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Recursos Hídricos reúso Reúso da água - Entrevista RAYMUNDO GARRIDO A reutilização da água é uma medida de gestão dos recursos hídricos, que vem ganhando cada vez mais espaço no seio de sociedades ricas e pobres Silvestre Gorgulho 01 de Setembro de 2003 A Terra tem mais de seis bilhões de habitantes. É muita gente para explorar, produzir, consumir, usar, descartar e abusar dos recursos naturais. Desde meados do século 18, com a revolução industrial, a produção, o consumo e o descarte vêm crescendo geometricamente. E, para tudo, para produzir um simples parafuso, uma roupa, um grão de trigo ou chip de computador há um recurso natural indispensável: a água. Viver sem a água não é possível. Ela está presente no copo para beber, na comida para cozinhar, na agricultura para irrigar e na indústria para produzir. Então a água é um bem econômico e, pior, não é infinita. O que fazer? Simples: chegou a hora de não desperdiçar e, mais ainda, de reutilizar. O reúso da água é uma medida de gestão dos recursos hídricos que vem ganhando cada vez mais espaço no seio de sociedades, ricas e pobres, em várias regiões do planeta. Com muitos países enfrentando episódios de secas severas ou escassez de água de variados graus, o reúso da água para irrigação, no meio urbano e a recirculação da água de processo industrial vem ganhando terreno entre as práticas de conservação do meio natural. Quanto mais desenvolvido for o país e quanto menores vierem a ser as suas disponibilidades de água, tanto maiores são as possibilidades de se praticar o reúso. O re-uso pode ser praticado, principalmente, nos setores usuários do abastecimento d'água, da indústria e mesmo da agricultura irrigada. Sim, da agricultura irrigada, fazendo uso de águas provenientes do abastecimento urbano. No caso específico da indústria, prefere-se utilizar o termo "re-circulação da água". Se toda a água potável da cidade de São Paulo e sua região metropolitana fosse re-utilizada uma vez, a demanda por água bruta dessa região cairia de 55 para 28 metros cúbicos por segundo, mantido o índice de perda atual, que ainda é alto. E, neste caso, se as águas do Tietê, nesse tramo do rio, não estivessem tão "emporcalhadas" daria para contribuir com pelo menos uns 11 metros cúbicos por segundo e talvez nem existisse rodízio de abastecimento de água na capital paulista. O tema do re-uso remete à questão da educação ambiental e propõe importantes mudanças nos hábitos caseiros. Essas mudanças precisam ser mais difundidas para provocar uma economia ainda maior de água. Não é demais lembrar que o Brasil é rico em água, mas esse recurso está concentrado na Amazônia onde vivem apenas 7% da população brasileira. Portanto, o re-uso se impõe em muitas situações encontradas em outras partes do País. A conversa sobre o re-uso da água é mais uma da série que fazemos com o professor Raymundo Garrido, da Universidade Federal da Bahia e ex-secretário Nacional de Recursos Hídricos ![]()
Folha do Meio - Reusar a água todo mundo sabe o que é. Mas funciona mesmo? Tem viabilidade? No Japão, as águas servidas passam por tratamentos terciários avançados e são utilizadas nas caixas de descarga das casas, apartamentos e edifícios públicos e comerciais. O desenvolvimento de sistema duplo de abastecimento de água vem crescendo pouco a pouco em inúmeros países. FMA - Quer dizer, um abastecimento com água potável e outra com a água usada? FMA - E que medidas devem ser adotadas para o re-uso da água doméstica? Neste último caso estaria a água de descargas, que pode advir dos lavatórios e pias, desde que não impregnadas de gordura. Para se conseguir isto, quando não existe o sistema dual referido anteriormente na própria rede urbana, aí são necessárias medidas de "hardware", como a instalação de kits em residências, que façam drenar as águas dos lavatórios para as caixas de descarga. Além disso, as companhias de saneamento poderiam, também, estudar meios de entregar à unidade consumidora duas "penas" d'água, uma tratada e outra bruta, com preços diferenciados. Todo esse conjunto de medidas constituiria o "hardware", que, evidentemente, não é de fácil implementação, mas também não é nada impossível. O uso de torneiras inteligentes também contribui, em muito, para se poupar água. Já são largamente utilizadas em banheiros de aeroportos, shopping-centers e outros edifícios de uso coletivo. Hoje já são adotadas em muitas residências.
