Sustentabilidade socioambiental

Efeito borboleta

Tanzânia: empresa comunitária reduz pobreza entre povos da floresta

Alaistair Sarre, de Rio Branco

Na teoria do caos diz-se que, quando uma borboleta bate suas asas no Rio de Janeiro, ela pode causar um furacão no Caribe. O que acontece quando uma borboleta faz isto na Tanzânia? De acordo com Charles Meshack, diretor executivo da ONG Tanzania Forest Conservation Group (TFCG), surgem novas esperanças para as populações pobres nas zonas rurais. Com a ajuda de doações feitas por diversos grupos, o TFCG está trabalhando com agricultores da comunidade de Amani, nas Montanhas Usambara, na Tanzânia, um dos hotspots globais de biodiversidade, iniciando um empreendimento de exportação de borboletas.

Inicialmentea idéia de ganhar dinheiro com borboleta parecia um tanto boba. Mas na medida em que o projeto andava, o potencial de mercado apareceu

 

 

Os agricultores dessa região na Tanzânia têm uma renda muito pequena, obtida da produção de culturas como cardamomo, cravo-da-índia, café, chá e banana. Não há eletricidade e o acesso a serviços de atenção à saúde e educação é bastante limitado. Mas o efeito borboleta está começando a aparecer. "Este ano a comunidade terá uma renda de US$ 50 mil gerada por suas borboletas, em comparação com os US$ 45 mil obtidos no ano passado," relata Meshack. "Ano que vem estamos esperando uma receita total de cerca de US$ 60.000."
A história da comunidade produtora de borboletas da Tanzânia foi apresentada em julho, juntamente com as histórias de comunidades florestais de outros países tropicais da África, Ásia e das Américas, durante uma conferência internacional sobre empreendimentos florestais comunitários, realizada em Rio Branco-Acre, na Amazônia brasileira.
A fonte do novo dinheiro para os habitantes da floresta da Tanzânia são diversas espécies de borboletas, endêmicas na região, inclusive a belíssima Hypolimnas antevorta, uma grande borboleta azul com listras e pontos brancos e azul-claros.
Outras espécies muito apreciadas entre os expositores norte-americanos e europeus é a Papilio ophidicephalus, a maior borboleta da região - e também a que obtém o maior preço.
A idéia de uma fazenda de borboletas na região de Usambara surgiu pela primeira vez em 2001, quando um estudante norte-americano analisou a viabilidade de se adaptar um empreendimento bem-sucedido do Quênia, de criação de borboletas, para aquele local. Com o apoio de vários doadores, o TFCG criou o Projeto Amani de Borboletas. Objetivo: contribuir para o desenvolvimento da comunidade, conservando as reservas florestais locais. "Inicialmente achamos a idéia um tanto boba. Como é possível ganhar dinheiro com borboletas?" conta Meshack. "Mas na medida em que aprendemos mais a respeito, percebemos o seu potencial."

No Brasil
A experiência da Tanzânia pode muito bem ser repetida no Brasil, em várias regiões, pois o projeto tem dois objetivos bem definidos: aumentar a renda dos habitantes da floresta e proteger o meio ambiente.
Na Tanzânia, muitas aldeias foram receptivas à idéia e receberam treinamento adequado. As larvas são colhidas em florestas naturais adjacentes e alimentadas em plantas hospedeiras, estabelecidas nos jardins das aldeias. Redes foram instaladas para manter os predadores à distância - especialmente os pássaros.
Em 2003, os casulos passaram a ser remetidos via aérea a zoológicos privados na Europa e na América do Norte. Para sorte de seus cultivadores, as borboletas vivem apenas poucas semanas após saírem de seus casulos. Isso aumenta a cadeia econômica porque  os expositores sempre precisam de novos casulos.
A verdade é que - conta Amiri Saidi, que trabalha como gerente do projeto já há seis anos - o sucesso do empreendimento está ajudando a transformar vidas. "A renda dos agricultores participantes aumentou pelos menos 20% e alguns agora estão se concentrando totalmente na produção de borboletas".
E acrescenta Saidi, "agora as florestas estão melhor protegidas. A comunidade sabe que as populações-base de borboletas e as plantas hospedeiras precisam ser conservadas, se pretendem dar continuidade ao empreendimento. Um levantamento recente constatou uma consciência conservacionista muito maior entre os criadores de borboletas, em comparação com aqueles que não estão envolvidos nesta iniciativa".
Se deu certo na Tanzânia, com toda certeza pode dar certo também no Brasil.



 
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