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Waimiri Atroari Bênção na Selva: Waimiri Atroari mil Com o nascimento do 1000º indiozinho, o povo guerreiro está salvo da extinção Silvestre Gorgulho 20 de Outubro de 2003 Os Waimiri Atroari devem estar dançando até hoje em comemoração ao nascimento do indiozinho de número 1.000. E eles tem razão. Afinal assistir ao processo de extinção de sua nação, ver seu povo morrer às margens da rodovia BR 174, perder quase totalmente sua identidade e agora poder comemorar o nascimento do milésimo descendente é uma dádiva para poucos privilegiados. E os Waimiri Atroari podem se considerar privilegiados, sobretudo quando comparada sua condição de vida com muitos outros povos indígenas. ![]() Poucos conhecem a história desses bravos guerreiros. Os Waimiri Atroari, durante muito tempo, estiveram presentes no imaginário do povo brasileiro como um povo guerreiro, que enfrentava e matava a todos que tentavam entrar em seu território. Essa imagem contribuiu para que autoridades governamentais transferissem a incumbência das obras da rodovia BR 174 (Manaus-Boa Vista) ao Exército, que usou de forças militares para conter os indígenas. Esse enfrentamento culminou na quase extinção do povo Kinja (autodenominação Waimiri Atroari). A interferência em suas terras ainda foi agravada devido a instalação de uma empresa mineradora e o alagamento de parte de seu território pela construção da hidrelétrica de Balbina. Mas os Waimiri Atroari enfrentaram a situação, negociaram com os brancos e hoje têm assegurados os limites de sua terra, o vigor de sua cultura e o crescimento de sua gente. Quase extintos Dados censitários, no final do século 19 e início do 20, estimaram que a população Waimiri Atroari era de 2.000 e 6.000 pessoas respectivamente. Na década de 1970 a estimativa da Funai era de 500 a 1.000 pessoas. No entanto, todos esses dados eram baseados em estimativas e não em um censo aplicado. O fato é que, devido ao seu processo histórico, os Waimiri Atroari sofreram uma baixa por causa das guerras e doenças introduzidas, chegando a população a 374 em 1988. Atualmente, essa população é de exatas 1.000 pessoas, divididas em 19 grupos locais que compõe os três aglomerados. Em 1987, um projeto de mitigação aos impactos ambientais causados pela Usina Hidrelétrica de Balbina (UHE Balbina) foi elaborado e proposto aos Waimiri Atroari, a Eletronorte e a Funai. Tratava-se do Programa Waimiri Atroari, que previa ações nas áreas de saúde, educação, meio ambiente, apoio à produção, vigilância dos limites, documentação e memória. Aceita a proposta pelas partes interessadas, foi firmado um acordo entre as instituições Funai e Eletronorte, sendo a primeira executora e a segunda financiadora do projeto. A partir desse convênio, a área foi demarcada, com uma superfície de 2.585.911 hectares e homologada em 1989. Educação diferenciada A melhoria na qualidade de vida pode ser observada no cotidiano dos Kinja. Eles têm mais tempo para se dedicar às atividades socioeconômicas-culturais e no aumento da natalidade, que pode ser expressa pela quantidade de meninos a serem iniciados nos maryba, mais freqüentes e imprescindíveis na agenda cultural dos Waimiri Atroari. ERA UMA VEZ ...
Era uma vez... Esses grupos habitavam tanto o fundo do rio, pois eram parentes do Xiriminja (entidade mitológica que mora nas águas), como na terra firme. Foi a filha dos Iky quem deu o pênis para Kinja emymy (kinja sem pênis) e a partir daí teria começado uma das histórias sobre a origem desse povo. Os Waimiri Atroari se denominam kinja (gente verdadeira) em oposição a kaminja (não indígena), makyma (canhoto) e a irikwa (morto-vivo). O nome Waimiri Atroari, como são conhecidos hoje, data do início do século 20, na época do Serviço de Proteção aos Índios. No entanto essa denominação composta representa somente um povo: o povo kinja. Segundo o povo Kinja (autodenominação Waimiri Atroari), antigamente todos os seres mitológicos e animais que habitavam a Terra eram gente e viviam no meio de Kinja. Um dia "choveu" muita pedra e todos pensaram que o mundo iria acabar, no entanto havia uma casa cujo esteio central era de piria (pau d'arco), madeira muito dura que agüentou as pancadas das pedras. Nessa maloca moravam várias famílias e a partir delas surgiram os ascendentes dos atuais Waimiri Atroari. Sua gênese é portanto assinalada pelo marco antes e depois da "chuva" de pedras. Atualmente dizem que são descendentes desse povo que sobreviveu protegido pelo piria dentro da maloca. Gente do Meio O milésimo gol do Porfírio Carvalho
Silvestre Gorgulho, de Brasília É bom lembrar que esta nação indígena está situada entre os estados do Amazonas e Roraima. Os Waimiri Atroari sempre foram guerreiros bonitos e determinados. Mas a colonização branca provocou uma tragédia. Desde o primeiro contato com o homem branco, as cerimônias e cânticos de fé dos Waimiri Atroari foram dando lugar aos lamentos e pedidos de socorro: a fome substituiu a fauna, a subnutrição tomou conta da tribo e vieram o alcoolismo, suicídios e os terríveis massacres. Em 1986, eles eram menos de 300 e mendigavam famintos e doentes, às margens da BR-174. Da cultura restou a lembrança. De caçador, o índio se transformou em presa fácil. Até que um dia, em 1988, apareceu um anjo artilheiro que resolveu jogar no time dos Waimiri Atroari. Era o indigenista Porfírio Carvalho, baiano, na época com 45 