e praticante de vôo livre, o curso superou as expectativas de muitos. Segundo um empresário local, Heli Nogueira, que já possuía um GPS, agora tudo ficou mais fácil: "Aprendi muito mais do que esperava e já estou até pensando em um novo aparelho mais potente para aproveitar melhor as minhas viagens". Já Joselito Fonseca, médico de resgate de vôo livre: "Interessantíssimo e de uma utilidade imprescindível para mim.

Pois preciso saber, com precisão, o menor percurso, em menor tempo para chegar ao local do acidente". Segundo o tenente da polícia ambiental, Gilson Pereira: "O GPS é de fundamental importância para o nosso trabalho, como por exemplo, a localização exata das áreas de atuação para que seja feita a perícia adequada. Com o levantamento aéreo das infrações, poderemos enviar viaturas aos locais certos. Com isso há uma melhora significativa na qualidade do serviço, aumentando a credibilidade".
Maiores informações: Programa Trackmaker: www.gpstm.com/port

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