As águas de classe 2, que são águas utilizadas na a irrigação de hortaliças e frutas, ou de classe 3, que são águas utilizadas para, entre outros fins, a irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras, podem ser substituídas por esgotos tratados, o que faz com que as águas de boa qualidade permanesçam disponíveis nos mananciais para o abastecimento público FMA - E as medidas de software? FM - Fala-se muito sobre o re-uso agrícola da água... A experiência mostra que o re-uso da água para a agricultura, em países mais desenvolvidos, tem provocado uma série de conclusões favoráveis a essa prática. Entre essas vantagens, destacam-se os efeitos ambientais positivos, ao evitar-se a poluição dos cursos d'água, o que ocorreria caso os esgotos fossem lançados aos rios sem o devido tratamento. Aliás uma prática comum em muitos países quando não há recursos para as obras e empreendimentos de infra-estrutura. Nesse caso, a eutrofização, a formação de espumas, a redução dos níveis de oxigênio dissolvido e a dizimação de comunidades aquáticas formam um conjunto de problemas que são eliminados ou reduzidos. FMA - E tem outras vantagens? O uso de esgotos tratados traz consigo, também, a vantagem de reduzir a demanda por fertilizantes para a terra, pois os esgotos contêm nitrogênio, fósforo e potássio (N,P,K), que, de outra maneira teriam que ser aprovisionados por meio dos fertilizantes sintéticos. Pode-se contabilizar, portanto, a favor do re-uso agrícola, a economia que se observa, ainda que indiretamente, na energia e trabalho para aplicação dos fertilizantes. E tem mais. O re-uso contribui para a melhoria das condições do solo sob o ponto de vista agrícola, uma vez que o esgoto tratado carreia matéria orgânica, que funciona, ao longo do tempo, como condicionador do solo, aumentando a capacidade deste em reter água e aumentando também a concentração do húmus, o que enseja uma melhor conservação, antecipando-se ao fenômeno da erosão. Por fim, pode-se creditar ao re-uso a recuperação de desertos e o controle da desertificação através da irrigação e fertilização de cinturões verdes. E o re-uso permite, ainda, a implementação de amenidades urbanas através da irrigação e fertilização de áreas verdes. São os parques, jardins e áreas esportivas que contribuem para a humanização das cidades. FMA - Uma curiosidade: por que não se vê, claramente, o re-uso na agenda ambiental? Acrescentam-se outros segmentos da Agenda 21 que, direta ou indiretamente, estão relacionados com o re-uso. O Capítulo 6, por exemplo, que trata da Promoção da Saúde, prevê temas como o controle de doenças transmissíveis, a proteção de grupos vulneráveis e a redução de riscos à saúde provocados por poluição e perigos ambientais, todos relacionados com questão do re-uso. Também o Capítulo 12, voltado para a Gestão de Ecossistemas Frágeis, incorpora duas áreas programáticas que se beneficiam de práticas adequadas de re-uso da água: o combate à degradação do solo por meio da intensificação da conservação e atividades de reflorestamento, como também e a implementação de programas de antidesertificação, integrando-os aos planos nacionais de desenvolvimento e de planejamento ambiental. E não podemos esquecer os Capítulos 14 e 18, o primeiro voltado para agricultura sustentada e o desenvolvimento rural, e o último se ocupando da proteção da qualidade das fontes de águas de abastecimento. Então, dá para ver que o re-uso está disseminado na agenda ambiental. Mas, de fato, pouco se o percebe, pois que não traz consigo a promoção da grande obra. O re-uso é como que uma pequena grande idéia, ou seja, uma prática de baixo custo - e aí é pequena - porém de grande alcance social e econômico, aí fica grande. No Brasil, o reúso é ainda uma prática incipiente FMA - A experiência internacional sobre o re-uso