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Soja transgênica A colheita da discórdia Congresso quer regulamentar plantio da soja e parlamentares aguardam apenas decisão sobre safra Milano Lopes 01 de Março de 2003 ![]()
As lideranças no Congresso aguardam apenas a definição do governo em relação ao que será feito com a safra de soja transgênica deste ano, para incluir o projeto na ordem do dia da Câmara dos Deputados em regime de urgência, conforme garante o deputado Luiz Carlos Heinze (PPB-RS) um dos articuladores da aprovação do projeto. Os representantes do Rio Grande do Sul, Estado que colheu mais de quatro milhões de toneladas de soja transgênica este ano, estão divididos. Um grupo majoritário defende a liberação tanto do plantio como da comercialização, e outro, constituído sobretudo pelos representantes do PT e pelas lideranças ambientalistas, acha que é preciso ir com cuidado, proibindo-se o plantio e a comercialização até que fique cientificamente provado que a soja transgênica não faz mal ao meio ambiente e à saúde dos consumidores. Pensando no assunto PT e ambientalistas Defesa com números
A soja e o seqüestro de carbono Milano Lopes, de Brasília Para Lorenzoni, nos últimos dez anos o plantio direto na palha no Brasil resultou em: — Preservação de um bilhão de toneladas de solo; Mas essas afirmações também são contestadas por Eliseu Alves. Ele considera que, em termos líquidos, levando em conta a retenção e a liberação do CO2, o resultado não é muito vantajoso em função do curto ciclo da plantação. Quando se fala em seqüestro de carbono, as melhores vantagens estão ou nas pastagens ou nas florestas. A proposta do deputado ao PFL foi a de que o partido deve lutar para que o produtor rural tenha liberdade de escolher qual a melhor semente para plantar de acordo com a sua convicção, interesse e rentabilidade. O efeito negativo do plantio clandestino Os defensores da soja transgênica garantem que a polêmica envolvendo a comercialização do produto colhido no Rio Grande do Sul já provocou dois efeitos colaterais danosos: primeiro, desestimulou o setor privado a investir em tecnologia, em especial, em biotecnologia. Os investimentos, no ano passado, somaram cerca de R$ 20 milhões, mas poderão cair acentuadamente este ano, se os investidores perceberem que não há retorno na aplicação do seu dinheiro. Eles garantem que todas as pesquisas com soja, e não apenas com variedades transgênicas, foram paralisadas em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, embora a Embrapa continue pesquisando em outras regiões do País. O segundo efeito colateral da proibição é o estímulo ao ingresso de sementes contrabandeadas da Argentina, de qualidade duvidosa. Mesmo as sementes de qualidade vindas do país vizinho - as chamadas Maradonas - plantadas no Rio Grande do Sul, são reproduzidas na safra seguinte, a partir do produto colhido no Brasil, com perda de qualidade, por não seguir os padrões de seleção. A decisão do governo de retirar da CTNBio a atribuição de órgão deliberativo, deixando-lhe uma função meramente consultiva, repercutiu no Congresso. Para o deputado Marcondes Gadelha (PFL-PB) trata-se de uma represália ao fato de a comissão ter votado a favor da liberação da soja transgênica round-up ready, da Monsanto. Tecnologia X Ideologia A produção brasileira de soja, este ano, deverá ser de 50 milhões de ton, das quais seis milhões de ton são de soja transgênica, colhida ou em processo de colheita, principalmente no Sul. Dos 8,5 milhões de toneladas da safra gaúcha deste ano, mais de 4 milhões de toneladas foram de soja transgênica. Como, desde junho de 1999, por decisão do juiz federal Antônio de Souza Prudente, está proibido o cultivo e a comercialização da soja transgênica, o problema foi criado: o que fazer com os seis milhões de ton dessa soja? Mesmo os mais radicais adversários da transgênia admitem que uma solução precisa ser alcançada para evitar prejuízos irremediáveis aos agricultores que plantaram o produto. Até a deputada Luciana Genro, filha do ministro Tarso Genro, uma das representantes das alas radicais do PT e militante Os produtores alegam que plantaram soja amparados por lei. No âmbito estadual, a lei n.º 11.463, de 2000, e no âmbito municipal leis aprovadas pelos municípios de Tupanciretã. Cruz Alta e Jóia. Confrontando essas leis existe a decisão da Justiça Federal de primeira instância. A Advocacia Geral da União já recebeu instruções do Palácio do Planalto para entrar na questão, aparentemente com o propósito de encontrar uma solução que atenda aos produtores sem recorrer da decisão judicial. A alternativa mais viável é a exportação. À exceção do Brasil, os grandes produtores de soja, como os Estados Unidos e a Argentina, já utilizam largamente a soja transgênica, tanto para comercialização interna como para exportação. Aparentemente, o que não falta é mercado para o produto. Mas a exportação cria um problema para a indústria gaúcha: a falta de matéria prima para a produção de óleo e farelo. A alternativa seria a compra de soja em grão de outros Estados produtores, porém neste caso o empecilho é o custo mais elevado. Parlamentares a favor e contra a soja transgênica concordam num ponto: a questão maior não é liberar ou não a soja transgênica, mas definir o que acontecerá daqui por diante. Qual será a política do Presidente Lula para a transgenia. A definição dessa política, segundo essas mesmas lideranças, passa pela solução de outra questão ainda mais complexa: convencer os produtores rurais, em especial os pequenos e médios, de que não devem continuar plantando a soja transgênica. O bolso sempre fala mais alto. E aí, perguntam os parlamentares, perguntam os cientistas e os produtores rurais: será que a tecnologia mais uma vez venceu a ideologia?
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