Semana do Índio

Marcos Terena
Um nome que se confunde com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel.

Silvestre Gorgulho, de Brasília

26 de Abril de 2007

O índio, piloto e líder Marcos Terena tem história. Criou o primeiro movimento indígena no Brasil e idealizou e organizou a Conferência Mundial dos Povos Indígenas sobre território, meio ambiente e desenvolvimento, durante a RIO/92, onde foi escrito a Carta da Terra com 109 recomendações e a Declaração da Kari-Oca. Terena é membro do Comitê Intertribal e da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, da Coalizão Internacional Land is Life e da Cátedra Indígena Internacional.

Voltemos no tempo. Em 1990, o jornalista Zózimo Barroso do Amaral deu em sua coluna do Jornal do Brasil uma nota, com o título "Procura-se". A nota dizia que um índio de nome Marcos Terena acabara de ser demitido da Funai, onde era piloto - mesmo tendo entrado em avião só como passageiro e, assim mesmo, morrendo de medo. Foi na resposta de Marcos Terena ao JB, que se conheceu o valor, a grandeza, a altivez e a dignidade de Marcos:
"Sou um dos 240 mil índios brasileiros e um dos seus interlocutores junto ao homem branco. Quando ainda tinha nove anos, fui levado a conhecer o mundo. Era preciso ler, escrever e falar o português.
Um dia, a professora me pôs de castigo, não sabia por que, mas obedeci. Fiquei de frente para o quadro negro, de costas para a sala. Quando meus colegas entraram, morreram de rir. Não sabia o motivo, mas sentia-se orgulhoso por fazê-los rir. Eles riam porque descobriram meu segredo: meu sapato não tinha sola, apenas um buraco, amarrado por arame.
Naquele momento, sem querer, acabei descobrindo o segredo do homem civilizado: suas crianças não eram apenas crianças.
Apenas uma palavra as separava das outras crianças: pobreza."
 E Terena continua sua carta:
 "Um dia me chamaram de "japonês". Decidi adotar essa identidade. E fiz isso por 14 anos."
Foi passando por japonês que Marcos Terena conseguiu estudar, entrar para a FAB, aprender a pilotar. Veio para Brasília. Deixou de ser japonês para voltar a ser índio. Ai descobriu que era "tutelado". Mais: como tinha estudo, começou a explicar a lei para seus companheiros de selva. É ele quem diz:
"Expliquei e fui acorrentado. Pelos índios, como irmãos. Pela Funai, como subversivo da ordem e dos costumes".
Veio o drama: continuar sendo branco-japonês e exercer sua profissão de piloto, ou voltar a ser índio, mesmo sendo subversivo.
Marcos Terena era o próprio filho pródigo. Sabia ler, escrever, analisar o mundo, entender outras línguas. Mas, como índio, recebeu um castigo dos tutores da Funai: não podia exercer sua profissão, pilotar. Só depois de muita luta, recebeu seu brevê do Ministério da Aeronáutica.
A carta de Terena ao JB continua. É linda. Uma lição. Quando publicada, mereceu uma crônica especial da Acadêmica Rachel de Queiroz. E Terena, ao concluir sua carta, deixou uma lição a todos os jornalistas e aos homens de boa vontade:
 "Não guardo rancores pela nota. Foi mais uma oportunidade de fazer valer a nossa voz como índio. Gostaria apenas que o jornalista inteirasse dessas informações todas e soubesse de minha vontade em tê-lo como amigo".
Respeitado por índios e brancos - sul-matogrossense de Taunay -  Marcos Terena, 53 anos,  maior líder do movimento indigenista brasileiro  é um exemplo.
Seu nome, sua obra e sua luta se confundem com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel. 

(Quem quiser ler a carta de Marcos Terena ao jornalista Zózimo Barroso do Amaral e ao Jornal do Brasil, na íntegra, clique aqui ...)

Notícias  pelas   aldeias

Audiência e os direitos indígenas

As comissões de Direitos Humanos e Legislação Participativa, Educação e Assuntos Sociais do Senado Federal juntamente com as comissões de Direitos Humanos e Minorias e da Amazônia, Integração Nacional e Desenvolvimento Regional da Câmara dos Deputados, promoveram em 19 de abril audiência pública para discutir os atuais problemas dos povos indígenas.
O presidente da CDH e autor do requerimento que propôs a audiência pública, senador Paulo Paim (PT/RS), disse que o evento deu novo rumo para o debate. "O Brasil passa por um momento crucial de reconhecimento da cidadania de suas minorias.
Está na hora de os poderes constituídos da República, discutirem e implantarem um pacto político e social pelos povos indígenas", disse Paim.

Índios e a hepatite B

A Funasa encontrou vírus da hepatite B nos índios no Vale do Javari, na região do Alto Solimões.
Os técnicos do órgão encontraram o vírus em 56% dos 309 índios examinados, percentual muito acima do máximo aceitável pela Organização Mundial de Saúde, que é de 2%.
Nos últimos anos, 22 pessoas morreram na região com suspeita de ter contraído a doença.
A presença do vírus não obrigatoriamente significa que a doença será desenvolvida. Mas o índice de contaminação levou a Funasa a lançar um programa de assistência aos índios.
Todos os que tiveram resultado positivo para hepatite B farão novos exames.
Se a doença for constatada, eles serão transferidos para Tabatinga e tratados no Hospital do Exército.

Índios e os livros

Livros buscam fortalecer educação indígena em universidades.
O tema é bem atual: História, Identidade, Direitos, Política e Cultura. A série de quatro livros foi publicada pelo Museu Nacional em parceria com o MEC.
O objetivo é, de forma inovadora, ajudar na formação de professores e estudantes indígenas de cursos de nível superior.
Alguns dos autores dos livros estão entre os primeiros representantes de povos indígenas a obter diplomas universitários no Brasil.

Márcio Meira assume Funai

Márcio Augusto Meira acaba de assumir a presidência da Funai prometendo que os índios vão participar de decisões da autarquia.
Márcio Meira afirmou que "não dá mais para a Funai e o go-verno federal desenvolverem uma política voltada para esses povos sem a participação deles".
Antropólogo, Meira aposta nos trabalhos de campo realizados nestas duas últimas décadas para conquistar a confiança dos índios e para fazer a mediação com as diferentes etnias.
O novo presidente da Funai conhece bem todo a problemática que envolve a questão indígena, pois já participou de laudos antropológicos no Baixo rio Negro e pesquisou o povo Warekena, no rio Xié, afluente do rio Negro.
Segundo Meira, são 700 mil índios, de 122 povos, falando 180 línguas.



 
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