ALBERTO CAEIRO: o enigma em Pessoa
15 de Fevereiro de 2010
 POETA DA NATUREZA Fernando Pessoa soube gerar uma nova vida e produziu poetas de carne e osso. E de estilos diversos. Tal qual como Álvaro Campos e Ricardo Reis, também Alberto Caeiro tinha sua biografia: nasceu em Lisboa (1889) e morreu tuberculoso (1915). Sem pai e nem mãe, viveu com uma tia-avó. Era louro de olhos azuis e tinha apenas instrução primária. Alberto Caeiro viveu no campo como guardador de rebanhos. Escrevia intuitivamente. Era um poeta bucólico que entende a natureza para usufruir e não para pensar. Vê a realidade de forma objetiva e natural. Aceita-a tal como é, de forma tranqüila, sem necessidade de explicações. Tem um verso livre, bem coloquial e espontâneo. Trata do quotidiano e sua linguagem é fluente, simples e natural. Deus está em todas as coisas: “Deus é as árvores e as flores/ E os montes e o luar e o sol...” Alberto Caeiro leva e canta uma vida sem dor. Um envelhecer sem angústia e um morrer sem desespero. Fernando Pessoa cria uma biografia para Caeiro que se encaixa com perfeição na sua poesia. Interessante: o próprio Fernando Pessoa observa que os 49 poemas da série “O Guardador de Rebanhos” foram escritos na noite de 8 de Março de 1914, de um só fôlego, sem interrupções.
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“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer. Porque sou do tamanho do que vejo e não, do tamanho da minha altura”
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Sou um guardador de rebanhos O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido. (...)
(...) O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar...
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada, E que para de onde veio volta depois Quase à noitinha pela mesma estrada. Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas... A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco... Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
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(...) Poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E por isso porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo. Para além do Tejo há a América E a fortuna daqueles que a encontram. Ninguém nunca pensou no que há para além Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Veja na próxima edição: Fernando Pessoa inventa poetas e vidas: RICARDO REIS
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Saiba Mais
O que é heterônimo, homônimo e pseudônimo?
Heterônimo - A palavra vem do grego: heteros = diferente onyna = nome. Heteronímia é o estudo dos hererônimos ou seja, estudo de autores fictícios. Heterônimo então é uma personagem fictícia, criada por alguêm, mas com vida quase real, com biografia própria, totalmente diferente de seu criador. O criador de hetêrônimo, como Fernando Pessoa, é chamado de ortônimo.
Homônimo (homos = igual + onyma = nome) Pessoa que tem o mesmo nome de outra. Ou, palavras que se pronuncia e/ou escreve da mesma forma que outra, mas de origem e sentido diferentes.
Pseudônimo significa nome falso, ou seja, um nome fictício usado por alguêm como alternativa ao seu nome legal.
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