Recursos Hídricos reúso

Reúso da água - Entrevista RAYMUNDO GARRIDO

A reutilização da água é uma medida de gestão dos recursos hídricos, que vem ganhando cada vez mais espaço no seio de sociedades ricas e pobres

Silvestre Gorgulho

A Terra tem mais de seis bilhões de habitantes. É muita gente para explorar, produzir, consumir, usar, descartar e abusar dos recursos naturais. Desde meados do século 18, com a revolução industrial, a produção, o consumo e o descarte vêm crescendo geometricamente. E, para tudo, para produzir um simples parafuso, uma roupa, um grão de trigo ou chip de computador há um recurso natural indispensável: a água. Viver sem a água não é possível. Ela está presente no copo para beber, na comida para cozinhar, na agricultura para irrigar e na indústria para produzir. Então a água é um bem econômico e, pior, não é infinita. O que fazer? Simples: chegou a hora de não desperdiçar e, mais ainda, de reutilizar. O reúso da água é uma medida de gestão dos recursos hídricos que vem ganhando cada vez mais espaço no seio de sociedades, ricas e pobres, em várias regiões do planeta. Com muitos países enfrentando episódios de secas severas ou escassez de água de variados graus, o reúso da água para irrigação, no meio urbano e a recirculação da água de processo industrial vem ganhando terreno entre as práticas de conservação do meio natural. Quanto mais desenvolvido for o país e quanto menores vierem a ser as suas disponibilidades de água, tanto maiores são as possibilidades de se praticar o reúso. O re-uso pode ser praticado, principalmente, nos setores usuários do abastecimento d'água, da indústria e mesmo da agricultura irrigada. Sim, da agricultura irrigada, fazendo uso de águas provenientes do abastecimento urbano. No caso específico da indústria, prefere-se utilizar o termo "re-circulação da água". Se toda a água potável da cidade de São Paulo e sua região metropolitana fosse re-utilizada uma vez, a demanda por água bruta dessa região cairia de 55 para 28 metros cúbicos por segundo, mantido o índice de perda atual, que ainda é alto. E, neste caso, se as águas do Tietê, nesse tramo do rio, não estivessem tão "emporcalhadas" daria para contribuir com pelo menos uns 11 metros cúbicos por segundo e talvez nem existisse rodízio de abastecimento de água na capital paulista. O tema do re-uso remete à questão da educação ambiental e propõe importantes mudanças nos hábitos caseiros. Essas mudanças precisam ser mais difundidas para provocar uma economia ainda maior de água. Não é demais lembrar que o Brasil é rico em água, mas esse recurso está concentrado na Amazônia onde vivem apenas 7% da população brasileira. Portanto, o re-uso se impõe em muitas situações encontradas em outras partes do País. A conversa sobre o re-uso da água é mais uma da série que fazemos com o professor Raymundo Garrido, da Universidade Federal da Bahia e ex-secretário Nacional de Recursos Hídricos

Raymundo Garrido: O tema do re-uso remete à educação ambiental e propõe importantes mudanças nos hábitos caseiros

 

Folha do Meio - Reusar a água todo mundo sabe o que é. Mas funciona mesmo? Tem viabilidade?
Garrido -
Não só funciona, como é viável e, mais ainda, não vai ter outra alternativa. É o tema do momento. O reuso é o fato de uma mesma quantidade de água ser utilizada outra vez antes de passar por novo tratamento. A água pode ser re-usada no mesmo lugar onde foi usada ou em outro lugar, por outro usuário e mesmo para outra atividade usuária. Por exemplo, a água de lavatórios em casa, que na quase totalidade dos casos é escorrida para os ralos, poderia ser re-usada, antes de ser escoada, passando pelas caixas de descarga. Os esgotos urbanos, desde que a carga orgânica não seja demasiada, podem ser utilizados como água de re-uso na irrigação.

No Japão, as águas servidas passam por tratamentos terciários avançados e são utilizadas nas caixas de descarga das casas, apartamentos e edifícios públicos e comerciais. O desenvolvimento de sistema duplo de abastecimento de água vem crescendo pouco a pouco em inúmeros países.

