Europa e Meio Ambiente

Fórum da União Européia discute meio ambiente

Sustentabilidade na iniciativa privada foi o tema central da agenda de discussão

Carlos Caju

Se a primeira preocupação da Europa é com a guerra do Iraque e o fim do terrorismo, a segunda preocupação é algo bem positivo: promover com eficiência o desenvolvimento sustentável em toda a região. Isso ficou provado no dia 21 de fevereiro quando a questão do meio ambiente ocupou toda a agenda de discussão da União Européia, num Fórum realizado por representantes de indústrias, em especial as ligadas a produtos derivados de madeira, para discutir a relação direta e indireta dessas indústrias com a sustentabilidade. Segundo o responsável pela realização do Fórum, Erkki Liikanen, membro da UE, na condução dos trabalhos foi incentivado que executivos de empresas e líderes de diversos países discutissem temas chaves, como competição entre as indústrias, mudanças climáticas, uso e reuso de recursos naturais, energia e fornecimento de madeira.

Meio Ambiente na UE nos últimos 20 anos

De acordo com dados da União Européia, nos últimos 20 anos, enquanto a produção industrial aumentou
em 30%, o impacto dessa produção no meio ambiente na verdade caiu.

? A redução de 10,5% nas emissões de gases industriais desde 1990 representa uma contribuiçäo substancial no que diz respeito aos acordos feitos em Kyoto.

? Emissões de gases nocivos à camada de ozônio (inclusive os poluentes de ar local) diminuíram em 25% desde 1980.
A produção de gases destruidores da camada de ozônio na UE já parou quase que totalmente.

? O consumo de energia industrial tem sido constante desde meados de 1980, apesar do aumento da produção de alguns produtos.
O consumo de matéria prima, como minerais, tem tido uma tendência de estabilização nos últimos anos de 1990.

? A melhora na performance ambiental tem tido seu custo. O gasto das indústrias da UE com a proteção do meio ambiente aumentou consideravelmente desde os anos 80 a um valor de 32 bilhões de Euros em 1998, o equivalente a mais ou menos dois por cento do total do valor agregado das indústrias.

ENTREVISTA - Christian Korneval

Melhora o mercado de trabalho para consultores ambientais

Carlos Caju, de Oslo
Um fato curioso e que está ficando cada vez muito comum é que de ambientalistas, em especial aqueles com experiência internacional, estarem deixando suas funções em ONGs para serem consultores de empresas privadas. É um novo mercado de trabalho e que se tem mostrado um bom negócio para as empresas e para os ambientalistas. Entre muitos casos interessantes, vale destacar o do
ex-Diretor do WWF Internacional, Christian Kornevall, que foi também dirigente da Cruz Vermelha Internacional e da Organização Internacional do Trabalho.

Depois de muitos anos trabalhando para governos e ONGs, o sueco Christian Korneval decidiu influenciar diretamente no curso de empresas de grande porte. Foi contratado como Diretor-Geral da ABB, uma fusão de empresas suecas e suíças (ABB é uma empresa de tecnologia em energia e automação www.abb.com/br e www.abb.com) com mais de 140 mil empregados por todo o mundo, inclusive no Brasil. Para falar sobre o que significa deixar de ser governo e dirigir organizações não-governamentais para trabalhar no setor privado, Christian Kornevall deu esta entrevista para o correspondente da Folha do Meio Ambiente em Oslo.

Folha do Meio - O senhor passou por várias ONGs e hoje é quem decide sobre assuntos de sustentabilidade de uma das maiores empresas do mundo, a ABB. Como é essa sua passagem de uma ONG para uma empresa?
Christian Kornevall -
Como meu background acadêmico em meio ambiente e economia, sempre estive envolvido com temas sociais, econômicos, ambientais e de desenvolvimento. Fui diretor de várias ONGs e da OIT em vários países. Achei que agora era hora de poder influenciar diretamente no setor privado. Daí surgiu a oportunidade de dirigir a ABB, no que diz respeito a questões de sustentabilidade. Está sendo uma experiência muito interessante.

FMA - Qual a relação meio ambiente e economia numa empresa privada?
CK -
Como você deve saber, a ABB é uma empresa global, com filial no Brasil há muito tempo. Ela fornece diferentes tecnologias de ponta de milhões de dólares para muitos países, inclusive Brasil e Venezuela, no setor elétrico. Também em outras áreas como óleo e gás. Uma das coisas que fazemos é traduzir o valor econômico do meio ambiente para nossos clientes, ajudando-os a entender a nossa percepção de sustentabilidade. Por a ABB ter o peso que tem, e pela visão que a empresa tem de que o caminho para o futuro competitivo é a sustentabilidade, hoje não se pode pensar economia deixando meio ambiente à margem. Tudo está de alguma forma interligado, há em tudo uma certa interdependência. A ABB tem esse compromisso com a sustentabilidade e isso é levado muito a sério em todos os países onde operamos. Aliás, a ABB-Brasil é uma das mais sólidas. Tem base em São Paulo e possui até seu próprio museu.

FMA - Qual é a sua visão sobre os resultados da RIO+10?
CK -
A RIO+10 foi um com certeza um grande evento e teve o seu mérito, mas em termos práticos avançamos muito pouco. Acho que não haverá uma outra nos mesmos moldes. Pelo menos com o formato que foi em Johannesburgo.

FMA - Qual sua impressão da recente viagem ao Brasil?
CK -
O Brasil é um país privilegiado por várias razões, rico em recursos naturais, um dos países com mais recursos naturais numa perspectiva global e é o maior país da América Latina, um continente promissor em várias áreas. Diferentemente dos demais continentes, a América Latina está longe dos conflitos de hoje, longe de guerras e muitos outros conflitos religiosos e políticos etc, portanto um privilégio. Quanto à Amazônia, eu tenho a esperança de que o Brasil saiba cuidar bem da região e que a sustentabilidade seja a visão que predomine tanto na Amazônia como em todo país. Eu fiquei chocado quando o diretor da Fundação José Rebelo, do Xingú me falou que em alguma parte da região havia gente cortando árvore por um valor de 10 a 15 dólares. Minha esperança é que essa visão mude e que saibam explorar a região racionalmente.



 
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