Transposição e revitalização
Expedição busca revitalizar fauna

Beatriz Fernandes Barros, de Belo Horizonte

26 de Abril de 2007

O rio São Francisco continua no centro do debate. Sua bacia hidrográfica é alvo, ao longo do último século, de diferentes ações e opiniões. A fragmentação do rio São Francisco surgiu na década de 80 a partir da falta de consciência ecológica. Hoje, cientistas de todo o País se unem para tentar entender e recuperar a bacia do Velho Chico. A verdade é uma só: existe uma crise socioambiental na região. A bacia do rio São Francisco é uma das mais ricas e das mais importantes do País. Faz parte dela o bioma Mata Atlântica, atravessa o Cerrado e a Caatinga e termina na Mata Atlântica nordestina (ou no que resta dela), associada a seus ecossistemas de manguezais e restingas.

Duas espécies de jacarés ocorrem na bacia do São Francisco:
o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) e o jacaré-ferro ou
jacaré-coroa (Paleosuchus palpebrosus)

 

 

 

 

E por que toda polêmica em torno do São Francisco? Simples, porque antes de se falar de  revitalização, sempre está em pauta  a transposição.
O projeto da transposição parece ser simples, ou seja, levar água do rio ao Semi-Árido nordestino. Mas o debate acabou gerando conflitos, greves de fome, ações na justiça e mostrou-se num dilema: a bacia doadora quer a revitalização e a bacia receptora quer a água de qualquer jeito.
Para as lideranças de Minas, Bahia e Sergipe,  contrários à transposição, é importante que a comunidade se mobilize em torno da recuperação do rio.
 Para eles, há propostas alternativas para o abastecimento e distribuição de água na região receptora, sem ônus aos moradores. Já a revitalização e recuperação da bacia do rio, sua fauna e flora são urgentes e necessárias.

Programa de revitalização

Pesquisadores do Centro de Conservação e Manejo de Répteis e Anfíbios - RAN/ Ibama - estão engajados no projeto de revitalização da fauna de repteis no rio São Francisco, sobretudo a fauna crocodi-liana. O interesse é na pesquisa do status populacional e biologia dos jacarés da região.
No Brasil são descritas seis espécies de crocodilianos, das quais duas ocorrem na Bacia do São Francisco: o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) e o jacaré-ferro ou jacaré-coroa (Paleosuchus palpebrosus). Tanto a biologia como a dinâmica das populações dessas duas espécies é assunto polêmico.
De acordo com a lista vermelha de espécies ameaçadas publicada pela IUCN - União Mundial para a Natureza - ambas as espécies apresentam baixo risco de extinção. Segundo os critérios da Cites - Convenção Internacional sobre o Comércio das Espécies da Fauna e Flora Ameaçadas de Extinção - as populações naturais do jacaré-de-papo-amarelo ainda são consideradas ameaçadas no Brasil e permanece a idéia de que o manejo para o uso sustentado pode representar risco para a espécie.
No âmbito nacional, ambas as espécies foram excluídas da Lista Brasileira da Fauna Ameaçada de Extinção, publicada em 2003 pelo Ministério do Meio Ambiente.
Em Minas Gerais, o jacaré-ferro se inclui na categoria "em perigo", e o jacaré-de-papo-amarelo é considerado "vulnerável".
Pesquisadores relacionam a inclusão dessas espécies na lista de espécies ameaçadas no estado devido a destruição de seus habitats naturais e o comércio não controlado. Marcos Coutinho, biólogo e coordenador Nacional do "Programa Biologia, Conservação e Manejo de Crocodilianos", concorda que a falta de dados sobre a biologia, distribuição e abundância dos jacarés têm sido os principais impedimentos para a definição de políticas de conservação e manejo das espécies na região e no País.
O pesquisador participou, em 2006, do maior inventário sobre a distribuição e estrutura populacional de jacaré-de-papo-amarelo e jacaré-ferro até então realizado no País. Foram percorridos 11 municípios da Bacia do rio São Francisco compreendendo os estados de Minas Gerais e Bahia, onde foram vistoriados 44 corpos d'água.
Em uma análise preliminar dos dados, concluiu-se que os jacarés estão distribuídos por toda a área pesquisada, ocorrendo em 70% dos locais amostrados.
Diante deste fato, uma nova expedição partiu de Belo Horizonte em março, com o objetivo de dar continuidade aos trabalhos envolvendo duas linhas de ações distintas e complementares: garantir a continuidade e consolidação do programa de monitoramento dos jacarés e selecionar áreas para implantação de estudos mais detalhados sobre a
biologia das espécies.



 
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