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Passa-anel de passarinho Quem ama passarinho só faz olhar ANA MIRANDA (*) - amliteratura@hotmail.com 21 de Marco de 2010 Vai, alma-de-gato, larga minhas lagartas e mariposas e borboletas, meu pomar de cajus e atas, muricis e mamoís, vai levar esta mensagem, deixa teu ninho de folhas e gravetos, vai na tua solidãozinha, gritando, ti-viiiiii! ti-viiiiiiii! Vai com este papelzinho no bico, voando, e o entrega à andorinha. Vai, andorinha, mas não fazer teu verão, pega o bilhetinho, passa pelos telhados de Aquiraz, deixa os ovinhos no ninho macio de paina, vai, nos teus voos rasantes, mas não na direção das amazonas, comer teus insetinhos, não, vai pelo caminho do sertão celeste, levar esta mensagem, até entregá-la ao bico-de-veludo. Bico-de-veludo, voa pelos cumes das copas, vai com tua noivinha e teu bico aveludado a dar-lhe beijos, a barriga cheia de sementes, frutas e mosquitos, vai descansando nas árvores solitárias, voando no meio de outros passarinhos a trocar ideias, conta do bilhetinho, e o entregue à cambaxirra. E lá vai a cambaxirra, que um dia foi menina. Larga os comércios e as indústrias, os engarrafamentos, passa por cima de Fortaleza sem se deixar seduzir, eu vou cuidar aqui de tua tigelinha funda com teus ovinhos, vai com teu esposo para não te sentires sozinha, vai, irrequieta, e entrega o bilhetinho ao carcará. Corre, carcará, no rumo dos Cariris, vencendo as caatingas, com tua barriga escura, limpando o mundo das lembranças de morte, pousando nas margens das rodovias, vai para o alto dos ministérios, mas antes, no caminho, entrega o bilhete à coruja-buraqueira. Voa, buraqueira, sai do buraco abandonado pelo tatu, voa de dia, com teu olhar lunático, carregando a terra vermelha de Brasília em tuas penas, vai gritando teu alerta estridente, e no crepúsculo, quando quiseres comer um escorpiãozinho ou um besouro-azul, passa o bilhete para o fim-fim. Mas não é o fim, fim-fim, fi-fi-fi, vi-vi-vi, fiim-fiiim, vai cantando, gaturaminho, com o bilhete no bico, vai, risadinha, nas horas quentes, chilreando e remedando outros cantos, alegre, comendo frutinhas de embaúba, mas não deixa cair o bilhetinho do bico, e o entrega ao fogo-apagou. Afogueia, fogo-apagou, chacoalhando seu chocalho, gritando que o fogo-apagou, o fogo-pagou, o arroz-acabou para este povo das quebradas, leva contigo a rolinha-caldo-de-feijão, guarda as forquilhas, vai olhando as arquiteturas para arquitetar teus ninhos, deixa a tua esposa a dar sementinhas com leite de pombo para as crianças, passa o Velho Chico, as montanhas de Minas, e entrega o bilhete para a freirinha, que todo mineiro é religioso. Agora é tua vez, freirinha, deixa teu convento, revoa com o marido vestido de hábito, vai de guarda-chuva ao vento, rezando para a mensagem chegar lá, e entrega-a para a jandaia-coroinha, que é da tua fé. Jandaia-coroinha, larga o santuário, lindíssima, toda papagaia, foge com tuas famílias, num cortejo religioso feito missa, comendo flores de pequi, já que os ipês ainda não têm flores, cuidado com os bandidos caçadores, vai comendo os restos das sojas nos campos cerrados, e leva o bilhete até o joão-bobo. Ouve, joãozinho, não sejas bobo, segura bem seguro o bilhetinho e o entregue ao limpa-casa, que depois de limpar a casa o entregará ao macuquinho-de-colar, que o entregará ao marido-é-dia, que por sua vez entregará ao papa-mosca, que o dará à pombinha-das-almas, que passará ao pula-pula que vai pulando pulando entregar o bilhete ao quero-quero, mas não quero. Passareio, o bilhete passa ao relógio para não atrasar, à saracura-três-potes, ao soldadinho com seu cassetete, à tesourinha para me tesourar, ao tico-tico no fubá, já sobrevoando a cidade de asas, passa por cima das superquadras, do Palácio da Alvorada, faz uma curva à esquerda, e numa casa com uma árvore perfumada, pousa na janela do poeta e lhe entrega o bilhetinho. Diz ao poeta que recebi o livro, Aves Comuns do Planalto Central, que já li, que nunca mais vamos deixar ninguém criar passarinho em gaiola, porque quem ama passarinho só faz olhar. ![]() (*) Ana Miranda é jornalista, poeta, pesquisadora e roteirista de cinema. Nasceu em Fortaleza-CE, mas morou muito tempo em Brasília, onde viveu sua infância e adolescência. Em 1978, com um livro de poesias, iniciou sua vida literária. Em 1989, publica seu primeiro romance: Boca do Inferno, traduzido em vários idiomas, baseado na vida do poeta Gregório de Matos. Pelo livro ?Dias & Dias?, inspirado da vida do poeta Gonçalves Dias, Ana Miranda recebeu elogio muito especial de José Midlin. Ambas publicações lhe deram dois ?Prêmio Jabuti?. Diversa, ousada, eclética e de uma sensibilidade única, Ana Miranda escreveu o romance da biodiversidade. Se ambientou em plena floresta amazônica para escrever YUXIN, um livro que cria uma linguagem para investigar o que compõe o pensamento de uma indiazinha. Organize as 3 colunas com o nome popular de cada pássaro, o nome científico e sua foto. Exemplo: (ALMA-DE-GATO) - 1 - O - XXIII
AUTORES: MARIA CÂNDIDA VILLELA CRUZ
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