FMA - Quer dizer, um abastecimento com água potável e outra com a água usada?
Garrido -
Justamente. São duas redes de abastecimento para cada casa, uma com água potabilizada, e mais cara, e a outra com água de re-uso, evidente, mais barata. O objetivo do re-uso é, portanto, extrair-se de uma mesma água o maior benefício que esta pode oferecer, utilizando-a mais de uma vez e aplicando-a a usos menos exigentes em termos de qualidade nas utilizações subseqüentes.

FMA - E que medidas devem ser adotadas para o re-uso da água doméstica?
Garrido -
Vamos aproveitar termos da informática para explicar melhor. Admitamos medidas de "hardware" e medidas de "software". Primeiro, é necessário separar a água em três padrões: um para as finalidades nobres: a água de beber, a água para o asseio corporal e para o preparo dos alimentos. Outro, para usos menos nobres como, por exemplo, a lavagem de pátios, de automóveis e outros mais que admitam a água não tratada. E um terceiro, também destinado a usos não nobres, que admita seja re-usada a água, tratada ou não.

Neste último caso estaria a água de descargas, que pode advir dos lavatórios e pias, desde que não impregnadas de gordura. Para se conseguir isto, quando não existe o sistema dual referido anteriormente na própria rede urbana, aí são necessárias medidas de "hardware", como a instalação de kits em residências, que façam drenar as águas dos lavatórios para as caixas de descarga. Além disso, as companhias de saneamento poderiam, também, estudar meios de entregar à unidade consumidora duas "penas" d'água, uma tratada e outra bruta, com preços diferenciados. Todo esse conjunto de medidas constituiria o "hardware", que, evidentemente, não é de fácil implementação, mas também não é nada impossível. O uso de torneiras inteligentes também contribui, em muito, para se poupar água. Já são largamente utilizadas em banheiros de aeroportos, shopping-centers e outros edifícios de uso coletivo. Hoje já são adotadas em muitas residências.

A prática positiva do reúso da água na agricultura

As águas de classe 2, que são águas utilizadas na a irrigação de hortaliças e frutas, ou de classe 3, que são águas utilizadas para, entre outros fins, a irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras, podem ser substituídas por esgotos tratados, o que faz com que as águas de boa qualidade permanesçam disponíveis nos mananciais para o abastecimento público

FMA - E as medidas de software?
Garrido -
Quanto às medidas de "software", temos que falar sobre os hábitos das pessoas. Por exemplo, o hábito de escovar os dentes não requer torneiras abertas durante o processo de escovamento, o mesmo sucedendo com o corte da barba. Também, o ensaboamento do corpo durante o banho pode se dar sem que a ducha esteja aberta. É bom sempre lembrar que a água cai do céu, mas, ao mesmo tempo, não cai do céu muito adequada, oportuna e inteligentemente. Significa dizer que a água, de fato, vem da chuva, e portanto cai do céu. Mas para chegar em casa, ela percorre um longo e elaborado caminho nas estações de tratamento, até a torneira. Neste caso, não cai do céu e sim das torneiras. E custa caro. Bem, é justamente toda essa complexidade que confere senso de oportunidade ao tema do re-uso da água.

FM - Fala-se muito sobre o re-uso agrícola da água...
Garrido -
As águas de classe 2, que são águas utilizadas, entre outras finalidades, para a irrigação de hortaliças e frutas, ou de classe 3, que são águas utilizadas para, entre outros fins, a irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras, podem ser substituídas por esgotos tratados, o que faz com que as águas de boa qualidade remanesçam disponíveis nos mananciais para o abastecimento público e outros usos que requerem boa qualidade da água. O uso dos esgotos contribui, pois, para a conservação de recursos, além de introduzir mais uma faceta da dimensão econômica associada à que se insere na gestão de recursos hídricos.

A experiência mostra que o re-uso da água para a agricultura, em países mais desenvolvidos, tem provocado uma série de conclusões favoráveis a essa prática. Entre essas vantagens, destacam-se os efeitos ambientais positivos, ao evitar-se a poluição dos cursos d'água, o que ocorreria caso os esgotos fossem lançados aos rios sem o devido tratamento. Aliás uma prática comum em muitos países quando não há recursos para as obras e empreendimentos de infra-estrutura. Nesse caso, a eutrofização, a formação de espumas, a redução dos níveis de oxigênio dissolvido e a dizimação de comunidades aquáticas formam um conjunto de problemas que são eliminados ou reduzidos.

