Mudanças climáticas e o setor energético Voltar a usar carvão e óleo combustível para gerar eletricidade é andar na contramão da história
Márcia Turcato, de Brasília
22 de Outubro de 2008
O que têm em comum as guerras do Oriente Médico com o "tsunami" econômico que se abateu sobre os Estados Unidos e com o alerta vermelho na União Européia, na Rússia e na Ásia? É o mesmo que têm em comum as desastrosas articulações bolivarianas de Hugo Chávez com as dificuldades políticas de Christina Kishner, os arroubos cocaleiros de Evo Morales, a luta armada enfrentada por Álvaro Uribe e os faniquitos de Rafael Corrêa: em comum é que crise política vem sempre acompanhada de crise energética. Neste contexto, a América do Sul enfrenta uma crise energética ainda mais grave provocada pelo nacionalismo de Evo Morales, na Bolívia. E o que tudo isto tem a ver com o aquecimento global? Nesta entrevista, o cientista José Goldemberg comenta a matriz energética brasileira e suas conseqüências em relação as mudanças climáticas.
Folha do Meio - Que avaliação o senhor faz das conseqüências das mudanças climáticas no mundo? José Goldemberg - Mudanças climáticas podem parecer um tema muito distante das preocupações da população e que não podem ser comparados, em urgência, ao problema do transporte, segurança e saúde que estão nas manchetes dos jornais todos os dias. Sucede que as mudanças climáticas são como uma revolução silenciosa e o que estamos fazendo hoje - ou deixando de fazer - vai determinar o futuro da agricultura, geração de energia e Amazônia. Já existem demonstrações claras destas mudanças climáticas com o derretimento acelerado das calotas polares, o aumento da temperatura média da Terra e os, assim chamados, "eventos climáticos extremos", como tufões de grande poder destrutivo, enchentes anormais na China e secas prolongadas em outras partes do mundo.
FMA - Qual o fato que mais provoca mudanças climáticas? Goldemberg - A origem destas mudanças climáticas são os combustíveis fósseis, carvão, petróleo e gás natural, que são responsáveis por 80% do consumo mundial de energia e cuja combustão resulta na emissão de gases responsáveis pelo aquecimento da atmosfera e das mudanças climáticas. As energias renováveis como a energia solar, hidroelétrica, ventos e da biomassa, principalmente etanol e bagaço de cana não emitem estes gases. O Brasil é um dos países do mundo que tem uma das maiores participações de energia renovável na sua matriz energética: 42% e, portanto, contribui pouco para as emissões que causam as mudanças climáticas. O problema é que a destruição da Floresta Amazônica no ritmo que está ocorrendo - de cerca de um milhão de hectares por ano - aumenta muito as emissões do País. Além disso, é claro, os países industrializados - principalmente os Estados Unidos e a China, têm seu sistema energético baseado no uso intensivo de carvão, petróleo e gás e são os maiores emissores mundiais. Por essa razão - exceto pelo que se passa na floresta amazônica - somos vítimas das mudanças climáticas que são causadas pelos países industrializados e China.
FMA - Como as mudanças climáticas serão no Brasil? Goldemberg - Os estudos realizados no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) nos dizem o seguinte: a Amazônia sofrerá o processo de savanização, que é a ausência de árvores, a cobertura florestal cairá de 85% em 2005 para 53% em 2050. O Semi-árido, no Nordeste, terá clima mais seco devido à savanização da Amazônia. A Zona Costeira sofrerá um aumento de 40cm do nível do mar em relação ao século passado, provocando um colapso nos sistemas de esgoto e as construções à beira-mar e portos serão afetados.
FMA - E em relação ao regime de chuvas? Goldemberg - Haverá grande influência. A região Sudeste, por exemplo, terá uma tendência de aumento de chuvas. A Região Sul terá aumento de chuvas e de temperatura. Na agricultura, as culturas perenes migrarão para o Sul. Já os recursos hídricos diminuirão a vazão dos rios devido à evaporação, exceto no Sul. Tudo isto vai provocar, nas grandes cidades, mais chuvas e inundações, com repercussão imediata na saúde, com doenças infecciosas trasmissíveis e a dengue que tendem a se alastrar.
FMA - É possível evitar este cenário futuro? Goldemberg - Como o Brasil não é um grande emissor de gases, a solução destes problemas depende de ações internacionais. O Governo Federal tem que participar ativamente das negociações internacionais e lutar para que sejam adotadas metas e calendários para que se reduzam as emissões. Internamente precisamos adotar soluções que se baseiem em energias renováveis como, como a hidroelétrica, da qual existe um amplo potencial a ser aproveitado, talvez de 20 a 30 milhões de kilowatts; a energia dos ventos, sobretudo nos estados do Norte do país, (Maranhão, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte) e no Sul (Santa Catarina e Rio Grande do Sul) talvez 5 milhões de kilowatts; a energia da cana-de-açúcar sob a forma de etanol (um combustível renovável) e eletricidade produzida do bagaço da cana nos estados do Centro Sul, onde existe um potencial de cerca de 10 milhões de kilowatts, isto é, uma outra Itaipu.
FMA - E as termoelétricas e a energia nuclear? Goldemberg - Voltar a usar carvão e óleo combustível para gerar eletricidade é andar na contramão da historia e o uso de energia nuclear é controvertido demais para ocupar um papel muito grande na matriz energética brasileira. A área ambiental pode e deve trabalhar ativamente no licenciamento e viabilização das energias renováveis no País estabelecendo limites do que se pode ser feito e ajudando a encontrar soluções e medidas compensatórias quando os impactos forem inevitáveis.
QUEM É José Goldemberg
Professor titular da Universidade de São Paulo, USP, José Goldemberg é referência internacional. Nesta entrevista, o professor analisa a relação entre as mudanças climáticas globais e a crise energética. Goldemberg foi presidente da Sociedade Brasileira de Física, no final da década de 70, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), nos anos 80, quando seus trabalhos científicos voltaram-se para a energia nuclear e a seguir para a energia em geral. Produziu inúmeros trabalhos sobre o assunto. O mais importante deles é o livro intitulado "Energy for a Sustainable World" escrito com três colegas e publicado em 1988 que teve uma influência significativa nesta área de pesquisa. Como Secretário Interino de Meio Ambiente (substituiu José Lutzemberg), coube a ele conduzir a participação brasileira na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (Rio-1992). Ocupou ainda vários cargos federais, como Ministro da Educação e Secretário de Ciência e Tecnologia.
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