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AQUECIMENTO GLOBAL
Mais uma vez vai sobrar para os pobres
Novo relatório das Nações Unidas demostra que mudança do clima afetará principalmente as regiões menos favorecidas do mundo
Regina Gorgulho, de Brasília
26 de Abril de 2007
As relações entre as nações continuam sendo dirigidas pelas forças políticas, militares e econômicas. Uma realidade difícil de mudar. E mais uma vez ficou provado que o critério científico, na balança do poder global, pesa menos que a economia e a política. Tudo isso ficou evidente, ao ser divulgada, em Bruxelas, a segunda parte do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas. Negociações de bastidores na véspera da publicação visaram a atenuar a linguagem usada pela equipe de renomados cientistas, que nos últimos meses analisaram mais de 29 mil documentos. O esforço de chamar a atenção dos líderes políticos para os efeitos catastróficos do aquecimento global esbarrou nos fortes interesses das potências.
 O aquecimento global tem consequências: até 2050, metade das terras cultiváveis poderão estar afetadas, expondo à fome milhões de pessoas.
Estados Unidos e China, dois dos países com maior responsabilidade pelo efeito estufa, foram também os que ergueram mais obstáculos à redação do documento. Político mesmo foi o presidente do IPCC, o economista indiano Rajendra Pachauri, que evitou a polêmica e comemorou o resultado. "Acabamos de terminar uma reunião de maratona, que foi produtiva, mas cansativa. É um relatório muito bom e espero que chame a atenção do mundo inteiro", disse. Pachauri apresentou uma síntese do informe original - de 1,4 mil páginas ?, elaborada para governantes e formadores de opinião. E, mesmo com a retirada dos trechos mais críticos, o diagnóstico é alarmante. As populações pobres, inclusive nas sociedades prósperas, serão as mais vulneráveis à mudança climática, segundo as conclusões do IPCC. "Isso requer nossa atenção, pois os mais pobres são também os menos aptos a se adaptar", comentou Pachauri. Os cientistas advertiram que o aquecimento afetará todas as formas de vida na Terra. "Entre 20% e 30% das espécies vegetais e animais sofrerão risco crescente de extinção se a elevação da temperatura mundial ficar entre 1,5 e 2,5 graus em comparação à média de 1990", prevê o documento. China, Arábia Saudita, Rússia e Estados Unidos questionaram vários parágrafos do resumo do relatório. Pequim se opôs a um trecho que destacava o "risco muito elevado de que vários sistemas naturais se vejam afetados pelas mudanças climáticas". A delegação chinesa questionou as bases científicas do termo "muito elevado". Para responder ao questionamento, um grupo de cientistas entregou uma carta de protesto à presidenta do Grupo II do IPCC, a norte-americana Sharon Hays. O documento salientava, justamente, o "alto grau de confiança" nas previsões e que todos os estudos estão comprovados cientificamente.
América Latina: previsão de muitas perdas
Segundo o relatório, o avanço dos desertos sobre áreas agrícolas vai ameaçar a produção de alimentos nas Américas. Do México até a Amazônia, a savana ganha terreno na América Latina e a desertificação das terras agrícolas ameaça a segurança alimentar do continente. Até 2050, metade das terras cultiváveis poderão estar afetadas, expondo à fome milhões de pessoas na região. Entre 60 milhões e 150 milhões sofrerão com a escassez de água. A criação de corredores ecológicos e reservas naturais para a preservação da biodiversidade poderá constituir uma frente contra o aquecimento. O aumento do nível dos oceanos - de 20cm a 60cm até o final do século, segundo as previsões dos cientistas do IPCC - "muito provavelmente" provocará inundações nas terras baixas, como em El Salvador, Guiana e no estuário do rio da Prata, ao redor de Buenos Aires, afetando a indústria turística nas praias do México e Uruguai. Esse fenômeno também poderá pôr em risco os manguezais de Brasil, Equador, Venezuela e Colômbia. O aumento da temperatura da água ameaça os corais das costas do México e Panamá, além dos arrecifes de coral de Belize, que fazem parte do patrimônio mundial.
Países ricos chegam a mexer no relatório
Os Estados Unidos conseguiram retirar um parágrafo que indicava que a América do Norte "deve enfrentar localmente graves danos econômicos e perturbações substanciais de seu sistema socioeconômico e cultural". Para surpresa geral, um dos representantes destacou: "É a primeira vez que os políticos questionam dessa maneira a ciência". A coordenadora da delegação americana em Bruxelas, Sharon Hays, esquivou-se das críticas, dizendo que a mudança climática representa um desafio mundial que requer soluções internacionais. "Todos reconhecemos que isso necessita de soluções internacionais", disse. Mas o debate extrapolou a sede da União Européia em Bruxelas. O ministro alemão do Meio Ambiente, Sigmar Gabriel (SPD), considerou "escandaloso" o esforço de diluição política do relatório. Gostou que nem todas as alterações pedidas pelos EUA e pela China foram aceitas. "No final, conseguimos evitar esse vandalismo científico", disse o ministro. Segundo ele, "as pessoas têm o direito de saber que conseqüências se arriscam a sofrer". A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, prometeu levar a polêmica à próxima reunião do G-8, na Alemanha, onde ela estará frente a frente com China e EUA.
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