FMA - E tem outras vantagens?
Garrido -
Tem sim. Como mencionado, o re-uso agrícola permite a conservação de águas de boa qualidade para outros usos. Isto é tanto mais importante em zonas de escassez de água, como as regiões áridas e semiáridas. Economizam-se, também, as águas subterrâneas, preservando os aqüíferos.

O uso de esgotos tratados traz consigo, também, a vantagem de reduzir a demanda por fertilizantes para a terra, pois os esgotos contêm nitrogênio, fósforo e potássio (N,P,K), que, de outra maneira teriam que ser aprovisionados por meio dos fertilizantes sintéticos. Pode-se contabilizar, portanto, a favor do re-uso agrícola, a economia que se observa, ainda que indiretamente, na energia e trabalho para aplicação dos fertilizantes.

E tem mais. O re-uso contribui para a melhoria das condições do solo sob o ponto de vista agrícola, uma vez que o esgoto tratado carreia matéria orgânica, que funciona, ao longo do tempo, como condicionador do solo, aumentando a capacidade deste em reter água e aumentando também a concentração do húmus, o que enseja uma melhor conservação, antecipando-se ao fenômeno da erosão.

Por fim, pode-se creditar ao re-uso a recuperação de desertos e o controle da desertificação através da irrigação e fertilização de cinturões verdes. E o re-uso permite, ainda, a implementação de amenidades urbanas através da irrigação e fertilização de áreas verdes. São os parques, jardins e áreas esportivas que contribuem para a humanização das cidades.

FMA - Uma curiosidade: por que não se vê, claramente, o re-uso na agenda ambiental?
Garrido -
Na teoria, até que entrou, sim, na agenda ambiental. Por ocasião do maior evento de meio ambiente do mundo que foi a RIO}92, o assunto foi debatido na Agenda 21. O Capítulo 21, que se ocupa da gestão ambientalmente adequada de resíduos líquidos e sólidos, inclui na Área Programática B, os objetivos de ampliar e vitalizar os sistemas nacionais de re-uso e reciclagem de resíduos, além de tornar disponíveis informações, tecnologias e instrumentos de gestão apropriados para encorajar e tornar operacional os sistemas de reciclagem e uso das águas residuárias.

Acrescentam-se outros segmentos da Agenda 21 que, direta ou indiretamente, estão relacionados com o re-uso. O Capítulo 6, por exemplo, que trata da Promoção da Saúde, prevê temas como o controle de doenças transmissíveis, a proteção de grupos vulneráveis e a redução de riscos à saúde provocados por poluição e perigos ambientais, todos relacionados com questão do re-uso.

Também o Capítulo 12, voltado para a Gestão de Ecossistemas Frágeis, incorpora duas áreas programáticas que se beneficiam de práticas adequadas de re-uso da água: o combate à degradação do solo por meio da intensificação da conservação e atividades de reflorestamento, como também e a implementação de programas de antidesertificação, integrando-os aos planos nacionais de desenvolvimento e de planejamento ambiental.

E não podemos esquecer os Capítulos 14 e 18, o primeiro voltado para agricultura sustentada e o desenvolvimento rural, e o último se ocupando da proteção da qualidade das fontes de águas de abastecimento.

Então, dá para ver que o re-uso está disseminado na agenda ambiental. Mas, de fato, pouco se o percebe, pois que não traz consigo a promoção da grande obra. O re-uso é como que uma pequena grande idéia, ou seja, uma prática de baixo custo - e aí é pequena - porém de grande alcance social e econômico, aí fica grande.

No Brasil, o reúso é ainda uma prática incipiente
A indústria tem muito a fazer, pode recircular a água internamente ou pode
usar o efluente no re-uso para fins agrícolas

FMA - A experiência internacional sobre o re-uso da água para a agricultura é muito rica?
Garrido -
Ah, é sim. Em verdade, o uso de efluentes urbanos na agricultura é milenar, atual e, mais do que nunca, futurístico. Na China e em algumas partes da Ásia, se pratica o re-uso desde a antigüidade. Os registros de literatura técnica mais antigos que se conhecem dão conta que na Alemanha, à volta de 1531 já se fazia uso de águas residuárias domésticas para agricultura. Na Escócia, a prática começou em 1650. No século 19, o re-uso para irrigação era rotineiro em Paris e arredores, Berlim, Melbourne, Londres e Manchester.

