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Iceberg Ambiental Vem aí o Observatório Nacional de Monitoramento Ambiental O Ibama está montando uma sala para monitorar empresas 24 horas por dia Marcelo Nantes 01 de Maio de 2003 Flávio Montiel é duro na queda. Promete levar para o Ibama, onde é hoje diretor, toda sua experiência de ativista do Greenpeace. Entre 1999 e 2002, foi coordenador político da entidade e chegou a perseguir navios carregados com madeira brasileira sem certificação de origem. "Lembro-me de ter abordado pelo menos três", confirma. Montiel também foi diretor geral do Instituto Ecológico de Meio Ambiente do Distrito Federal (Iema/DF), durante o governo de Cristovam Buarque (PT), e trabalhou como assessor técnico da Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias, na Câmara dos Deputados. Participou, também, da produção do primeiro relatório sobre tráfico de animais, feito pelo WWF no Brasil. Em entrevista exclusiva para a Folha do Meio Ambiente, Flávio Montiel fala sobre as dificuldades que o governo brasileiro enfrenta sempre que um novo acidente ecológico acontece. Mas adverte: "Devemos ter no Brasil 500 cataguases, que a qualquer momento podem provocar acidentes terríveis. A questão central está na necessidade de as empresas que produzem estes efluentes aprimorarem seus mecanismos de tratamento e destinação", afirma o diretor. Vamos à entrevista.
Folha do Meio - Por que acidentes como o de Cataguases, em que ocorre vazamento de produtos altamente tóxicos, acontecem com tanta freqüência no Brasil? Esta situação é fruto, principalmente, da falta de atenção por parte de quem produz estes acúmulos tóxicos. FMA - É o caso da Florestal Cataguazes? Mas é importante ressaltarmos que não há conclusões da causa. Brasil tem perto de umas 500 cataguazes
FMA - Há muitos passivos ambientais no país? FMA - O senhor falou que as empresas têm aprimorado seus respectivos mecanismos de tratamento. O poder público tem feito sua parte? Neste sentido, houve avanços. Mas não se pode atribuir toda a responsabilidade ao governo federal, porque é humanamente impossível estarmos em todas as localidades. Porém, o Estado brasileiro não foi aparelhado nestes últimos dez anos. Por isso, não consegue dar uma resposta rápida a situações de emergências como esta, e nem aperfeiçoar o sistema de monitoramento. Mas independente de quem seja a competência - nós sabemos que a empresa Florestal Cataguazes foi licenciada pelo órgão ambiental do estado de Minas Gerais, e neste caso o Ibama funciona como órgão supletivo - é necessário criar um mecanismo de monitoramento para se chegar a um instrumento real e eficaz de checagem. FMA - O rompimento da barragem em Cataguases foi denunciado? O pessoal estava se organizando para ir lá na segunda, mas no sábado, cinco da manhã, houve o rompimento. Este tipo de situação tem que ter um sistema de monitoramento apropriado, rápido, eficiente, mas o Estado brasileiro, incluindo todos os órgãos envolvidos, federal e estadual, ainda não está devidamente aparelhado para poder ter um sistema de monitoramento satisfatório. FMA - E o que tem sido feito? No momento em que há identificação de alguma emergência, será acionado um banco de dados que irá subsidiar, a partir do Cadastro Técnico Federal (CTF) de todas as empresas, informações que permitirão acionar não só representantes do Ibama como também o pessoal dos estados e municípios. O CTF está sendo atualizado, e estamos entrando em contato com várias empresas, para que elas passem suas informações e se cadastram como atividades potencialmente degradantes. Pretendemos dobrar o número que existe hoje, em torno de 500 empresas. Isto está sendo organizado agora, após o episódio de Cataguases. FMA - Quanto tempo levará para o sistema iniciar suas operações e tem recursos? FMA - O Ibama já tem este mapeamento? Quer dizer, a empresa foi instalada naquele local, há anos, mas de maneira totalmente irregular. São duas bacias de contenção, e do helicóptero era possível ver um filete de água descendo. Ibama vai ter sala de emergência 24 horas FMA - Não há como transferir essas empresas em situação de risco ambiental? Mas com o mapeamento que está sendo feito e que vai ser incluído no banco de dados da sala de acidentes, os governos federal e estaduais poderão reuni-las e cobrá-las uma solução mais definitiva. Do contrário, estaremos convivendo com estes riscos de forma permanente. Tem que haver um diálogo entre o setor empresarial e o Estado. A correção de um passivo ambiental como este não depende exclusivamente do poder público. As empresas vão ter que se engajar dentro de uma responsabilidade da gestão socioambiental para encontrar uma solução mais adequada. Da mesma forma que no passado isto resultou na construção destas bacias de