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Baía de Sepetiba Caso Ingá Mercantil: a herança maldita Obras emergenciais são concluídas no prazo mas rejeitos tóxicos da antiga indústria ainda ameaçam a Baía de Sepetiba Tetê Duche 04 de Janeiro de 2004 O governo do Estado concluiu as obras emergenciais na barragem de contenção dos diques contaminados da antiga indústria Ingá Mercantil , em Itaguaí. A informação é da Serla - Superintendência Estadual de Rios e Lagoas que, no prazo determinado pela juíza da 7a Vara Federal Salete Macaloz, elevou as bordas dos diques de contenção e do tanque-pulmão, contaminados por rejeitos tóxicos de zinco, cádmio e chumbo. Esses rejeitos tóxicos foram abandonados pela massa falida há mais de cinco anos. "Conseguimos evitar a ruptura dos diques mesmo com o risco das fortes chuvas do verão " disse o presidente da Serla, Ícaro Moreno Júnior reconhecendo que tanto o manguezal que desemboca no Porto de Sepetiba como o lençol freático naquele trecho da Ilha da Madeira, ainda merecem atenção especial. O engenheiro químico João Alfredo Medeiros, do Laboratório de Análise Ambiental e Mineral - LAM, do Centro de Tecnologia do COPPE/UFRJ, supervisionou as obras emergenciais. O Fundo Estadual de Conservação Ambiental - FECAM e Fundo Nacional de Meio Ambiente gastaram R$ 2,5 milhões para conter o avanço da poluição.
Uma falência de muitos passivos Antiga vizinha da Ingá Mercantil, a companhia Docas do Rio de Janeiro, tem interesse de comprar a área para uso retroportuário e armazenamento de containners. Mas ninguém quer assumir o passivo. Fonte da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico revela, também, que grupos de empresários, especialmente alemães, querem comprar a montanha de rejeitos de zinco, cádmio e chumbo para reprocessamento. "A reorganização logística do porto de Sepetiba, na Ilha da Madeira, passa pela recuperação da área privada da antiga Ingá", tem afirmado o presidente do BNDES, Carlos Lessa. "A Ingá Mercantil é um fantasma assustador. Só um mutirão de interessados - governos, empresários e indústria - financiará aquela área. O BNDES não fará nada sozinho", garantiu Lessa. Em julho do ano passado, todo o sucateado parque industrial da Ingá foi leiloado para pagar dívidas com ex- empregados. "Rendeu um pouco mais de dois milhões de reais", lamenta o síndico da massa falida, o procurador aposentado Nelson Ribeiro Filho, que obteve inclusive despacho do Juiz da 1ª Vara Civil de Itaguaí, Rafael de Oliveira Fonseca para transportar os rejeitos sólidos de zinco, cádmio e chumbo do local pela empresa Agroplanta, de Batatais, São Paulo. O início das obras emergenciais executadas pela SERLA e coordenadas pelo Ibama e pelo Ministério Público, interrompeu a remoção. A transferência dos rejeitos sólidos (C-130/Ingá) do local foi impedida já que a empresa Agroplanta não possuía nem estudo de impacto ambiental nem licença prévia concedida pela Feema - Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente para remover a montanha de três milhões de toneladas de zinco. Segundo o engenheiro químico do COPPE/UFRJ, João Alfredo Medeiros, os rejeitos da Ingá são classificados como perigoso classe 1, de acordo com as normas da ABNT e da Feema e não devem ser retirados ou transportados. Verdadeiramente, uma herança maldita. Rejeito Zero Não é de hoje que o Laboratório de Análise Ambiental e Mineral do COPPE/UFRJ estuda a planta industrial da Ingá Mercantil. De acordo com o engenheiro químico João Alfredo Medeiros, o imbroglio jurídico que se transformou o caso Ingá impede que bons projetos sejam financiados. "Acredito na geração de empregos com tecnologia limpa. Os estudos do COPPE /UFRJ garantem que 30% dos resíduos possam ser reutilizados na massa de tijolos ou telhas ecológicas", explica Medeiros. Em 1992, o LAM processou cerca de 30 toneladas de rejeitos da Estação de Tratamento de Águas do Rio Guandu em material cerâmico. O resultado foi parar na tese de Doutorado em Engenharia de Produção do ex-aluno de Medeiros, Carlos Eduardo da Silva Costa. "Lamento que o projeto Rejeito Zero não tenha tido financiamento", disse Carlos Eduardo. O engenheiro e sanitarista da CEDAE, Adriano Gama Alves, que conheceu a cerâmica produzida com os rejeitos da Ingá e mais o lodo do rio Guandu, foi categórico: "É indispensável que conceitos de gestão ambiental para o reúso da água sejam implantados. Temos que pensar na responsabilidade social que um projeto como o Rejeito Zero possa trazer às populações carentes da Baía de Sepetiba?, disse o sanitarista.
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