Nos primeiros anos do século 20 iniciou-se a implantação de um Distrito de Irrigação com águas residuárias da cidade do México para o Vale do Mezquital. Esse projeto foi sendo paulatinamente ampliado, tendo se estabilizado em torno de 42 mil hectares de terras umedecidas com esgotos, já na segunda metade do século.

No Chile, o esgoto de Santiago é utilizado para irrigar culturas agrícolas. Cerca de 80% desses esgotos são coletados em canais de drenagem a céu aberto e conduzidos à Estação de La Farfana, da empresa Emos, estatal. Essas águas residuárias, depois de tratadas, são distribuídas pelas lavouras dos arredores da capital, notadamente aquelas localizadas na comuna de Maipu. Os efluentes tratados contribuem para formar riqueza, através da produção de pêra, uvas, couve-flor, brócolis, cebola e acelga. Práticas assemelhadas são observadas no litoral, nas cercanias de Viña del Mar.

FMA - Vamos voltar ao Brasil, como está a aplicação do re-uso aqui?
Garrido -
Muito incipiente. As práticas se apresentam em poucos casos isolados. A verdade é que o re-uso da água para fins agrícolas é pouco difundido no Brasil. A Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, colocando em prática a orientação do então ministro Sarney Filho, procurou sistematizar as preocupações para com o tema. Alguns estados nordestinos, pela exclusiva iniciativa de pesquisadores de universidades locais, começam apenas a estudar a questão. Isto aconteceu, por exemplo, no Vale do Seridó, Rio Grande do Norte, para a irrigação de capineiras nas vizinhanças das áreas urbanas de Santa Cruz, Caicó, Currais Novos, Eduardo Gomes e outros municípios. Iniciativas com a mesma orientação vêm sendo desenvolvidas pela Universidade Federal de Campina Grande.

No Sul e Sudeste constatam-se práticas interessantes em usinas sucro-alcooleiras, cujo subproduto vinhaça substitui, em grande medida, os fertilizantes básicos, NPK. A aplicação da vinhaça é feita por adutoras e canais, utilizando-se uma média anual de 400m3 por hectare por ano. Outras experiências podem ser monitoradas com o esterco de suínos, no caso do oeste catarinense. O esterco, se adequadamente dosado, pode substituir com vantagem a adubação.

FMA - Então vamos ao caso dos efluentes. E a re-circulação da água na indústria?
Garrido -
Bem. Vale dizer que a indústria tanto recircula a água internamente quanto pode participar com o seu efluente, quando adequado, no re-uso para fins agrícolas. No primeiro caso, os avanços são bastante significativos, pois a água é economizada de todas as formas. Na França, por exemplo, o volume de água que era utilizado no processo de cervejarias, de 2 m3 de água por hectolitro de cerveja, foi reduzido para 0,6 m3/hl. Ainda na França, o setor siderúrgico melhorou consideravelmente seu desempenho em relação à utilização de água, reduzindo 65 vezes a vazão utilizada.

A indústria de papel-cartão, por meio de reciclagens em seqüência, conseguiu reduzir o volume de água utilizado, de entre 15 e 20 metros cúbicos por tonelada de papel produzida para os atuais 5,5 m3/ton desse produto. Vale notar que cada metro cúbico que determinada fábrica deixa de utilizar em razão da prática do re-uso, significa um metro cúbico que sobra para outros usuários da bacia ou do aqüífero. Portanto, praticar o re-uso da água equivale a produzir externalidades positivas. E o prêmio por essa atitude é pagar menos pelo uso da água. Por aí se vêem as belezas do Sistema Nacional de Gestão de Recursos Hídricos, que oferece mecanismos de estímulo e desestímulo para o que é bom e para o que deixa de ser, respectivamente.

A reutilização da água em Israel
O Brasil não pode mais conviver com empresários como os de Toritama (PE)
onde as lavanderias e tinturarias de jeens poluem o rio Capibaribe

FMA - E no caso de indústrias de pequeno porte?
Garrido -
Em um expressivo número de indústrias de menor porte como a lavagem de lãs, onde se utilizava 15 m3 de água por tonelada de lã bruta, atualmente esse índice está ao redor de 0,3 m3/ton. Em tinturarias têxteis, usa-se cinco vezes menos água de processo hoje do que há uns quinze anos. Mas é preciso avançar rápido.

