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Chico Mendes Em depoimento inédito, sindicalista acreano relata o drama da luta que ele e seus companheiros enfrentaram para frear a devastação da Amazônia Silvestre Gorgulho 01 de Junho de 2003 Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como Chico Mendes, foi ao mesmo tempo semente e semeador. Como semeador, nos seus 44 anos de vida, plantou uma consciência ecológica na Amazônia e no Brasil. Como semente fez germinar seguidores e ações que em 14 anos mudaram o curso de nossa história de preservação ambiental. Seus frutos estão espalhados por aí. Em Xapuri, no Acre, no Brasil e no mundo. O jornalista Romerito Aquino, colaborador da Folha do Meio Ambiente desde julho de 1996, com a ajuda de seu irmão o antropólogo Terri Aquino (que vem trabalhando há mais de duas décadas pela emancipação econômica e social dos índios do Acre) resgatou esse depoimento inédito dado à antropóloga Lucy Paixão Linhares, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, três meses antes de Chico Mendes ser assassinado em Xapuri, em 22 de dezembro de 1988. A gravação de mais de duas horas serviu para a antropóloga elaborar a dissertação de sua tese de pós-graduação em Antropologia Social, defendida na UFRJ, em 1992. A entrevista revela um Chico Mendes aguerrido, destemido e disposto a tudo para continuar a defender o direito de todos seus irmãos seringueiros à selva sustentável. Nesta matéria está a explicação porque Chico Mendes, depois de morto, se transformou num símbolo mundial pela preservação da floresta tropical e pelo meio ambiente. Chico Mendes foi semeador de garra e de fé. E foi semente de esperança e de paz.
Chico Mendes por ele mesmo Romerito Aquino, de Brasília
"Meu nome é Francisco Mendes Filho, mais conhecido tradicionalmente como Chico Mendes. Nasci no seringal Equador, localizado em Xapuri, a poucos quilômetros da fronteira com a Bolívia. Aos nove anos de idade, comecei a trabalhar no extrativismo da borracha. Era, naquela época, o primeiro ABC que o filho do seringueiro começava a aprender. Porque, para o seringalista, o filho do seringueiro estudar criava um desestímulo para a produção de borracha. E o patrão precisava que sua produção de borracha fosse aumentando cada vez mais porque ele tinha que colocar seus filhos para se formar em Belém, Rio de Janeiro, Fortaleza e também porque precisava comprar apartamento no Sul do país. O direito do seringueiro era apenas o de colocar o filho de oito, nove anos, para cortar seringa na selva". Colonização foi feita com o tráfico de escravos "Naquela época, de 1880 até 1940, era muito maléfico a vinda das famílias nordestinas para desbravar a Amazônia. Isso era considerado tráfico de escravos disfarçado. Formavam aqueles grupos de nordestinos desesperados pela fome e pela seca e eles se transformavam numa forma de mercado escravo para a Amazônia. E aí eles trabalhavam para o seringalista, que explorava a Amazônia. Ao mesmo tempo, os nordestinos eram preparados para lutar contra os índios, os verdadeiros donos da terra. Resumindo essa história de todo o massacre do seringueiro no tempo do patrão, o seringueiro era explorado, tirava o seu saldo e, no final do ano, o patrão pagava no balcão, mas lá na mata já estava o pistoleiro para matar ele e o dinheiro era devolvido para o patrão novamente. Aconteceu muito disso. Agora, tinha uma coisa. Você não tinha perigo de ficar sem a floresta. Essa era uma das grandes vantagens daquela época". Igreja e Contag foram decisivas para a luta "A partir de 1973, 1974, a igreja (Católica) do Acre começa então a se preocupar com a situação desse êxodo rural e da violência no campo. Mas não tinha nenhum trabalho organizado de base. O trabalho da igreja tinha como objetivo tentar rearticular e levar uma orientação melhor para o homem do campo. Ou seja, a Igreja levou uma campanha de opção pelos pobres, denunciando os conflitos e a violência no campo. No final de 1974, por solicitação já da igreja, chega no Acre a primeira comissão da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) para fundar os primeiros sindicatos. A partir de 1976, eu estava completamente no seringal vendo essa situação acontecendo de uma forma desesperadora, mas sem saber o que fazer. A gente tentava denunciar, mas não havia espaço para nós. E aí, de repente, surge como um milagre a notícia da fundação dos primeiros sindicatos dos trabalhadores rurais. Uma comissão da Contag, com o apoio da igreja, que cedeu toda a sua estrutura nos municípios, foram realiados os primeiros cursos de sindicalismo e tal. Esse primeiro curso foi organizado na cidade de Brasiléia e eu já corri para lá para participar desse curso. Funda-se, então, em 1975 o Sindicato de Brasiléia. A partir daí a luta começa. Começa a luta". Acre é manchado de sangue