contenção. FMA - O Ibama tem ciência de que existe um problema grave, mas não tem controle sobre esta situação? Todo licenciamento feito no âmbito do governo estadual tem recursos correspondentes repassados, que ficam nos cofres do estado justamente para que ele tenha condições de se aparelhar. A única multa aplicada foi feita pelo Batalhão Florestal do Rio de Janeiro, que não tem competência legal para autuar empresas em outro estado. Neste caso, a multa foi nula. Estamos com uma comissão técnica formada para avaliar tanto a dimensão do impacto quanto para chegar a conclusão do valor de multa a ser aplicado pelo dano ambiental. No momento em que atingiu dois estados, mais o mar, o dano passa a ser de caráter federal. Em função disto, o Ibama tem autonomia e competência para autuar e multar. Mas este estudo está sendo feito com critérios, e ao invés de aplicar sanções para satisfazer a opinião pública - e no caso em questão, para uma multa que possivelmente não seria paga - estamos dimensionando a pena de forma adequada e de acordo com a própria legislação ambiental, adequando-a à capacidade de pagamento da empresa. Não adianta aplicar uma multa máxima, de R$ 50 milhões. FMA - O ideal é cobrar o que é possível ser pago? Assim que o Ibama aplicá-la, ela será repartida entre Minas e o Rio de Janeiro. Acho que este é um dado importante, porque reflete uma visão de Sisnama. Acho que é um certo avanço para a compreensão do problema. FMA - Quer dizer que pode ocorrer um novo acidente ambiental de grandes proporções a qualquer momento, já que não há como evitar que um outro venha ocorrer daqui a um mês? Parece uma perseguição, mas ocorre quando os órgãos estão fechados, quando não há uma mobilização. Quando falamos em criar a sala de emergência, estamos falando em ter um sistema de monitoramento e alerta 24h ligado, para que mesmo num sábado ou domingo, possamos acionar uma força mínima que possa reagir de maneira imediata. FMA - O senhor concorda com a crítica de que o poder público, seja municipal, estadual ou federal, não sabe como agir na hora em que os desastres ocorrem? Há um aparato técnico para lidar com estas situações? Temos competência técnica, mas o que falta é uma articulação traduzida num manual operacional que diga o ?passo-a-passo?. Como agir em situações específicas de emergência. Para acidentes envolvendo fogo e vazamento nós temos, mas para outros tipos de acidentes ainda não. FMA - Quais seriam estes outros tipos de acidentes? FMA - Há articulação entre os órgãos ambientais? A mistura vazada se dissolve na água, e vai descendo. Num primeiro momento, lá embaixo, em Campos (RJ), ninguém foi avisado sobre o que estávamos fazendo. A descida mais acelerada da mancha negra poderia contaminar os tanques de criadouros de peixe que trabalham com a água do rio. Ainda bem que foi avisado a tempo, mas corria-se o risco de ao se resolver um problema contaminasse a produção de peixes ao longo da calha do rio, entre Campos e São Fidélix (RJ). Isso demonstra a falta de uma linha de procedimentos. Creio que este foi o maior volume de dejetos a descer uma bacia, até o mar, entre outros envolvendo derramamento. Foi 1,5 bilhão de litros que estourou. FMA - Quer dizer, existem aparatos, mas eles não estão encaixados e não há fluxo de comunicação? Precisaria de mais recursos, capacitação e treinamento com o pessoal que está na ponta, lidando com a degradação, o impacto e a poluição ambiental. Em outros estados, creio que em São Paulo, Paraná ou Bahia, há um sistema de monitoramento um pouco mais aperfeiçoado, mas que não representa a realidade do país. Sobre esta articulação, o Ministério do Meio Ambiente está reavaliando o projeto de lei que tramita no Congresso relativo à definição das competências entre União, estados e municípios. Para que se possa ter uma regra geral, e que a partir dela possa-se rever todos estes pactos federativos, com os estados e aprimora-los. Montiel: chegou o momento das empresas se aparelharem FMA - Não seria o caso de se criar uma polícia civil ambiental? FMA - Há outras empresas sem licenciamento a ponto de causar desastres ambientais? Portanto, chegou o momento destas empresas passarem a pensar em algo mais adequado em termos de destinação final, de reciclagem e de reutilização. Para que cada vez mais se possa ter uma redução do risco de acidentes. Está na hora desse pessoal repensar seus sistemas de tratamento. FMA - O senhor falou em ?500 cataguazes?. Quais os principais passivos ambientais, aqueles que causam mais preocupação para o poder público? FMA - Mas quais seriam os mais graves? O senhor falou há pouco de Ingá Metais. De fato, há empresas que trabalham na indústria de transformação mineral, química e petroquímica, e em proximidades de cursos d'água. FMA - Que tipos de resíduos?
