Educação e meio ambiente

Jardinagem como primeiro emprego

Rede Brasileira de Jardins Botânicos promove curso profissionalizante que ensina ética, cidadania, cálculo em paisagismo e noções de empreendedorismo

Lúcia Stela de Moura

Eliane Oliveira de Melo, 22 anos, mora dentro do Parque da Pedra Branca, protegido pelo Instituto Estadual de Florestas, há 20 anos, e situado em Camorim, no Rio de Janeiro. Seu pai é o responsável pela represa da área. Como os jovens de sua idade, ela sonha com a chance do primeiro emprego. Eliane leva uma vantagem: a consciência ecológica. Unindo sonho, vontade de realizar e respeito à natureza, ela respondeu prontamente à orientação do pessoal do parque para fazer um curso de capacitação profissional em jardinagem. Com o ensino médio completo - exigência do curso -, ela destacou, no dia da matrícula, o que esperava do curso e do futuro: "ter mais chances de trabalho, conseguir o primeiro emprego e talvez até trabalhar lá mesmo. Dividir o conhecimento com outros jovens. Encaro este curso como uma continuidade da minha vida". Após um mês de aulas, Eliane mantém sua proposta e vai muito além: "mudei minha expectativa, que era mais pessoal. Aprendi muito, com as plantas e com todos. Eu nem tinha intenção de continuar na área de Meio Ambiente. Agora vou fazer um curso superior, nesta área".João Anderson Miranda Peres, dois filhos, mora em Pedra de Guaratiba. Avalia o curso assim: "é a melhor oportunidade que já tive. Já trabalhava com jardins, mas como esforço físico e sem informação sobre as plantas. Teoria e prática fazem de mim, agora, um técnico em plantio e manutenção, com amplos conhecimentos em concepção de jardins". Com 29 anos, ele estava além do limite do curso, mas batalhou pela vaga. No dia da matrícula, mesmo sabendo que dificilmente teria chance, foi ao Riocentro. Como um dos aprovados desistiu do curso, porque arrumara um emprego, ele ficou com a vaga: "aquele dia foi um dos mais importantes na minha vida", lembra

Sérgio Bruni, ao lado, foi diretor do Jardim Botânico do Rio e hoje preside a Rede Brasileira de Jardins Botânicos: ?Pela
jardinagem resgatamos a cidadania e promovemos a inserção profissional?. Acima um grupo de alunos em trabalho de campo

O que une o sonho e a realidade destes dois jovens? O Curso de Capacitação Profissional em Jardinagem, uma iniciativa conjunta de algumas organizações para abrir o mercado de trabalho a jovens de 18 a 25 anos, de comunidades consideradas de risco social, e capacitá-los para atuar em uma área carente de profissionais com formação específica - a jardinagem. "Contribuir para o resgate da cidadania por meio da inserção profissional foi o que nos motivou a buscar as parcerias para realizar este curso", explica Sergio Bruni, seu idealizador, que preside, desde 1997, a Rede Brasileira de Jardins Botânicos. Bruni traz a experiência de dez anos na direção do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, alçado ao status de Instituto de Pesquisa, em sua gestão, e onde criou a primeira Escola de Botânica Tropical do Brasil, com cursos diversos e de pós-graduação e mestrado.
 Ele conta o início de tudo: "O curso resulta de pesquisas que fizemos com empresas de paisagismo e com profissionais de renome, nesta área. Constatamos a enorme carência de pessoal preparado para o trabalho com as plantas, o seu correto uso, meios de preparo e manutenção de solos, e outras questões. O curso irá suprir empresas de paisagismo, hortos, condomínios e outras organizações, com a mão de obra destes jovens, na maioria, em seu primeiro emprego, mas já capacitados e diplomados em jardinagem".
Para Bruni, o ponto alto do curso é o conteúdo curricular dos professores: "os professores são altamente especializados e temos até doutores, o que é pouco comum em um curso profissionalizante. O balanceamento entre aulas teóricas e a prática tem mantido o entusiasmo e o crescente interesse do grupo".
Daniela Cunha de Magalhães, engenheira agrônoma e supervisora do curso, conclui que é este espírito de equipe um dos resultados mais visíveis do curso: "os alunos chegaram pensando e trabalhando individualmente. Falavam ?eu vou?, ?eu pretendo?. Com o decorrer das aulas, o discurso mudou e só falam em ?nós?, o que significa que o espirito de cidadania também está plantado."
O engenheiro agrônomo André Bailes Tomiazzi, professor do curso, acredita que esta iniciativa pioneira tem todos os requisitos para desdobrar o curso com sucesso, assinalando como o mais importante deles o resgate da cidadania de jovens de comunidades consideradas de risco, capacitando-os ao mercado de trabalho. Há quatro anos trabalhando em empresas de paisagismo e jardinagem, no Rio de Janeiro, André constata não haver mão-de-obra qualificada para suprir a demanda de um mercado em plena expansão. Segundo ele, a própria prefeitura do Rio sinaliza, para os próximos anos, grandes investimentos em paisagismo e na criação e recuperação de áreas verdes da cidade. Ele dá aulas práticas de Propagação de Plantas Ornamentais, Plantio e Manutenção e Restauro de Jardins. "Seguramente, muitos dos nossos futuros jardineiros terminarão o curso já com seu primeiro emprego garantido, na área", destaca, justificando que a falta de mão de obra qualificada atinge não só as cerca de dez pequenas empresas privadas cariocas como também as de grande porte, como a Rizoma, Landscape e Maria Salcha, que detêm 50% do mercado carioca de jardinagem.

