* Itajaí-SC - 22 agosto de 1943 / + Rio de Janeiro - 30 de junho
Zilda Ferreira, do Rio de Janeiro
28 de Agosto de 2010
Era o ano de 1993. A RIO-92 (Conferência sobre Meio Ambiente da ONU realizada no Rio de Janeiro) parecia que ainda não havia acabado, tal era a efervescência de encontros ambientais. Discretamente, num canto do auditório do Hotel Novo Mundo estava o professor Elmo da Silva Amador ouvindo atentamente as mais diversas teorias, em um dos muitos seminários. Foi quando conheci o professor e ambientalista. Foi admiração e respeito à primeira vista.
Os grandes movimentos ambientais dos anos 80 passaram, nessa época, a ser correntes acadêmicas tais como: os conservacionistas, normalmente ligados às teorias européias e norteamericanas, e os socioambientalistas, principalmente, às latinoamericanas. Era natural nesse contexto que os jornalistas, não iniciados, se sentissem inseguros e precisassem de apoio acadêmico. Foi assim que me aproximei do professor Elmo Amador, grande figura humana, extremamente simples, que o conhecia desde a RIO-92. Descobri, logo em seguida, que ele era quem mais sabia sobre o Programa de Despoluição da Baia de Guanabara, o assunto do momento. Nesse tempo, o professor Elmo Amador tinha 49 anos e se não tivesse nos deixado dia 30 de junho, completaria 67 anos em 22 de agosto. Geógrafo e geólogo, o professor Elmo conhecia a geografia do Rio de Janeiro melhor do que sua própria mão. Havia pesquisado não só os ecossistemas periféricos, mas a completa história da ocupação da Cidade Maravilhosa. Conhecia em detalhes seus morros, seus vales e suas encostas. Importante: sabia onde e por quê poderia ocorrer enchentes. Nessa época, telefonava tanto para casa dele, que sua esposa já conhecia minha voz. Quando queria checar alguma denúncia ligava também para ele. Se não me desmentisse, sabia que era verdade. Mas ele sempre me recomendava: ?Zildinha, cuidado para não prejudicar inocentes?. Quando comecei a dar cursos livres na Associação Brasileira de Imprensa - o primeiro convidado foi o professor Elmo. Foram vários os palestrantes ilustres, inclusive ex-ministros do Meio Ambiente. Mas, se perguntarem às minhas ex-alunas e companheiras, qual foi a palestra-aula mais interessante, dirão com certeza que foi a do professor Elmo sobre a ?Formação da baía de Guanabara?. O professor Elmo Amador era socialista convicto. De esquerda, mas respeitadíssimo pela direita. Argumentava que os principais problemas ambientais decorriam da privatização e da apropriação indevida da natureza por poucos em detrimento de muitos. Nada amador: Elmo era um profissional do meio ambiente.
"Nada AMADOR: o professor Elmo era um profissional do meio ambiente, da pesquisa, da solidariedade e da cidadania"
Depoimentos
Corrupção no programa de despoluição da baía de Guanabara "Os grandes corruptores, empresários ou governantes, que querem ganhar a qualquer custo, mesmo agredindo o meio ambiente, dificilmente são punidos. Normalmente, são punidos os pequenos funcionários, de baixo escalão".
Sobre a Lei dos Crimes Ambientais "Essa Lei foi muito festejada pelos ambientalistas, mas gerou novas formas de irregularidades, sofisticando o esquema de corrupção. No Rio, por exemplo, possibilitou o aparecimento de consultorias e auditorias conduzidas por ex-funcionários graduados da própria FEEMA e de outros órgãos ambientais".
Sofisticação do esquema de corrupção "Há fatores estruturais, dos quais não quero me pronunciar. Mas há um fator muito importante a ressaltar: o sucateamento dos órgãos ambientais. A falta de interesse político, o aviltamento salarial, a falta de perspectiva, a desvalorização profissional, a falta de planos de carreira, de renovação de funcionários por concursos públicos, tudo isso contribuiu para o sucateamento dos órgãos ambientais".
Responsabilidade do Legislativo no quadro de corrupção "Ah.... vocês querem me matar. Não posso responder, porque não posso provar judicialmente. Mas se quiserem mesmo saber é só ler o Zuenir Ventura, "Exceção ou Regra", na página 7 de O Globo, (13/ novembro/2004) onde há descrição do esquema de corrupção na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Zuenir explicou tudo. Falou da evolução patrimonial de 27 deputados que chegou a 735%... Disse quem era o chefe da máfia dos combustíveis, um assessor parlamentar, e sua relação com algumas estrelas do Legislativo. E conclui, brilhantemente, dizendo que uma das razões para a má vontade generalizada com os políticos é, não por acaso, a idéia de que ou são corruptos ou legislam em causa própria ou se protegem corporativamente ou são tudo isso ao mesmo tempo".
"A falta de interesse político, o aviltamento salarial, a falta de perspectiva e a desvalorização profissional contriui para o sucateamento dos órgãos ambientais."
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