da água para a agricultura é muito rica? Nos primeiros anos do século 20 iniciou-se a implantação de um Distrito de Irrigação com águas residuárias da cidade do México para o Vale do Mezquital. Esse projeto foi sendo paulatinamente ampliado, tendo se estabilizado em torno de 42 mil hectares de terras umedecidas com esgotos, já na segunda metade do século. No Chile, o esgoto de Santiago é utilizado para irrigar culturas agrícolas. Cerca de 80% desses esgotos são coletados em canais de drenagem a céu aberto e conduzidos à Estação de La Farfana, da empresa Emos, estatal. Essas águas residuárias, depois de tratadas, são distribuídas pelas lavouras dos arredores da capital, notadamente aquelas localizadas na comuna de Maipu. Os efluentes tratados contribuem para formar riqueza, através da produção de pêra, uvas, couve-flor, brócolis, cebola e acelga. Práticas assemelhadas são observadas no litoral, nas cercanias de Viña del Mar. FMA - Vamos voltar ao Brasil, como está a aplicação do re-uso aqui? No Sul e Sudeste constatam-se práticas interessantes em usinas sucro-alcooleiras, cujo subproduto vinhaça substitui, em grande medida, os fertilizantes básicos, NPK. A aplicação da vinhaça é feita por adutoras e canais, utilizando-se uma média anual de 400m3 por hectare por ano. Outras experiências podem ser monitoradas com o esterco de suínos, no caso do oeste catarinense. O esterco, se adequadamente dosado, pode substituir com vantagem a adubação. FMA - Então vamos ao caso dos efluentes. E a re-circulação da água na indústria? A indústria de papel-cartão, por meio de reciclagens em seqüência, conseguiu reduzir o volume de água utilizado, de entre 15 e 20 metros cúbicos por tonelada de papel produzida para os atuais 5,5 m3/ton desse produto. Vale notar que cada metro cúbico que determinada fábrica deixa de utilizar em razão da prática do re-uso, significa um metro cúbico que sobra para outros usuários da bacia ou do aqüífero. Portanto, praticar o re-uso da água equivale a produzir externalidades positivas. E o prêmio por essa atitude é pagar menos pelo uso da água. Por aí se vêem as belezas do Sistema Nacional de Gestão de Recursos Hídricos, que oferece mecanismos de estímulo e desestímulo para o que é bom e para o que deixa de ser, respectivamente. A reutilização da água em Israel FMA - E no caso de indústrias de pequeno porte? Eu vi a matéria que vocês fizeram na Folha do Meio sobre as tinturarias de jeens e lavanderias do município de Toritama, em Pernambuco, que poluem o rio Capibaribe, porque os empresários se recusam a tratar os efluentes. O Brasil não pode mais conviver com isso. Essa água tem que passar pelo o re-uso de alguma forma até para salvar o rio Capibaribe. FMA - Há outras formas de se usar os efluentes na agricultura? FMA - E os aspectos legais e institucionais do re-uso aqui no Brasil? É interessante observar que o entusiasmo dos técnicos está tão à flor da pele que se cogitou de encaminhar-se ao plenário do CNRH a discussão sobre a possibilidade de um Projeto de Lei somente para re-uso da água. Evidentemente que não há necessidade de se chegar a tanto. O re-uso constitui, em verdade, uma prática já consagrada no contexto da gestão hídrica nas experiências de muitos outros países. E, como tal, bem pode ser agasalhado na legislação brasileira já existente, com pequenas alterações de texto. FMA - E existe também o reúso de águas subterrâneas? Há inúmeros casos de recarga de aqüífero em que a água, antes de ser "injetada" no sub-solo, já foi utilizada uma vez e, nesses casos, após o bombeio, o que se está fazendo é um re-uso dessa água. Há inúmeras vantagens na prática da recarga. A primeira é a de eliminar ou atenuar grandemente as possibilidades de evaporação, um "defeito" dos reservatórios superficiais. Em segundo lugar, mas não menos importante, a