O curso das parcerias
Com a RBJB estão a Petrobras, a Fundação Xuxa e a Tramontina

Grátis e com aulas em tempo integral, o curso tem a duração de 45 dias. Os alunos recebem passagem, almoço e ajuda mensal. Do programa constam 18 disciplinas, a maioria nada comum nos cursos na área, como por exemplo: ética e cidadania, cálculo em paisagismo e noções de empreendedorismo - esta última, para possibilitar aos alunos, após a formatura, ter iniciativas para desenvolver seu próprio negócio. Para isso, eles ganharão um conjunto de ferramentas, doado pela Tramontina, uma dos parceiros do projeto.
Eliane e João Anderson, assim como os demais jovens do curso, aprenderam também a importância de buscar aliados, quando a vontade de realizar não se deixa abater pelas dificuldades. Foi a união de parceiros que possibilitou o curso e pode tornar realidade o sonho do primeiro emprego. A Rede Brasileira de Jardins Botânicos, que congrega os 30 existentes, no país, é a executora do projeto; a Petrobras é a patrocinadora; a Fundação Xuxa ficou responsável pelo processo seletivo dos alunos (140 inscritos), pela avaliação do curso e por duas disciplinas (uma delas é empreendedorismo); a Tramontina que doa as ferramentas usadas no curso e um kit para cada aluno, ao seu final. A Prefeitura do Rio cede o Riocentro para as aulas teóricas e práticas e destinou uma área de 80m2, onde os alunos criaram um jardim - o cartão-postal do projeto. O Riocentro foi escolhido pela grande concentração de hortos e empresas de paisagismo, em sua área, que abrange Vargem Grande, Barra e Pedra de Guaratiba e Camorim, além de favorecer a proximidade com os jovens das comunidades ao seu redor.

Doação do CD Rom
Um CD Rom com toda a programação do curso, incluindo material didático e metodologia para gerenciá-lo, será doado pela Petrobras, para qualquer instituição que queira realizar projeto idêntico, desde que sem fins lucrativos. O lançamento deste CD Rom será durante o Encontro da Rede Brasileira de Jardins Botânicos, em Belo Horizonte, em julho, quando cada um dos 30 jardins nacionais receberá um kit completo para promover curso semelhante. A meta dos promotores do curso é espalhar esta iniciativa, pelo Brasil afora, estendendo seus benefícios a diversas organizações - empresas, escolas, condomínios, hortos, florálias, igrejas etc. - que, em troca de realizarem o curso, ainda poderão ter jardins criados ou reformados, dando emprego a tantos jovens técnicos.

Informações
RMC  Tel. (21) 2554-9010  e  2551-0913



 
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