O crime do desmatamento

Crime de lesa pátria-amazônica

Madeira nobre é tirada de um triângulo amazônico entre Tucuruí, Novo Repartimento e Pacajá

Edson Gillet, de Belém do Pará

Os rios Pacajá e Anapu, a barragem de Tucuruí e a rodovia Transamazônica, que cortam os municípios de Anapu, Pacajá e Novo Repartimento, sudoeste do Pará, é a principal rota do contrabando de madeira nobre extraída por madeireiros, assentados do Incra e fazendeiros. A madeira é tirada de terras públicas, de terras indígenas e de 30 projetos de assentamento do Incra. O mercado negro do produto florestal envolve os municípios de Tucuruí, Breu Branco, Itupiranba, Goianésia, Jacundá e o Anapu (município onde em fevereiro de 2005 foi assassinada a missionária e ambientalista Dorothy Stang). A madeira é também roubada da Reserva Indígena Parakanã. A verdade nua e crua é que neste triângulo amazônico - Tucuruí, Novo Repartimento e Pacajá - tudo é permitido. Membros de Ongs que trabalham em áreas indígenas garantem que até mogno é contrabandeado como se fosse jatobá. O produto florestal é adulterado na Autorização de Transporte de Produto Florestal (ATPF) - papel moeda fornecido pelo Ibama. Um crime de lesa pátria-amazônica.

Madeiras nobres são tiradas deixando ao erário um rombo de R$ 200 milhões/ano

Levantamento sigiloso realizado por agentes do governo, asseguram que saem da floresta, clandestinamente, mais de dois milhões de metros cúbicos/ano de madeira em toras e beneficiadas. Isso corresponde ao abate de mais de meio milhão de árvores/ano, provocando sangria ao erário e mais de 200 milhões de reais/ano. O relatório produzido pela Agência Estadual de Vigilância e Defesa Sanitária - Adepará demonstra que centenas de carretas transportam madeira - tora e beneficiada - em rodovias secundárias e estradas clandestinas a partir da Transamazônica, no lago da hidrelétrica de Tucuruí e, em grandes balsas, pelos rios Pacajá e Anapu.
Fontes em Maracajá, distrito de Novo Repartimento, revelam que a receita contabilizada a favor dos madeireiros atinge  aproximadamente de 1,6 milhões de reais/mês livres de  impostos. O exemplo cruel, para se ter uma idéia do derrame de dinheiro na região, é do acapu. Extraído ilegalmente o acapu tem a estaca vendida a cinco reais no mercado interno. Exportado ilegalmente para Governador Valadares (MG,) o preço é cotado em 35 dólares/unidade. O acapu é utilizado em construções civis e até como obra de arte no interior mineiro e levado para os Estados Unidos.
No rastro do saque à floresta à "ética da corrupção" é compartilhada entre madeireiros e os homens da lei. Cansado de ser extorquido o madeireiro Adauto entre portas e travessas, revela que no esquema de custos e benefícios estão servidores do Ibama, da Secretaria Estadual de Fazenda (SEFA) e Policiais civis e militares, que exigem depósito da propina em conta bancária para liberação de caminhões com toras de madeira extraídas ilegalmente em vicinais na BR-230 (Transamazônica). 
A planilha da propina varia de dois mil reais a 32 mil reais e os valores cobrados dependem da carga e do cacife do madeireiro. Mas sempre com o aval dos servidores desses órgãos, afirma Adauto. É comum ver carretas com toras de madeira no período noturno estacionadas em Novo Repartimento e de madrugada seguirem em direção a Marabá pela Transamazônica, sem fiscalização.

De pé, só a árvore da corrupção

Conheça os empresários troncos e galhos do mercado negro

TRONCOS - Vozes da floresta revelam que o esquema do mercado negro da madeira no triângulo amazônico - Tucuruí, Novo Repartimento e Pacajá, na Transamazônica - funciona em forma de uma gigantesca árvore. No tronco está o Grupo Concrem, o mais forte da região, apoiado na Indústria de Madeiras Rio Concrem com base em Maracajá, distrito, a 36 km da sede do município e, tendo como aliadas, as madeireiras Oriente e Dunorte. Fontes no Ibama informam que as três empresas eram detentoras de Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS), aprovados no órgão e que os mesmos estão suspensos desde 2002 por irregularidades. Mas vem sendo usados para esquentar madeira  - com a venda de ATPF  oriunda de projetos de assentamentos, fazendas e terras públicas, localizadas em vicinais da BR-230 (Transamazônica).
GALHOS e FOLHAS - Nos galhos da corrupção estão os extratores de madeira Agildo, Dedé, Tonico, Joanilson, Carlos Baiano, Carlos Tozetti, José Carlos Galetti, Serjão, Paulão, Joel, Itamar, Ari, Gonzaga, Waldemar, Carlinhos e Sebastião, que  alimentam o tronco e as raízes. As folhas camuflam a estrutura do vegetal que produz muito dinheiro. O dinheiro alimenta as raízes onde estão, além dos órgãos públicos o tráfico de influência de famílias poderosas. Como os Rezende e Rebelo (Grupo Reicon), conglomerado de empresas que possuem fazendas, indústrias madeireiras, empresas de transporte fluvial, terrestre e de carga e latifúndios em terras nos municípios de Baião, Tucuruí, Pacajá, Breves e Portel. Os Rebelo mantém um luxuoso Resort Ecológico na Ilha Mexiana, voltado ao turismo internacional, parte oceânica na contra-costa do arquipélago marajoara. Nesse grande esquema o único vegetal mantido em pé na floresta é a árvore da corrupção.
PISTA DE POUSO - O empresário capixaba JC Galetti e o paulista Carlos Tozetti são apontados pelo grupo como os maiores grileiros da região, em conluio com cartorários na região. Depois da grilagem é dada a senha para invasão e extração ilegal de madeira. Fontes na região garantem que o empresário paranaense Agildo seria o financiador do extrator Dedé para grilar terras e extrair madeira. A descoberta no final do ano passado pelo serviço de inteligência da PM de uma pista de pouso para pequenas aeronaves com 800 metros de comprimento e 60 de largura, comprova que a área de 34 mil hectares da Fazenda D. Pedro vem sendo invadida e se constitui num dos pontos de roubo de madeira que alimenta o tráfico de madeira em Pacajá e Repartimento. Os policiais encontraram no local, 800m3 de  ipê, angelim e jatobá em toras. Depoimento anônimo de um trabalhador rural garante que a madeira foi extraída a mando do empresário Carlos Tozetti.



 
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