água de recarga passa por um tratamento natural, a custo zero e de melhor qualidade do que o tratamento em plantas potabilizadoras, sendo naturalmente purificada, graças aos processos de filtração e bio-geoquímicos de depuração que ocorrem no sub-solo em geral, e na zona não saturada, em particular. FMA - Parece que essa experiência já vem sendo feita em Israel onde até guardam água no sub-solo para depois rebombear para o rio Jordão... Mais tarde, na medida em que tais rejeitos vão chegando a uma certa profundidade, são bombeados e uma adução inversa é feita em direção ao mar da Galiléia. A tubulação de retorno é colorida de vermelho. A água da tubulação verde é mais cara do que a da adutora pintada de vermelho, e portanto usada, ao longo do trajeto, para fins mais nobres. Tal sistema, associado a práticas racionais de uso dos recursos hídricos, tem feito com que Israel conviva, sem o estresse hídrico que se imagina, com uma disponibilidade de 400 metros cúbicos por habitante por ano. Note-se que as Nações Unidas consideram que este índice, quando chega ao patamar de 1000 m3/hab.ano, e daí para baixo, o país ou região ingressa no estágio crítico de desconforto hídrico. Considera a ONU que, abaixo deste índice, as enfermidades de veiculação hídrica podem se espalhar rapidamente, os episódios de falta de água começam a se multiplicar, e outras conseqüências adversas mais se apresentam. A ONU está sendo, portanto, desafiada por Israel, também nesta questão da água. FMA - Existe alguma experiência brasileira de re-uso em área urbana, nas casas normais de uma cidade? Mas, de alguns anos para cá, as estações de tratamento de esgotos da Sabesp, especialmente Barueri, passaram a oferecer efluente tratado para indústrias que pretendessem comprá-los, a um preço bem inferior ao da água, para substituir esta em usos pouco exigentes no que se refere à qualidade.
Ponto de Vista O reuso de água em Brasília-DF Fernando Leite (*)
Na última década, as indústrias dos Estados Unidos, Japão e Alemanha, aumentaram a sua produtividade e reduziram o consumo de água. Parece contraditório, mas não é, porque esses países estão se utilizando de programas consistentes de re-uso de água. No Japão, foram alteradas as normas da construção civil, visando a reutilização da água. Lá, os condomínios, hotéis e hospitais passaram a ser construídos com sistemas diferentes visando o reaproveitamento de águas servidas. A água que sai pelo ralo do boxe ou da banheira segue por encanamentos independentes para abastecer os vasos sanitários do edifício. Só então ela vira esgoto e se receber tratamento adequado, pode ser reutilizada em processos industriais ou na irrigação. Os moradores do DF ainda não se aperceberam, mas a Caesb já vem fazendo o re-uso de água no Lago Paranoá. Toda a água que as estações de tratamento de esgotos Sul e Norte devolvem ao Paranoá, que atendem mais de 500 mil pessoas, é tratada com um grau de pureza próximo a 100%. É uma água livre de organismos patogênicos. Por isso, o Paranoá, antes totalmente poluído, transformou-se em local para lazer e esportes, tais como natação, vela e pesca, tanto esportiva como profissional, para mais de 100 famílias que dependem dele para a sua subsistência. Evidente que estamos trabalhando para que Brasília tenha o melhor. Mas a realidade do Brasil é diferente. Enquanto em Brasília e São Paulo falamos de re-uso, imagina que o Brasil convive com 75 milhões de pessoas sem esgoto sanitário; 20 milhões não possuem água encanada; 60 milhões não possuem coleta de lixo e 63% do lixo são lançados em cursos de água e os outros 34% lançados a céu aberto. Esse é um assunto para ser levado a sério, pois há muito o que fazer. (*) Fernando Leite é presidente da Caesb - Cia. de Saneamento do DF
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