Eu vi a matéria que vocês fizeram na Folha do Meio sobre as tinturarias de jeens e lavanderias do município de Toritama, em Pernambuco, que poluem o rio Capibaribe, porque os empresários se recusam a tratar os efluentes. O Brasil não pode mais conviver com isso. Essa água tem que passar pelo o re-uso de alguma forma até para salvar o rio Capibaribe.

FMA - Há outras formas de se usar os efluentes na agricultura?
Garrido -
Muitas. No que se refere à utilização das águas residuárias industriais na agricultura, são inúmeras as possibilidades ainda a explorar aqui no Brasil. Por exemplo, no fabrico de laticínios, do qual resulta o soro, que carrega elevada carga orgânica, pode-se dar a destinação desse efluente à agricultura, aliviando sobremaneira a degradação dos cursos d'água. A carga elevada do soro é resultado de substâncias orgânicas às quais está associado, como o leite, gorduras, proteínas e carboidratos. Além disso, em laticínios, o efluente líquido que retorna ao meio natural equivale em volume a cerca de 85% da água que é utilizada. Há, ainda, o bagaço de malte, cujo pó pode ser reutilizado para alimentar o gado, deixando um lodo como resíduo. Esse lodo é destinado à adubação dos solos. Aí, está, uma vez mais, o re-uso agrícola de água industrial.

FMA - E os aspectos legais e institucionais do re-uso aqui no Brasil?
Garrido -
Já falei desse aspecto anteriormente. O re-uso foi objeto de estudos e propostas no âmbito da SRH, durante a gestão Sarney Filho. Das pesquisas realizadas, resultou o esboço de várias propostas que foram encaminhadas ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos, que discute a possibilidade de serem formuladas propostas diversas, as quais deverão fazer parte de um programa que se pretende seja lançado ainda este ano. O objetivo central do programa é dar conseqüência à sistematização das práticas de re-uso no Brasil, tal como concebido no início dos trabalhos.

É interessante observar que o entusiasmo dos técnicos está tão à flor da pele que se cogitou de encaminhar-se ao plenário do CNRH a discussão sobre a possibilidade de um Projeto de Lei somente para re-uso da água. Evidentemente que não há necessidade de se chegar a tanto. O re-uso constitui, em verdade, uma prática já consagrada no contexto da gestão hídrica nas experiências de muitos outros países. E, como tal, bem pode ser agasalhado na legislação brasileira já existente, com pequenas alterações de texto.

FMA - E existe também o reúso de águas subterrâneas?
Garrido -
Em primeiro lugar, qualquer quantidade de água é passível de ser submetida ao re-uso ou re-circulação. No caso dos mananciais subterrâneos, há uma particularidade que merece comentário. Trata-se da "fabricação de águas subterrâneas". É curiosa a expressão, mas exprime uma tecnologia muito interessante, pouco difundida e ainda não utilizada concretamente no Brasil. Refiro-me ao processo de recarga de aqüíferos, pelo qual águas de precipitação ou de drenagens quaisquer são artificialmente armazenadas no sub-solo, para, tempos depois, serem bombeadas e utilizadas.

Há inúmeros casos de recarga de aqüífero em que a água, antes de ser "injetada" no sub-solo, já foi utilizada uma vez e, nesses casos, após o bombeio, o que se está fazendo é um re-uso dessa água. Há inúmeras vantagens na prática da recarga. A primeira é a de eliminar ou atenuar grandemente as possibilidades de evaporação, um "defeito" dos reservatórios superficiais. Em segundo lugar, mas não menos importante, a água de recarga passa por um tratamento natural, a custo zero e de melhor qualidade do que o tratamento em plantas potabilizadoras, sendo naturalmente purificada, graças aos processos de filtração e bio-geoquímicos de depuração que ocorrem no sub-solo em geral, e na zona não saturada, em particular.

FMA - Parece que essa experiência já vem sendo feita em Israel onde até guardam água no sub-solo para depois rebombear para o rio Jordão...
Garrido -
De fato, em Israel, aduz-se água do mar da Galiléia (rio Jordão), até Tel Aviv. Essa adutora é colorida de verde e conduz água de boa qualidade. Ao chegar a Tel Aviv, a água é potabilizada e distribuída. Depois de utilizada pela população, essa água tem seus rejeitos tratados e, depois, injetados em um aqüífero, onde continuam se purificando.

