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A água e o aquecimento global
A água é o principal elemento que a natureza usa para responder ao aumento da temperatura provocado pela concentração de gases que intensificam o efeito estufa.

Maurício Andrés Ribeiro (*)

21 de Marco de 2007

A água no planeta está distribuída em 97,2% nos mares e oceanos, 2,15% nas calotas polares e geleiras, 0,625% são águas subterrâneas; 0,005% na umidade do solo; 0,009% são águas superficiais em lagos e rios; 0,001% na atmosfera e no corpo dos seres vivos. O aquecimento global altera a quantidade e o regime das águas ao diminuir a quantidade de água sólida no gelo do ártico, na Groenlândia e nas geleiras que se derretem nas montanhas. O aumento da temperatura provoca eventos como estações de esquis sem neve e insegurança no abastecimento de água em bacias como a do Rio Ganges, na Índia, alimentada pelo gelo dos Himalaias.

O furacão Katrina trouxe fortes prejuízos sociais e econômicos à costa dos Estados Unidos

 

O aquecimento médio glo-bal de 1,8 a 4 graus Celsius nos próximos 100 anos elevará o nível dos mares de 28 a 43 cm. Isso colocará em risco e provocará a necessidade de deslocar 90 milhões de pessoas, especialmente nos deltas de rios e nas ilhas do Pacífico. Tuvalu é a primeira vítima desse processo, ao gerar refugiados ambientais que precisam ser reassentados em outras terras.
Ao se aquecer, a água se expande e aumenta o seu volume, provocando a dilatação térmica dos oceanos e elevação do nível dos mares, que  muda a geo-grafia do planeta ao inundar áreas costeiras. Perdas de área agricultável e salinização de fontes de água doce afetarão países baixos como a Holanda e Bangladesh.
A elevação dos níveis dos mares fará aumentar a cunha salina e as águas salobras, pre-judicando o abastecimento de água em zonas costeiras.
Além disso, com o aumento da temperatura e da conseqüente evaporação, aumenta a quantidade de água na atmosfera.
As chuvas se tornam mais intensas, provocando temporais, furacões, ciclones tropicais, enchentes, inundações, deslizamentos de encostas. Com os temporais, aumentam os riscos à segurança  e rompimento de barragens.
A mudança climática modifica a distribuição da água, com escassez, secas e desertificação nas áreas áridas e semi-áridas da África, Oriente Médio e Europa meridional.
Haverá redução de oferta de água em regiões carentes desse recurso. Será prejudicada a saúde humana, com a disseminação de doenças tais como a malária em países tropicais, bem como o aumento de cólera, encefalite e pestes.

 

O aumento da concentração de gás carbônico
na atmosfera intensifica o efeito estufa e o  aquecimento global; por sua vez, esse aumento
de temperatura  desencadeia mudanças no ciclo
e na distribuição da água

 

Estresse Hídrico

 

Com o aumento de temperatura, a demanda por água para a agricultura e para a dessedentação dos seres vivos também deverá aumentar,  multiplicando as situações de estresse hídrico. Haverá efeitos sobre as vazões de rios e sobre  a operação de sistemas de geração de hidroeletricidade. Todos esse fenômenos são potencialmente causadores de sofrimento e perdas sociais e econômicas. 
As mudanças climáticas introduzem mais uma variá-vel na equação da sobrevivência e clamam por uma gestão integral  do ciclo da água, que considere todas as suas formas de presença na natureza: sólida, líquida, gasosa, superficial e subterrânea. 
Se a água é o elemento da natureza que responde ao aumento da temperatura, a origem da questão está na
energia e no ciclo alterado do carbono.
As mudanças climáticas devem-se, especialmente, à exploração e ao uso de energia, com a queima de carvão, petróleo e gás, que liberam o gás carbônico (CO2) e outros.
A intensa busca por carvão e por petróleo, no subsolo, a partir da revolução industrial no século XIX, sua queima e liberação de gases, aumentaram a concentração de gás carbônico na atmosfera. 
Anualmente, as atividades humanas e outras fontes produzem 6 bilhões de toneladas métricas de carbono, sob a forma de dióxido de carbono (CO2), além de outros cinco gases: metano (CH4), óxido nitroso, (NO2), os hidrofluorcarbonos (HFCs), os perfluorcarbonos (PFCs) e o hexafluoreto de enxofre (SF6).
Em 1800, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera era de 280 partes por milhão (ppm);  em 2007 é de 365 ppm.  Se nada for feito para conter o aumento, em 2100, essa concentração poderá ser de 700 ppm.
Os EUA emitem 25% dos gases que causam o efeito estufa, enquanto a destruição
de florestas libera 1 a 2 bi-lhões de toneladas por ano, ou seja, 20% das concentrações de tais gases.
Podemos estar às vésperas do advento de uma nova era glacial logo em seguida ao período  de aquecimento global, caso se mantenha o padrão de variações de tempe-ratura que ocorreu nos últimos 400 mil anos e que corresponde às variações na concentração de CO2 na atmosfera.

Quem viver...
Espécie energívora, o ser humano está em estágio evolucionário que ainda depende da apropriação de recursos naturais do planeta para se abastecer  - seja a hidroeletricidade, o carvão, e energia nuclear, a biomassa.  Ao fazê-lo provoca impactos ambientais e climáticos, alterando os ciclos do carbono e da água.
O astrônomo Carl Sagan vislumbrou um estágio mais evoluído de civilização em que  fontes externas de energia - solar, cósmica, - poderão vir a ser usadas, reduzindo os impactos causados pelo uso dos recursos do planeta para a produção de energia. Um conjunto de ações de mitigação de impactos e de estratégias de adaptação às mudanças começa a ser posto em prática por nações, pela comunidade internacional, por empresas, por cidadãos. Trata-se de primeiros passos, ainda estamos engatinhando nesse campo. Quem viver, verá.

(*) Maurício Andrés é
autor do livro Ecologizar, Editora Universa, 2005, 3ª edição.
www.ecologizar.com.br



 
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