anos. Bom de bola, de negociação e corajoso na área dos adversários, Porfírio começou conseguindo um bom patrocinador para o time: a Eletronorte. No primeiro tempo, Porfírio organizou um jogo de confiança, reconhecimento do terreno e de planejamento. No segundo tempo foram atividades voltadas para a educação, saúde, defesa do território, agricultura e tradições culturais. O resultado não podia ser outro: vitória de goleada que possibilitou o resgate da existência, da cultura e da auto-estima dos índios tantas vezes ameaçadas pelo homem branco. Aí as coisas começaram a mudar. A verdade é que os Waimiri Atroari vêm colhendo os frutos das sementes plantadas por um programa desenvolvido pela Eletronorte e Funai desde a construção da Usina Hidrelétrica Balbina. Agora vem o milésimo gol de Porfírio Carvalho: os Waimiri Atroari estão comemorando o nascimento do milésimo descendente. Após o gol, ainda no gramado, o artilheiro Porfírio não teve como fugir do microfone de um jornalista: "O nascimento do milésimo Waimiri Atroari é realmente um marco na história daquele povo. E também na minha vida. Imagina, em 1986 eu reencontrei aqueles índios doentes, morrendo, perambulando pela estrada. Um contato difícil, pois parecia, até, que eu estava contra eles, porque era a estrada, era a mineração, era Balbina... Pensei comigo: será que a história não muda? Fui em frente... Vou tentar convencer a Eletronorte a assumir um programa de vida para este povo. Vou sim. Vou procurar alianças, vou procurar ajuda de todos, mas vou tentar salvar este povo. E, sonhando, iniciei o trabalho. Tive e tenho até hoje muitas dificuldades, incompreensões, discriminação, perseguições, mas também tive muito apoio, amizade e respeito... Devo muitos agradecimentos. Devo a muitos a vida de um povo, devo a vida dos 1000 Waimiri Atroari. E eu quero agradecer sempre... Agradecer a todos que me ajudaram e ainda têm me ajudado a levar adiante este trabalho". Cartolas, técnicos, jogadores e torcedores fanáticos deste jogo pela vida, não dá como não se emocionar. E aqui das arquibancadas da Folha do Meio Ambiente, toda nossa equipe grita a todo pulmão o nome de Porfírio Carvalho pelo seu milésimo gol: Dá-lhe Porfírio! Valeu sua luta dentro e fora de campo. Seu milésimo gol merece o aplauso dos brancos, negros, amarelos e índios. Foi um gol de raça. A torcida brasileira agradece. voltar ao topo
summary Waimiri Atroari 1.000 The Waimiri Atroari must still be dancing in celebration of the birth of the 1000th member of the tribe, and well they should be. After watching the near extinction of their nation, on the edge of highway BR 174 and almost complete lost of their identity they can now commemorate the birth of their 1000th descendant which is the privilege of a very few. And the Waimiri Atroari certainly do consider themselves to be privileged above all when compared to the life of many other indigenous Brazilian peoples. There are few people who are aware of the history of these brave warriors. The Waimiri Atroari, for many years were thought by Brazilians to be a warrior nation, which had stood up to and killed off all of those who attempted to invade their lands. This image contributed toward the transfer, conducted by the government authorities, of the opening of highway BR 174 (Manaus-Boa Vista) to the Brazilian Army, who used repressive military means to repress the native Brazilians. This stand off resulted in the near extinction of the kinja people (self-proclaimed the waimiri atroari). Interference in their territory was exacerbated due to the installation of a mining company and the flooding of part of their lands for the construction of the Balbina hydroelectric plant. But the Waimiri Atroari held firm and negotiated with the whites to ensure the boundaries of their land and the strength of their culture as well as the growth of their people. The Waimiri Atroari land is located in the Brazilian Amazon region between the northern part of the state of Amazonas and the southern region of the state of Roraima. They inhabit an area along the left bank of the lower River Negro, in the basins of the Jauaperi and Camanaú Rivers and its tributaries the Alalaú, Curiaú, Pardo and Santo Antonio do Abonari rivers. Long ago this territory of the kinja itxiri (land of the Kinja), was much more extensive, including the Urubu, Uatumã and Anauá rivers as well. Existing data for the end of the 19th century and beginning of the 20th century estimated that the Waimiri Atroari population ranged from 2000 to 6000 people respectively. Toward the end of 1970, Funai data of 500 to 1000 people for this tribe were based on estimates and not on a controlled census. The fact is that due to its historical process the Waimiri Atroari suffered a decrease in population due to wars and diseases, which were introduced, causing the population to reach a low of 374 in 1988.
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desse esforço por uma melhor qualidade de vida. Como? Muito fácil. Folha do Meio Ambiente é uma publicação da Folha do Meio Ambiente Cultura Viva, Editora Ltda, SRTV Sul, Quadra 701,Edificio Multi Empresarial - Bloco O - CEP 70340-907 - Brasília-DF, Brasil – Fone: (61) 3322-3033, Fax (61) 3226-4438. © Copyright 2001 Folha do Meio Ambiente Cultura Viva, Editora Ltda. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha do Meio.
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