Mais tarde, na medida em que tais rejeitos vão chegando a uma certa profundidade, são bombeados e uma adução inversa é feita em direção ao mar da Galiléia. A tubulação de retorno é colorida de vermelho. A água da tubulação verde é mais cara do que a da adutora pintada de vermelho, e portanto usada, ao longo do trajeto, para fins mais nobres. Tal sistema, associado a práticas racionais de uso dos recursos hídricos, tem feito com que Israel conviva, sem o estresse hídrico que se imagina, com uma disponibilidade de 400 metros cúbicos por habitante por ano. Note-se que as Nações Unidas consideram que este índice, quando chega ao patamar de 1000 m3/hab.ano, e daí para baixo, o país ou região ingressa no estágio crítico de desconforto hídrico.

Considera a ONU que, abaixo deste índice, as enfermidades de veiculação hídrica podem se espalhar rapidamente, os episódios de falta de água começam a se multiplicar, e outras conseqüências adversas mais se apresentam. A ONU está sendo, portanto, desafiada por Israel, também nesta questão da água.

FMA - Existe alguma experiência brasileira de re-uso em área urbana, nas casas normais de uma cidade?
Garrido -
Experiência concretamente disseminada, não. Há algumas experiências-piloto, notadamente em São Paulo, mas que ainda não ingressaram em um estágio de prática corrente que se possa dizer que a era do re-uso urbano, no Brasil, já terá se instalado.

Mas, de alguns anos para cá, as estações de tratamento de esgotos da Sabesp, especialmente Barueri, passaram a oferecer efluente tratado para indústrias que pretendessem comprá-los, a um preço bem inferior ao da água, para substituir esta em usos pouco exigentes no que se refere à qualidade.
O e-mail para contato de Raymundo garrido é: rgarrido@ufba.br

 

Ponto de Vista

O reuso de água em Brasília-DF

Fernando Leite (*)


O reúso de água, até bem pouco tempo, era uma questão que ainda não tinha sido levada a sério. Mas, com a crescente escassez de água no planeta, o assunto passou a assumir características estratégicas. A água de re-uso é proveniente do processo de tratamento de esgotos e pode ser reaproveitada para fins não-potáveis.

Na última década, as indústrias dos Estados Unidos, Japão e Alemanha, aumentaram a sua produtividade e reduziram o consumo de água. Parece contraditório, mas não é, porque esses países estão se utilizando de programas consistentes de re-uso de água.

No Japão, foram alteradas as normas da construção civil, visando a reutilização da água. Lá, os condomínios, hotéis e hospitais passaram a ser construídos com sistemas diferentes visando o reaproveitamento de águas servidas. A água que sai pelo ralo do boxe ou da banheira segue por encanamentos independentes para abastecer os vasos sanitários do edifício. Só então ela vira esgoto e se receber tratamento adequado, pode ser reutilizada em processos industriais ou na irrigação.

Os moradores do DF ainda não se aperceberam, mas a Caesb já vem fazendo o re-uso de água no Lago Paranoá. Toda a água que as estações de tratamento de esgotos Sul e Norte devolvem ao Paranoá, que atendem mais de 500 mil pessoas, é tratada com um grau de pureza próximo a 100%. É uma água livre de organismos patogênicos. Por isso, o Paranoá, antes totalmente poluído, transformou-se em local para lazer e esportes, tais como natação, vela e pesca, tanto esportiva como profissional, para mais de 100 famílias que dependem dele para a sua subsistência. Evidente que estamos trabalhando para que Brasília tenha o melhor. Mas a realidade do Brasil é diferente.

Enquanto em Brasília e São Paulo falamos de re-uso, imagina que o Brasil convive com 75 milhões de pessoas sem esgoto sanitário; 20 milhões não possuem água encanada; 60 milhões não possuem coleta de lixo e 63% do lixo são lançados em cursos de água e os outros 34% lançados a céu aberto. Esse é um assunto para ser levado a sério, pois há muito o que fazer.

(*) Fernando Leite é presidente da Caesb - Cia. de Saneamento do DF

GLOSSÁRIO

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