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Brincando de Lembrar
A ponte continua como referência, mas as águas atualmente são como espelhos quebrados desfigurando as imagens

Jurandir Schmidt, de Joinville

22 de Outubro de 2008

Há rios que tiveram maior importância do que outros na história da civilização. Muitos deles, entretanto, constam na história do "Era uma vez...". O bairro em que moro é cortado por várias artérias fluviais e quando em breves caminhadas, difícil não parar e observar suas condições. Ainda me pego debruçado na mureta de uma ponte devaneando lembranças.

Vejo-me desgarrado das mãos de minha mãe e correndo para a ponte com o dedinho apontando em direção às águas e gritando: - Olha o rio, mamãe!
Pacientemente, ela ficava por muito tempo conversando e zelando minhas brincadeiras. Eu atirava pedrinhas observando a geometria que se formava nas águas. Lançava uma florzinha silvestre e corria para o outro lado da ponte para vê-la passar. Cuspia seguidamente e dava risadas com o aglomerado de peixinhos em torno da saliva. Muitos encontros foram marcados tendo a ponte como referência. Enquanto esperava, era esplêndido mirar-me nas águas a imagem do céu azulino, das árvores verdejantes e dos pássaros coloridos. A referência  para os encontros continua, mas as águas atualmente são como espelhos quebrados desfigurando as imagens e turvando as finalidades. Suas corredeiras estão bloqueadas e sua sonoridade sufocada.

Repetir as brincadeiras do passado já não fulgura as mesmas emoções. A mais atual seria a de despoluição, mas parece estar fora de moda.

 A tentativa de repetir as brincadeiras do passado já não fulgura as mesmas emoções. A mais atual seria a de despoluição, mas parece estar fora de moda. Além de necessitar um grande número de participantes, o termo brincadeira continua sendo um derivado de criancice. Gosto de ser criança travessa através das recordações, confrontando a possibilidade do hoje com a realidade do ontem. Quero continuar tendo momentos refletivos em cima das pontes, mesmo que os rios estejam pedindo socorro. Sei que a realidade reflete indignação e temor e que o progresso está afastando o homem de suas lembranças. Continuarei desfrutando as emoções dos meus sentimentos acreditando na esperança, pois minhas lembranças não querem parar de existir.  



 
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