Seringueiros, únicos heróis da revolução "Nós sabíamos que no Acre dificilmente alguém tinha documento, título definitivo da terra porque o Acre foi uma conquista. O Acre foi anexado ao Brasil por uma luta armada liderada pelo gaúcho Plácido de Castro. Só que essa guerra também era uma guerra de interesses de multinacionais, já naquela época. Só depois, há muito tempo, é que a gente vai descobrindo essa realidade. E o seringueiro foi o grande articulador, foi quem lutou, foi o soldado. A história hoje mostra - pelo menos você vê documento na Fundação Cultural do Acre - os velhos heróis, que eram os heróis que aparecem hoje na história registrada nas fotos. Eram exatamente aqueles patrões que mandavam matar seringueiros para não pagar seus saldos. Mas quem lutou, quem derramou seu sangue, quem morreu, quem defendeu, quem foi a razão da anexação do Acre ao Brasil foram os seringueiros. Mas isso não está na história. Esse foi o importante papel dos seringueiros naquela época. Então, na década de 70, começa então as brigas de terras. Em muitos lugares, não havia o legítimo proprietário de terra. Seringalista era um posseiro também. Ele chegava numa área virgem, desbravava o seringal e se tornava posseiro". Títulos de terras comprados por dinheiro
A Justiça estava sempre do lado mais forte
Aí, nós tivemos que pensar em outra alternativa. Aí partimos para os empates. E foi em março de 1976 que num momento de desespero um grupo de posseiros do município de Brasiléia, no seringal Carmem, desesperados porque as suas colocações estavam ameaçadas por 100 peões de fazendeiros lá dentro, acampados para desmatar, a gente viu que pela via judicial não tinha jeito. Aí o grupo de 60 posseiros se entrincheiraram na área e teve uma grande repercussão na época. A região estava numa faixa de fronteira, área de segurança nacional, em pleno período da ditadura militar. A partir dali, começam os primeiros avanços. O Incra começou a distribuir os lotes de terra. Não foi uma vitória porque o pessoal negociou. Um pegou um lote de terra, 30 hectares, outro pegou 50 hectares, outro pegou 100. Só que aquilo, naquele momento, para nós parecia um avanço, uma vitória. Só que ninguém previu que nós tínhamos caído numa armadilha. Aquele loteamento tinha acabado com toda a nossa tradição. De repente, seringueiro estava sendo transformado em colono, agricultor, coisa que ele não tinha experiência, não sabia fazer, não tinha costume para isso. Assim, essas terras legalizadas acabaram caindo nas mãos dos fazendeiros em posse legal porque o seringueiro não se adapta à agricultura e depois era muito diferente porque o seringueiro fazia dez quilos de borracha e, por mais barato que fosse, todo mundo queria comprar. Ele tinha o título, mas ficava lá sem assistência médica, sem transporte, sem uma política de crédito para ele começar a trabalhar. Acho que isso era estratégico para expulsar o homem do campo de uma forma legal para o latifúndio ocupar esse espaço.” Wilson Pinheiro, o grande líder sindical
Se reúnem, pagam pistoleiros e no dia 21 de julho de 1980, Wilson Pinheiro é assassinado. Isso foi uma das formas de esvaziar o movimento sindical. Aí, o que faz o governo? Para dar uma de bonzinho, desapropria naquela época 90 mil hectares de terras. O governo dizia que estava resolvendo o problema da questão agrária e mais uma vez a gente embarca nessa canoa furada. Hoje, 70% dessas terras já voltaram novamente para as mãos dos latifundiários, da mesma forma que ocorreu anteriormente. A partir de 81, o sindicato de Xapuri começa a discutir uma nova fórmula e é aí que a gente começa a descobrir que fomos derrotados e caímos em várias arapucas. Nós negociamos muitas vezes na tentativa de resolver os conflitos porque, naquela época, a gente achou que o importante era se-gurar um pedaço de terra para os companheiros, não tinha outra alternativa. Seria melhor continuar sofrendo na área rural do que ir para a periferia pobre das cidades. Mas não deu certo porque a política do governo contribuiu para que isso não desse certo. Em Xapuri, começamos então a discutir uma outra fórmula. Não vamos sentar mais com os fazendeiros para negociar, fazer acordos espúrios que só têm trazido prejuízos para nós. E começa, então, a resistência para não se permitir indenização nenhuma, nem loteamento nenhum. A questão passa a ser empatar mesmo. E começa a resistência. Começa o apoio do exterior,mas a UDR se organiza "Em 1984, a gente começa a perceber que, nesse tipo de resistência, a gente estava ficando muito isolado. O que fazer? Temos que sensibilizar as autoridades federais, gritar para o mundo que a situação está feia. E aí começamos a nos articular com o apoio de alguns companheiros, de algumas entidades para a realização do primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros em Brasília. Não tínhamos nem idéia de como isso ia ser. Puxa, lá em Brasília, o pessoal deve achar que nem existe mais seringueiros. Então, nós temos que dar um jeito de chegar lá para dizer que o seringueiro existe, ele está lutando e está querendo continuar sua luta na defesa da floresta. E em 1985, com o apoio do Pró-Memória [órgão ligado ao Ministério da Cultura], da Oxfan [agência internacional], da Mary Alegretti [na época Mary estava no Instituto de Estudos da Amazônia] e de outras entidades, conseguimos realizar o I