Tanto na área social quanto na área ambiental. A grande lição que fica é esta: o Estado brasileiro tem que estar devidamente aparelhado para que possa monitorar e ter uma capacidade de resposta imediata para acidentes e emergências ambientais. Esta diretriz está sendo implantada, mas como nosso presidente já falou, é humanamente impossível mudar a rota de um transatlântico em pouco tempo. Talvez os frutos só possam ser colhidos daqui a uns dois anos. E é uma determinação que está sendo cumprida.
National Observatory of Environmental Surveillance underway We should have about 500 residue dumps of high contamination potential in Brazil, that any time soon could cause major catastrophes. However, the main issue is in the necessity of toxic byproduct producing companies to improve their treatment and destination procedures. We have the situation of Ingá Metais ironworks, that at any moment now could release poisonous residues into Sepetiba Bay. Here, definitely, we would witness a more serious situation, because these metals are heavy. It would not be what happened in Cataguazes, where 90% of the compounds were organic substances, and they had been previously correctly treated inside the dam, and they could have even be used as fertilizers and manure We are setting up this very year at IBAMA (Brazilian Environmental Agency) an accident office for environmental emergencies, that will be dealing with a surveillance system for forest fires or oil spills, which will function as a sensor. It will be integrated to what we call National Observatory of Environmental Surveillance. At the moment there is an identification of an emergency, a data base ) will be set in motion that will subsidize, from CTF (Federal Technical Data) of all companies, the information that will allow to not only set in motion representative personnel of IBAMA as well as the staff from states and cities. CTF is being updated, and it is contacting some companies, so that they will share information and register as potentially environmentally threatening activities. We intend to double the number that exists today, about 500 companies. This is being organized now, after the episode in Cataguases. The wide majority of the medium and large companies is licensed. But I believe that many of them must be with their licenses overdue or their equipment destined to impact reduction , such as filters, dam structures or final destination treatment systems, somewhat obsolete. The adequacy of companies to a more perfected treatment of their disposal routes has happened within the last 20 years. Therefore, the moment for these companies to start reflecting about something more adequate in terms of final destination, recycling and reuse has come so that more and more we can reduce accident risks. It is about time for these people to rethink their disposal systems. Even though all the advances in the environmental management system of the country, we have had an orientation from previous governments that was highly molded into an economic neo-liberalism. Due to this, we can say that along the last ten years the weakening in the intervention capacity of the Brazilian State in structural areas has occurred. And one of them is the environmental area. The new government guideline, based on sustainable development, in the participation of society in the surveillance control and environmental management, in the integrated transversal action among government agencies in the solution of problems like this, walking alongside with a government striving for the strengthening of the State system. We do not want to nationalize companies, instead we intend to fortify the basic functions of the State. Both in the social area as well as the environmental one. The great lesson that must be kept is this: the Brazilian State must first be duly equipped so that it can monitor and have an environmental capacity of immediate action for accidents and emergencies. This guideline is being implanted, but as our president has already spoken, it is humanly impossible to change the route of a transatlantic cruise liner in so little time. Perhaps the fruits can only be harvested in two years. And this is a determination that is being followed through.
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