Arborização urbana

Árvores para uma nova ordem urbana

Vereadores incluem árvores no Plano Diretor da cidade do Rio de Janeiro

Tetê Duche

Uma das emendas para o orçamento deste ano proposta pela Comissão de Revisão do Plano Diretor da Câmara Municipal do Rio de Janeiro é a destinação de verba para a realização de um inventário arbóreo que sirva de suporte técnico para o manejo e o planejamento da arborização da cidade. A iniciativa partiu da presidente da Comissão, vereadora Aspásia Camargo (PV) que afirma que em relação ao meio ambiente, o Plano Diretor é genérico e com diretrizes vagas. "Hoje, o orçamento que não levar em conta o licenciamento ambiental não irá em frente", diz Aspásia. Ela defende uma racionalização maior do plantio de mudas de modo que haja um equilíbrio ambiental maior entre os bairros da cidade.

Vera Dodsworth: Descobriram que a poda de árvores dá voto e há muitos pedidos que nos chegam, sempre associados à questão da segurança.

A iniciativa da vereadora Aspásia Camargo agradou à presidente da Fundação Parques e Jardins, Vera Dodsworth. A FPJ coordenou um levantamento da arborização dos bairros de São Cristóvão e Vasco da Gama, na zona norte do Rio, onde um inventário qualitativo e quantitativo foi realizado. O inventário pretende diagnosticar todas as 3.064 árvores do perímetro urbano.  "Aumenta a cada dia a pressão da sociedade por plantação de árvores. No último Plano Diretor, por exemplo, nem constava a palavra árvore", explica Vera Dodsworth. Mas a presidente da FPJ revela o outro lado da questão: descobriram que poda de árvores dá voto e há muitos pedidos que nos chegam, sempre associados à questão da segurança. Há alegação de que a copa das árvores prejudica a fiação e cobre a luz dos postes. Então, há uma inversão dos valores. "É preciso fazer um esforço para inverter esse processo e buscar o plantio", afirma.
Segundo um diagnóstico fitoquantitativo feito pela FPJ, existem cerca de 660 mil árvores diagnosticadas somente nas ruas do Rio de Janeiro, sem incluir as praças.
O  diretor de Planejamento e Projetos da FPJ, Adilson Roque dos Santos, aconselha a confecção de um manual de arborização. Ele terá uma  tabela de atributos das espécies, para que o plantio fique  bem definido no próximo Plano Diretor. É importante que as árvores a serem plantadas nas cidades sigam algumas regrinhas básicas. Por exemplo: espécies resistentes  ao vento e ao excesso de luz, à falta de água e de nutrientes e, principalmente, resistam ao vandalismo! "Assim - conclui Adilson Roque dos Santos - o Rio de Janeiro que já  é uma cidade relativamente densa em cobertura vegetal, com 30 mil hectares de Mata Atlântica, pode inovar também na ordem urbanística".

As cores e os cantos do Brasil
Como trazer de volta às cidades a alegria e a beleza das árvores e dos pássaros

Johan Dalgas Frisch

A Copa do Mundo de 2006 passou. O Brasil perdeu. Ficaram três lições:  uma seleção de estrelas sem garra e desunida, não vence; jogadores milionários e auto-suficientes fugiram dos desafios no jogo e na  derrota: uns deram a cara para bater e outros sumiram em jatinhos particulares. Mas a terceira lição é mais importante: a revolta do torcedor tem explicação, pois seu compromisso maior  é com as cores do Brasil. E a Seleção não honrou as cores verde-amarela.
Na vida também temos compromissos. Temos que ganhar e dar show, quando o assunto é qualidade de vida. E nosso compromisso deve ser, também, com as cores e os cantos do Brasil. E onde estão as cores do Brasil? Estão nas árvores e nas flores. E os cantos? Estão na volta das aves para as cidades. Para ter aves, árvores e flores é preciso semear. É preciso saber plantar. Ao se fazer das vias públicas e dos parques um ponto de abrigo e de alimento para as aves, ganha-se em harmonia e em qualidade de vida. Nada melhor e nada mais belo que do que a paz proporcionada pelo verde das plantas e pelo cantar das aves. É um equilíbrio que satisfaz olhos e ouvidos dos humanos.
Semear é uma arte. Atrair as aves é uma arte. Combinar espécies de plantas e compor um ambiente harmonioso para se viver é uma arte. A semeadura requer conhecimento e convicção. Convicção do que fazer e conhecimento estético e agronômico de como fazer e de onde fazer. Viver entre plantas e aves aprimora a sensibilidade humana e afasta a violência.
A natureza dá à vida do homem um sentido divino. Temos que entender a vida de forma holística, pois seus ciclos obedecem a caprichosos caminhos e mudanças. Os pomares particulares também não podem ser esquecidos. Amoreiras, pitangueiras, jabuticabeiras entre outras espécies frutíferas são bem vindas.
Nos parques públicos o importante é criar um ambiente com flora bem diversificada, abrigando imbaúbas, caneleiras, mataíbas, guasatongas, palmitos silvestres, crindiuvas, marianeiras, e mesmo capins de toda variedade vegetal que produzam sementes, muito apreciadas por tiziu, coleirinha, bigodinho e canários.
Lembro-me bem da responsabilidade que me impôs o maior paisagista brasileiro e um dos maiores do mundo, o inesquecível Burle Max. Ao me encontrar, de certa feita, Burle Max foi taxativo: - Olha, Dalgas, um botânico não entende de pássaros. E um ornitólogo não domina o conhecimento sobre as plantas. Quem tem a responsabilidade de fazer essa ponte entre o ornitólogo e o paisagista é você. Você é um engenheiro apaixonado pela ornitologia e pela botânica. Use seu dom de divulgar os cantos das aves e de escrever sobre plantas para promover a arborização das praças e dos parques para compor um ambiente que valorize as cores e os cantos do Brasil.



 
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