Encontro Nacional dos Seringueiros, em Brasília. E a gente percebeu também que apesar do trabalho do sindicato dos trabalhadores, o seringueiro prefere criar uma entidade própria, sua, para forçar o reconhecimento nosso como classe. E aí nasce a idéia de criar o Conselho Nacional de Seringueiros. Já existia o Conselho Nacional da Borracha, mas quem está naquele conselho são os grandes latifundiários, os grandes industriais, que aparecem como os produtores de borracha. Lá, naquele momento, quem era o produtor de borracha era o sindicalista. E a gente foi lá para Brasília dizer que quem produzia borracha éramos nós, os seringueiros. A idéia de criar o Conselho Nacional dos Seringueiros deu certo. Foi criado e hoje essa luta começou a extrapolar e só passamos a ter algumas pequenas vitórias a partir do momento que essa luta começou a ser divulgada para o Brasil todo e para o mundo. E aí despertou também o interesse dos movimentos ecológicos internacionais, a partir dos Estados Unidos. E aí a coisa começou a se expandir. Hoje, nós temos muita coisa pela frente. A situação é difícil porque a UDR [União Democrática Ruralista] por conta disso, também começa a se organizar, os latifundiários começam a se organizar, o poder também porque ele pesa sempre mais para o lado do latifúndio. Mas nós temos um grande lado favorável, que é a possibilidade de divulgar essa luta para o mundo inteiro, denunciando para o mundo inteiro, através das entidades internacionais, tudo o que está acontecendo aqui. Isso a gente considera como grande avanço, mas para chegar até aqui, foi uma luta, foi sacrifício, foi ameaça, foi morte. Eu e muitos companheiros quantas e quantas noites tivemos que dormir com uma arma ao lado ou passando a noite vigiando a gente mesmo. Ou mudando para lugares diferentes. Não tem sido fácil resistir, mas pelo menos hoje esta luta já se expande pelo mundo inteiro". 112 dirigentes sindicais foram presos
14 anos depois... Os acreanos consideram que o maior legado deixado por Chico Mendes é o atual governo do estado, que eles conhecem muito mais como "Governo da Floresta". Esse foi o slogan escolhido pelo governador Jorge Viana e pela ministra Marina Silva, amigos e aliados de Chico Mendes, para classificar os projetos e ações de governo que o sindicalista defendia em favor da preservação e do desenvolvimento sustentável dos mais de 15 milhões de hectares que formam hoje a floresta do estado. Enquanto o governo estadual põe em prática tudo o que Chico Mendes pregava em favor da melhoria da qualidade de vida dos povos da floresta, a memória do sindicalista é cuidada hoje pela Fundação Chico Mendes, com sede em Xapuri. Presidida pela viúva do sindicalista, Ilzamar Mendes, a entidade deve ser parceira no Memorial Chico Mendes, que será construído em breve, em Xapuri. A Fundação Chico Mendes se dedica também a apoiar projetos comunitários de manejo de recursos florestais, como o do Seringal Cachoeira, em Xapuri, visitado pelo presidente Lula. Neste seringal, funciona um projeto comunitário de exploração por manejo sustentável de várias árvores da floresta, atividade que permitiu melhoria da renda de dezenas de famílias de seringueiros e serviu, inclusive, de modelo para o decreto que o presidente Lula assinou no Dia Mundial do Meio Ambiente, condicionando a exploração do mogno no país a planos de manejo florestal. Ao assinar o decreto no Palácio do Planalto, Lula resumiu numa frase a grande extensão do verdadeiro legado deixado pelo seringueiro e sindicalista Chico Mendes. "A partir da morte de Chico Mendes, em 1988, o Brasil e o mundo começaram a perceber que o destino da natureza e o destino da sociedade humana, em especial nos países mais pobres, estão visceralmente ligados". (RA) E Chico Mendes vira tese na UFRJ
A antropóloga ouviu demoradamente Chico Mendes antes de concluir a sua tese de pós-graduação, que recebeu o nome de Animus Domini (expressão do latim que quer dizer "ânimo do dono") e se constituiu nas suas 259 páginas numa análise da política de discriminação de terras pública no Acre. "Dediquei o meu trabalho a Chico Mendes, que cedo reconheceu o animus domini dos seringueiros acreanos em relação à floresta que ocupavam", diz a antropóloga, que denunciou o jogo imposto pela ditadura militar em sua desastrosa política de ocupação de terras na Amazônia. Sua tese foi publicada em 1992. Lucy Linhares concluiu que, durante a ditadura militar, o Incra legislou com exposições de motivos (consideradas depois inconstitucionais) para legalizar a posse de terras públicas no Acre numa intensidade muito maior do que a legislação permitia. Segundo Lucy Linhares, concedendo liminares aos proprietários contra os "empates" executados pelos seringueiros, "a atuação da Justiça fez recrudescer a onda de violência no estado, criando um novo momento para o movimento social e revelando que as atribuições formais da burocracia e da justiça eram instrumentos materializados de um poder que emanava das alianças de classe entre governo e proprietários de terras". (RA)
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